Conto, Uma Partida, 1892

Uma partida

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em A Estao, de 31/10/1892 a 31/12/1892.

CAPTULO PRIMEIRO

Posso dizer o caso, o ano e as pessoas,
menos os nomes verdadeiros. Posso ainda dizer a provncia, que foi a do Rio de
Janeiro. No direi o municpio nem a denominao da fazenda. Seria exceder as
convenincias sem utilidade.

Vai longe o ano; era o de 1850. A fazenda era do Coronel X, digamos Xavier. Boa casa de vivenda, muitos escravos, mas pouca
ordem, e produo inferior  que devia dar. O feitor, que era bom a princpio,
virou desmazelado, como dizia o coronel aos amigos, sem que este acabasse de
substitu-lo como diziam os amigos do coronel. Corriam algumas lendas;
sussurrava-se que o fazendeiro devia certas mortes ao feitor, e da a
dependncia em que estava dele. Era falso. Xavier no tinha alma assassina, nem
sequer vingativa. Era duro de gnio; mas no ia alm de algumas aes duras.
Isso mesmo parece que afrouxava nos ltimos tempos. Talvez tivesse pouca
aptido para dirigir um estabelecimento agrcola; mas os primeiros anos de
propriedade desmentiam esta suposio. Foram anos prsperos, de grande trabalho
e vivas esperanas. O terceiro ano confirmou algumas destas; mas o quarto foi
j decadente, e os restantes vieram, ora melhor, ora pior, sem que a lavoura
tornasse ao que fora. Os escravos mortos ou fugidos eram substitudos por
pretos importados de contrabando, meias-caras, como se dizia. Os
correspondentes da antiga corte adiantavam dinheiro. Xavier no perdeu o
crdito.

Tinha perto de quarenta anos.
Pertencia a uma antiga famlia agrcola, espalhada pelo Rio de Janeiro, Minas
Gerais e S. Paulo. O pai criou-o um pouco  revelia. J na fazenda, j na
capital, aonde ele vinha muitas vezes, fazia tudo que queria e gastava  larga.
O pai desejava que ele fosse doutor ou bacharel em direito; mas o filho no
quis e no foi nada. Quando o velho morreu deixou-lhe a fazenda em bom estado,
dinheiro nas mos dos correspondentes, muito crdito, ordem e disciplina.
Xavier tinha vinte e sete anos. Correu da corte e j achou o pai enterrado.
Alguns amigos do velho, que estavam na fazenda, receberam o herdeiro com muitas
provas de estima, desejos de perseverana na casa; mas o moo Xavier, ou porque
eles acentuassem demasiado a afeio, ou porque se intrigassem uns aos outros,
em breve tempo os ps na rua. Parece que deles  que nasceu mais tarde a lenda
das mortes mandadas cometer pelo fazendeiro.

J ficou dito que os dois
primeiros anos foram prsperos. Como a prosperidade vinha do tempo do velho, 
fcil crer que continuou pelo impulso anterior.  verdade, porm, que Xavier
deu todos os seus cuidados  lavoura, e juntou o esforo prprio ao que ela
trazia.

Os parentes estavam satisfeitos
com a converso do moo. Um deles lanou-lhe uma patente de coronel da Guarda
Nacional; e deu-lhe conselho que tomasse para si a influncia poltica do
municpio. Outro, um velho tio mineiro, escreveu-lhe uma carta dizendo que
casasse.  indecente (concluiu a carta), que voc viva a num serralho de
crioulas, como se diz por aqui. Case-se; no faltam moas bem educadas e
bonitas, com quanto beleza seja prenda dispensvel a uma me de filhos.

CAPTULO II

Quando a carta chegou s mos do
Xavier, estava ele jogando com um viajante que lhe pedira pousada na vspera.
No abriu a carta, no chegou a examinar a letra do sobrescrito; meteu-a no
bolso e continuou a jogar. Tinha sido grande jogador, mas havia j dezoito
meses que no pegava em cartas. O viajante que ali aparecera, entre outras
anedotas que lhe contou, meteu algumas de jogo, e confessou que puxava orelha
da sota. A ocasio, a vocao e o parceiro abriram o apetite ao jovem coronel,
que convidou o hspede a um divertimento. O hspede trazia cartas consigo, mas
no foram precisas; Xavier, posto que resolvido acabar com o vcio, tinha
muitos baralhos em casa.

