Crtica, Porto Alegre: Colombo, 1866

Porto Alegre: Colombo

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
na Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro, 05/06/1866.

O assunto poltico  a preocupao do
momento. Hoje todos os olhos esto voltados para a casa dos legisladores. Que
viria fazer a poesia, a poesia que no vota nem discute, no dia em que o
congresso da nao est reunido para discutir e votar? No estranhem, pois, os
leitores destas revistas, se no fazemos hoje nenhuma apreciao literria.
Apenas mencionaremos a prxima chegada do poema pico do Sr. Porto Alegre, Colombo,
impresso em Berlim, onde se acha o ilustre poeta. Os que cultivam as
letras, e os que as apreciam, j conhecem por terem lido e relido, alguns belos
fragmentos do poema agora publicado. Muitos dos principais episdios tm vindo
 luz em revistas literrias.



O talento do Sr. Porto Alegre acomoda-se
perfeitamente ao assunto do poema; tem as energias, os arrojos, os movimentos
que requer a histria de Cristvo Colombo, e o feito grandioso da descoberta
de um continente. Nenhum assunto oferece mais vasto campo  inveno potica.
Tudo conspirou para levantar a figura de Colombo, at mesmo a perseguio, que