Jogaram trs dias seguidos. Xavier
perdeu dois contos de ris, e despediu o hspede com as melhores maneiras deste
mundo. Sentia a perda; mas o sabor das cartas foi maior.

Foi na noite do primeiro daqueles
trs dias que Xavier leu os conselhos do tio mineiro para que casasse e no os
achou maus. No dia seguinte de manh tornou a pensar no assunto. Quando o
hspede se despediu, a idia do casamento apoderou-se dele outra vez. Era uma
aventura nova, e a vida de Xavier fora dada a tantas, que esta devia namor-lo.
Nenhuma ambio, curiosidade apenas. Pensou em vrias moas, fez-se a seleo
at que adotou a filha de um fazendeiro de S. Paulo, que ele conhecera, anos
passados, com dezessete de idade; devia ir em vinte e no lhe constava que
tivesse marido.

Ao v-la, dois meses depois,
Xavier estava longe de crer que a mocinha de dezessete anos fosse aquela
magnfica moa de vinte. S mais tarde soube que ela, desde os dezessete anos,
ficara namorada dele. Acordos tais so prprios de novelas; nem eu poria isto
aqui, se no fora a necessidade. Parecem coisas preparadas, e, entretanto,
examinando-as bem, so banais e velhas. Esquecemo-nos de que os novelistas, 
fora de levarem para o papel os lances e situaes da realidade, deram-lhe um
aspecto romanesco.

No houve obstculos ao casamento.
O velho tio mineiro foi padrinho de Xavier, e, dentro de pouco, tornava este 
fazenda fluminense, acompanhado de D. Paula Xavier, sua consorte. Viagem longa
e cansativa; foram naturalmente repousar. Descansemos ns tambm nesta pontinha
de captulo.

CAPTULO III

D. Paula no teve a lua-de-mel
deliciosa que esperava. O casamento fora obra de reflexo e de conselho. Assim,
o amor que adormecera nela, pouco depois de nascido, acordou espantado de tornar
 realidade das coisas, e principalmente de no as reconhecer. Como Epimnides,
via um mundo diverso do que deixara. Esfregou os olhos, uma e mais vezes, tudo
era estranho. O Xavier de trs anos passados no era este de hoje, com as suas
feies duras, ora alegre, ora frio, ora turbulento  muitas vezes calado e
aborrecido , estouvado tambm, e trivial  sem alma, sem delicadeza. Pela sua
parte, Xavier tambm no achou a lua-de-mel que pensava, que era um astro
diferente daquele saudoso e porventura potico, vertendo um claro de prolas
fundidas  mais ou menos isto  que a mulher sonhara achar ao p do noivo.
Queria uma lua-de-mel patusca.

Um e outro tinham-se enganado: mas
estavam unidos, cumpria acomodarem-se  com a sorte. Ningum troca o bilhete de
loteria que lhe saiu branco; e se o emenda, para receber um prmio, vai para a
cadeia. O bilhete branco  o sonho; deita-se fora, e fica-se com a realidade.

Quatro meses depois de casado,
Xavier teve de ir ao Rio de Janeiro, onde se demorou poucos dias; mas voltou no
ms seguinte, e demorou-se mais, e afinal amiudou as viagens e dilatou as
demoras. A primeira suspeita de D. Paula  que ele trazia amores, e no lhe
doeu pouco; chegou a diz-lo ao prprio marido, mas sorrindo e com brandura.

 Tolinha, respondeu ele. Pois eu
agora...? Amores...? No me faltava mais nada. Gastar dinheiro para dar com os
ossos na Corte, atrs de raparigas... Ora voc! Vou a negcios; o
correspondente  que me demora com as contas. E depois a poltica, os homens polticos,
h idia de fazer-me deputado...

 Deputado?

 Provincial.

 Por que no aceita?

 Eu, deputado? Tomara eu tempo
para cuidar de mim. Com que, ento, amores? continuou ele rindo. Voc  capaz
de fazer pensar nisso.

D. Paula creu no marido, estava
ento grvida, e punha grandes esperanas no filho ou filha que lhe nascesse.
Era a companhia, a alegria, a consolao, tudo o que o casamento no lhe deu.
Como se aproximasse o termo da gestao, Xavier suspendeu as viagens  capital;
mas por esse tempo apareceram na fazenda uns trs sujeitos, que se hospedaram
por dias, e com quem ele jogou  larga. A mulher viu que ele amava as cartas.
Em si o jogo no a incomodava; alguns parentes seus davam-se a essa distrao,
e nunca ouvira dizer que fosse pecado nem vcio. O mal vinha da preocupao
exclusiva. Durante aqueles oito dias, Xavier no pensou que era casado ou
fazendeiro: todo ele era cartas. Sabia muitos jogos; mudava de um para outro,
com o fim de dar descanso ao esprito.

 Enquanto se descansa, carrega-se
pedra, dizia ele aos parceiros.

Acabaram os oito dias, os hspedes
foram-se, com promessa de tornar mais tarde. Xavier, apesar de haver perdido
muito, estava bonacho. Outras vezes, embora ganhasse, irritava-se. Por qu?
Estados de alma que os fatos externos podiam explicar at certo ponto, mas que
prendiam naturalmente com a ndole do homem. No era o dinheiro que o seduzia
no jogo, mas as cartas, quase que s elas. Certo, preferia ganhar a perder 
at para ter sempre com que jogar, mas era o jogo em si mesmo, as suas
peripcias, os seus lances, as rodas de fortuna, a ansiedade na espera, a luta,
a superstio, a f em uma carta, a descrena em outras, todas as comoes
trazem o meneio delas. Quando jogava assim uma boa temporada, dia e noite,
ficava farto por algum tempo. O pior  que o prazo do descanso ia diminuindo, e
a necessidade vinha cada vez mais cedo.

CAPTULO IV

Quando veio a hora de nascer o
filho, estava Xavier em um dos estados de desejo; o acontecimento pde distra-lo.
J tinha em casa mdico e uma comadre, um tio da mulher e duas filhas. No
faltou nada. Havia animais encilhados e pajens prontos para correr  vila
prxima, a buscar o que fosse preciso. D. Paula padeceu muito, e as esperanas
dissiparam-se na mais triste das realidades; o filho nasceu morto. A dor da me
foi profunda, a convalescena longa.

Quando ficou de todo
restabelecida, Xavier props-lhe virem ao Rio de Janeiro, passar a temporada lrica;
ela aceitou, menos por gosto, menos ainda por distrao, que por ceder ao
pequeno acesso de ternura do marido. Com efeito, ele expediu ordens para que
arranjassem casa e todas as comodidades. Vieram; Xavier assinou um camarote. D.
Paula tinha aqui parentes, amigos, conhecidos; a vida teve desde logo um bom
aspecto. Pela sua parte, o marido mostrava-se mais atento aos seus desejos. Era
uma renascena? Ela sups que sim e isto ajudou a faz-la sarar da alma. No
faltava quem a cortejasse, quem a admirasse, e naturalmente, quem a invejasse,
pela beleza, pela graa, pelas maneiras simples e discretas, particularmente
suas. Xavier parecia tirar vaidade desse efeito geral. Seria mais um elo que os
prendesse intimamente.

Entretanto, pouco depois de chegados,
comearam as suas noitadas fora de casa. Da primeira vez, quando ele se
recolheu (quatro horas da manh) ainda D. Paula estava acordada, ansiosa,
vestida, e atirou-se a ele, satisfeita de o ver. Sinceramente receava algum
perigo; no pensou em amores nem cartas. Xavier no correspondeu  ansiedade da
mulher, nem entendeu os seus receios. Respondeu-lhe irritado; disse-lhe que
fizera mal em no ter dormido.

 Sou alguma criana?

 Mas, Xavier...

 Roceiro, sou; mas conheo a
cidade na ponta dos dedos. Voc est j com as manchas das moas da corte; no
tarda algum ataque de nervos. Que choro  esse? V dormir, no me aborrea.
Descanse, que no me perco.

A segunda noitada foi dali a trs
dias; D. Paula s tarde pde dormir; acordou, quando ele chegou, mas no
descerrou os olhos. Desconfiou que fossem mulheres; ele confessou-lhe, no dia
seguinte, que estivera em casa de um amigo, jogando o voltarete.

 Quando demos por ns eram duas
horas da noite, concluiu.

Dali em diante, quando tinha de
passar fora a noite, no saa de casa sem lhe dizer:  Vou ao voltarete. D.
Paula soube que era verdade, e acostumou-se a dormir  hora da roa, porque nas
noites de teatro ou de visitas, ele no deixava de a acompanhar, e dormiam
naturalmente tarde.

CAPTULO V

Voltaram  corte uma e muitas
vezes, at que Xavier abandonou de todo a fazenda nas mos do administrador, e
ficou a viver aqui. Por casa, entregou a mulher a si mesma e continuou a vida
de sempre. Eram j passados trs anos. O costume e o decoro os prendiam; nenhum
deles amava o outro. No veio nenhum filho que pudesse suprir as lacunas do
amor conjugal.

Dona Paula ia ficando cada vez
mais formosa. A corte aperfeioou os encantos naturais. No interior no tinha
necessidade de observar todo o ritual elegante nem a grande variedade da moda.

Na Corte, a necessidade
impunha-se, e achava na alma dela excelente disposio. Gostava de andar bem,
de aparecer muito, de ir a toda parte; e no lhe faltavam amigos nem parentes
que a acompanhassem e lhe satisfizessem todos os desejos. Bailes, teatros,
passeios, teve tudo o que quis, no lhe negando o marido dinheiro para coisa
alguma. s vezes, estremunhado do jogo, ele respondia-lhe errado:

 O baile do Vergueiro?

 Sim;  no dia 7.

 Mas o trunfo era espadas.

 Que espadas?

 Eu tinha o rei e o quatro.

 Ora, Xavier, no falo de cartas,
falo do baile do Vergueiro, no dia 7 de outubro; estamos convidados.

No parea demais essa confuso do
homem. Naturalmente, alguma partida especial, grave, luta grande, ou pelo
dinheiro ou pela honra da vitria, tomara a casa do crebro onde nenhuma outra
idia achava alojamento. Dona Paula chegava j a rir desses desconchavos.
Depois, explicava o riso, e ele ria tambm, e referia o motivo da trapalhada.
Quando ela notava que isso mesmo o aborrecia, evitava explicaes. O marido era
enfadonho, longo, repisava o que dizia, e achava pequeno interesse em coisas
que, para ela, no valiam nada. J lhe no importavam horas de chegada. Ele
entrava de madrugada, s vezes de manh, s seis horas e mais. Dona Paula
dormia at nove, e almoava s. Outras vezes, o jogo era em casa; mas a casa
era grande, e a sala do jogo era ao fundo. Na frente ela recebia, tocava e ria.
Era conveno entre ambos, em tais casos, dizer que ele estava fora.

CAPTULO VI

Correu assim um ano, e mais. Dona
Paula ia para vinte e seis anos, como quem sobe de esplendor em esplendor,
devia ser uma daquelas mulheres que os trinta aperfeioam, e os quarenta no
conseguem enxovalhar. Que era mais natural que a admirassem? No lhe faltavam
olhos cobiosos, nem desejos mal sofridos. Ela saboreava-os com discrio, sem
corresponder a nada, durante os primeiros tempos; mas a liberdade, o nmero dos
adoradores, a persuaso de no perder com isso, f-la receber agradecida e
lisonjeada o culto de tanta gente. Contavam-lhe muitas conversaes a seu
respeito; os homens idosos, mas brincalhes, repetiam-lhe na cara, ao p das
prprias mulheres, coisas que corriam fora  nomes que lhe davam, estrela do
sul, rainha das salas e outros to banais, como esses, mas igualmente sinceros.

Conhecia meia dzia de homens que
se mostravam particularmente assduos nos lugares a que ela fosse, e mais
pertinazes em dar-lhe a entender que a queriam. Dona Paula no se alterou com o
nmero, nem com o mal; deixou-os vir. Um deles, bacharel em direito, tinha os
seus trinta anos, e a mais bela de todas as cabeas masculinas do tempo.
Chamava-se Joo Gis. Solteiro e abastado. Era parente remoto de uma senhora
que vivia na Tijuca, onde eles se falaram pela primeira vez. Dona Paula
conhecia-o de o ver muitas vezes, ou no teatro ou na Rua do Ouvidor. Trazia na
lembrana os longos olhos dominadores que ela evitava afrontar, por medo do
duelo, de que podia sair mal ferida; apenas os via por baixo das plpebras
medrosas. Na Tijuca teve de os fitar ainda que o menos possvel, e viu
confirmados esses seus receios. Pensou neles, entretanto, e no sonhou com
outros. Havia ainda um adorador de vinte e dois anos, olhos meigos e bons, cara
sem barba, um triste buo puxado e repuxado sem chegar a bigodes. Para esse era
Dona Paula a primeira paixo. Esse chorava por ela, em casa, s noites, e
escrevia longas cartas para lhe mandar no dia seguinte, o que no iam nunca,
porque lhe faltava tudo, portador e audcia.

No faltava audcia a Joo Gis,
nem portadores, se lhe fossem necessrios. Em breve, estavam as relaes
travadas entre ele e o marido. Gis no gostava de cartas, mas sujeitava-se a
jogar com Xavier nas noites em que este, por acaso, no passava fora ou no
tinha os seus parceiros do costume. Dona Paula viveu cheia de temor durante as
primeiras semanas; tendo brincado com fogo, aterrava-a naturalmente a idia de
o ver chegar s seias. Gis, que era audaz, era tambm hbil, e resolveu criar
primeiramente confiana. Quando esta se estabeleceu de todo, ele declarou-se, e
a batalha, se foi renhida, no foi longa; a vitria acabou completa.

CAPTULO VII

No direi compridamente os
sentimentos de Dona Paula. Foram de duas ordens, mas fora  confessar que o
temor, ltima esperana da virtude, desapareceu com esta; e a cegueira que lhe
trouxeram os olhos do homem fez com que ela no visse j perigos nem perdas.
No receava o marido; pode crer-se que nem recearia a opinio. Era toda do
outro; podia crer-se que a paixo antiga, inspirada pelo marido desde os
dezessete anos, enganara-se de porta, e que realmente s amava um homem na
terra: este parente da senhora da Tijuca.

Pouco a pouco, a verdade foi transparecendo
aos olhos estranhos; eles no sabiam resguard-la, e pode ser que ele prprio o
no quisesse. A vaidade no era, alis, o elo mais forte daquele homem;
realmente, o amor dele era violento; mas, a glria do vencedor crescia com a
notcia da posse. A notcia foi cochichada por inveja, por gosto, por
maledicncia, na sala e na rua, no teatro e no baile, e tanto na palestra de
peralvilhos, como entre duas mos de voltarete dos comerciantes,  noite, nos
arrabaldes. Contavam-se os indcios; pesquisava-se a vida de ambos; vinham
episdios, cenas, encontros. E, posto que no fosse j preciso inventar nada,
ainda se inventava alguma coisa.

Dona Paula vivia alheia s
murmuraes. No sabia ler nos rostos das outras mulheres, nem lhes achou
diferena aprecivel no trato. Algumas, por verdadeira repulso, afastaram-se
dela, mas com tal arte e polidez, que a moa nem sentiu a separao. Demais,
que separao podia j sentir em tais condies? Amigas houve que buscavam
saber por direta confidncia o segredo da vida de Paula; nenhuma o obteve. Uma,
no menos ntima, quis puni-la pela crtica e condenao genrica dos seus
atos; ela no a entendeu. Que era a sociedade sem ele? Que era a virtude fora
dele? Tal era o estado moral da consorte de Xavier, quando sucedeu o que lhes
vou contar.

CAPTULO VIII

Gis teve um dia a idia de propor
a D. Paula que deixassem o Rio de Janeiro e o Brasil, e fossem para qualquer
pas do mundo  os Estados Unidos da Amrica do Norte, se ela quisesse, ou
qualquer recanto da Itlia. A prpria Frana, Paris, era um mundo em que
ningum mais daria com eles.

 Voc hesita...

 No hesito, respondeu D. Paula.

 Por que no me responde?

 A proposta  grave, mas no  a gravidade
que me impede de responder j e j. Voc sabe que irei com voc ao fim do
mundo, se for preciso...

 Pois eu no te proponho o fim do
mundo.

 Sim; e acaso  preciso?

Gis ia a sorrir, mas suspendeu a
tempo o sorriso, e fechou o rosto. D. Paula acudiu que estava por tudo; iria 
China, com ele, a uma ilha deserta e inabitada...

Pleno romantismo. Gis pegou-lhe
nas mos e agradeceu-lhe a resposta. Perguntou-lhe ainda se no cedia de
m-vontade, ou se era de corao, se padeceria, caso ele se fosse embora s, e
a deixasse... A resposta de D. Paula foi tapar-lhe a boca; no a podia haver
mais eloqente. Gis beijou-lhe a mo.

 Deixar-me? Voc pensaria acaso
em semelhante coisa, se eu recusasse...?

 Talvez.

 Ento  falso que...

 No, no  falso que te amo
sobre tudo neste mundo; mas tenho um corao orgulhoso, e se percebesse que
preferias os teus cmodos ao nosso amor, eu preferia perder-te.

 Cala-te.

Calaram-se ambos, por alguns
instantes. Ele brincava com uma das mos dela; ela alisava-lhe os cabelos. Se
indagarmo-nos em que iam pensando, acharemos que um e outro, e nada na terra
para onde iriam. Gis, ao menos, s cuidou disso, passados uns dez minutos ou
mais de enlevo, de devaneio, reminiscncias, sonhos e cuidou para dar  bela D.
Paula uma nova causa de espanto.

 E se eu no te propuser o fim do
mundo, mas o princpio?

 No entendo. O princpio?

 Sim, h de haver um princpio do
mundo, pois que h um fim.

 Mas explica-te.

 Se eu te propusesse simplesmente
a minha casa?

D. Paula no achou que responder.
A proposta era agora to audaciosa, to fora de um plano possvel, que sups
fosse gracejo, e olhou para ele sem dizer nada. Parece que at comeou a rir;
mas ficou logo sria, desde que no viu no rosto dele nada que se parecesse com
gracejo, nem sequer doura. Ela j lhe conhecia a expresso da teimosia, e
tinha razo para saber toda a escala dos seus atrevimentos. Ainda assim, no
creu logo. Compreendia que deixassem a terra ptria para ir purgar os seus
erros em algum buraco do mundo; mas sair de uma casa para outra, praticar um
escndalo, gratuito, sem necessidade, sem explicao...

 Sei tudo o que ests pensando,
disse-lhe ele aps alguns segundos.

 Tudo?

 Ento s da minha opinio.

 Que...?

 Que me propes um absurdo.

 Tudo se explica pelo amor,
continuou ele. Se no achas explicao nenhuma,  que no me amaste nunca ou j
no me amas...

D. Paula no teve nimo desta vez,
para tapar-lhe a boca. Abanou a cabea, com um olhar de censura, e um jeito
amargo dos lbios; foi como se no fizesse nada. Gis ergueu-se e estendeu a
mo. Ela fechou-a entre as suas; obrigou-o a sentar-se, quis mostrar-lhe que a
proposta era um erro, mas perdeu-se em palavras vagas e descosidas, que ele no
ouviu, porque tinha os olhos na ponta dos sapatos.

CAPTULO IX

Gis venceu. Poucas horas depois,
tinham tudo ajustado. D. Paula sairia no sbado prximo, para a prpria casa
onde ele morava, em Andara. Parece sonho tudo isto, e a pena mal obedece 
mo; a verdade, porm,  que  verdade. Para explicar de algum modo esse ato de
insensatez,  preciso no esquecer que ele, sobre todas as coisas, amava o
escndalo; e que ela no se sentindo presa por nenhum outro vnculo, mal sabia
que se expunha. la separar-se de toda gente, fechar todas as portas, confirmar
as suspeitas pblicas, afrontar a opinio  tudo como se houvera nascido para
outra sociedade diversa daquela em que vivia. No desconhecia o erro e seguia o
erro. A desculpa que podia ter  que havia feito a mesma coisa at agora, e ia
aliviar a conscincia, pelo menos, da hipocrisia.

Na sexta-feira,  tarde, Gis
mandou-lhe as ltimas indicaes escritas. De noite foi verbalmente confirm-las.
D. Paula tinha visitas e parecia alegre, Gis ressentiu-se da alegria.

 Parece que no me sacrifica
nada, pensou ele; quisera v-la abatida, triste e at chorando... Ri, ao
contrrio; despede-se desta gente, como se devesse receb-la amanh...

Essa descoberta aborreceu-o; ele
saiu sem fazer nenhuma referncia ao ato do dia seguinte. D. Paula, prestes a
cometer o escndalo, teve vergonha de falar dele, e os dois despediram-se como
se no tivessem de ligar, poucas horas depois, os seus destinos.

CAPTULO X

No dia seguinte, Xavier acordou
tarde, tendo-se recolhido tarde, na forma do costume. Indo almoar no viu a
mulher que assistia sempre ao almoo dele; perguntou se estava doente.

 No, senhor.

 Ento, por qu...?

 Est no quarto, sim, senhor.

Xavier acabou de almoar e foi ter
com ela. Achou-a atirada a um canap, com os olhos meios cerrados, o ar
abatido. Tinha dormido mal  noite, duas horas, quando muito, e
interrompidamente. No disse a causa da insnia; no referiu que a idia de ser
a ltima noite que passava sob o teto conjugal  que a pusera nervosa,
inquieta, meia delirante. Tambm ele no lhe perguntou nada, se teria tido
febre, ou dor de cabea, um resfriado; deu duas voltas e pegou em um livro que viu
sobre uma cadeira, um romance francs; leu duas linhas e deixou-o. Em seguida,
falou do almoo, que achou detestvel, e do tempo, que parecia querer mudar.
Consultou o relgio, quase duas horas. Precisava consert-lo; variava muito.
Que horas tinha ela?

 Vai ver, suspirou D. Paula.

Xavier foi ao relgio de mesa  um
pequeno relgio de bronze , e achou que a diferena entre os dois era de
quatro minutos. No valia a pena alterar o seu, salvo se o dela regulava certo.

 Regula.

 Vamos ver amanh.

E sentou-se para descansar o
almoo. Contou-lhe algumas peripcias da noite. Ganhara um conto e oitocentos
mil-ris, depois de ter perdido dois contos e tanto; mas o ganho e a perda eram
nada. O principal foi a teima de uma carta... E ps-se a narrar toda a histria
 mulher, que ouviu calada, enfastiada, engolindo a raiva, e dizendo a si mesma
que fazia muito bem deixando a companhia de semelhante homem. Xavier falava com
interesse, com ardor, parecia crescer, subir,  medida que os incidentes lhe saam
da boca. E vinham nomes desconhecidos, o lvaro, Dr. Guimares, o Chico de
Mattos, descrevia as figuras, os sestros as relaes de uns com outros, anedota
da vida de todos. Quando concluiu parecia afrontado, pediu alguma coisa; a
mulher preparou-lhe um pouco de gua de melissa.

 Voc no quer fazer a digesto
calado, disse-lhe ela.

Se ele visse bem o rosto de D.
Paula, perceberia que aquela frase, proferida com um tom de repreenso branda,
no correspondia ao sentimento da mulher. D. Paula, se alguma dvida pudesse
ter em fugir de casa, j no a tinha agora; via-se-lhe na cara uma expresso de
asco e desprezo.

 Passou, disse ele.

Ergueu-se; ia ver uns papis.

 Voc por que no se deita um
pouco, disse-lhe; veja se passa pelo sono. Eu dou ordem para que no a acordem;
e a propsito, janto fora, janto com o Chico de Mattos...

 O do s de ouro? perguntou ela
com os dentes cerrados.

 Justamente, acudiu ele rindo...
Que veia de sujeito! O s de ouros...

 J sei, interrompeu ela. Vai ver
os papis.

 Um felizardo!

E, se no falou outra vez do Chico
de Mattos, contou uma anedota do Roberto, outra do Sales, outra do Marcelino. A
mulher ouviu-as todas serenamente  s vezes risonha. Quando ele acabou, disse-lhe
em tom amigo:

 Ora, voc que tem jogado com
tanta gente, s uma vez jogou comigo, h muito tempo, o ecart... No  ecart
que se chama aquele jogo que voc me ensinou? Vamos a uma partida.

Xavier ps-se a rir.

CAPTULO XI

 Tinha graa, disse ele. Para
qu?

 H maridos que jogam com as
mulheres.

 A bisca em famlia?

 No, no jogo a tentos.

 A dinheiro? Tambm tinha sua
graa, porque o que eu ganhasse em dinheiro, pagaria depois em vestidos; mas ainda
assim, pronto. H certo interesse. Vou buscar as cartas.

Saiu e voltou com as cartas.

 No te proponho dinheiro, disse
D. Paula. Nem dinheiro nem tentos.

 Ento qu? As estrelas? Os
nossos lugares no cu?

 No, a minha pessoa.

 Como? perguntou ele, espantado.

 Se eu perder, voc faz de mim o
que quiser; se eu ganhar, ganho a liberdade de ir para onde for da minha
vontade.

 Repete.

Dona Paula repetiu a proposta.

 A est uma singular partida,
exclamou Xavier. Se eu ganhar fao de voc o que quiser...

 E se eu ganhar...

 J sei. Vale a pena arriscar,
porque, se voc perder, no sabe em que se mete. Vingarei o meu susto
exemplarmente.

As mos dela estavam quentes, os olhos
brilhantes. Ele, diante de uma partida nova, nunca jogada, absurda, ficara
pasmado, trmulo. Era ento...? Mas quem diabo lhe metera aquela idia na
cabea? perguntou-lhe. E depois de um silncio:

 Gis, naturalmente.

 No. Por que seria esse e no
outro?

 Voc sabe por qu.

 No sei nada, murmurou.

 Sei-o eu.  a grande vantagem
das cartas annimas. Trs cartas annimas contaram-me tudo. Guardei a primeira;
queimei as outras, e nunca lhe disse nada, porque no adiantavam nada.

D. Paula negou ainda, por boca e
por gesto; afinal, calou-se e ouviu tudo o que ele continuou a dizer. Xavier
falava sem clera. Confessou-lhe que a primeira impresso foi acerba; mas
depois sarou a ferida e continuou bem. Decididamente, o jogo estava acima de
tudo. Era a consolao real e nica da terra e do cu. Que se jogaria no cu?
D. Paula rompeu finalmente:

 Bem, concluamos, disse ela.
Esto postas as condies e aceitas. Vamos s cartas.

 Uma partida em trs, disse ele;
quem ganhar as duas primeiras, levanta a mesa.

Baralhou as cartas, distribuiu-as
e ganhou logo a primeira. Jogaram segunda. Foram  terceira, que desempatava.

 O rei, disse ele, marcando um
ponto.

Jogou a primeira carta, mas no
jogou segunda. Parou, as cartas caram-lhe, fez um gesto, e, antes que a mulher
pudesse ver nada, caiu redondamente no cho. D. Paula acudiu, chamou, vieram
criados e um mdico vizinho; Xavier estava morto. Uma congesto.

CAPTULO XII

Ningum acredita que D. Paula
tivesse lgrimas para o marido. Pois teve-as  poucas,  certo  mas no deixou
de as chorar; quando o cadver saiu. No dia seguinte, a impresso passara.

Que partida jogaria, agora que fortuna
a libertara de toda a obrigao? Gis visitou-a, dias depois do enterro. No
lhe falou em sair de casa; tambm no lhe falou de amores. D. Paula agradeceu
esse respeito, no obstante a certeza que ele tinha da separao moral em que
ela viveu com o marido. O respeito estendeu-se a dois meses, depois quatro;
Gis fez-lhe algumas visitas, sempre frias e curtas.

Dona Paula comeou a crer que ele
no a amava. No dia em que esta convico lhe entrou no corao, esperou
resoluta; mas esperou em vo. Gis no voltou mais.

A dor e a humilhao de D. Paula
foram grandes. No percebeu que a liberdade e a viuvez a tornavam fcil e banal
para um esprito como o do cmplice. Teve amarguras secretas; mas a opinio
pblica foi em seu favor, porque imaginaram que ela o expulsara de casa, com
sacrifcio e para punio de si mesma.
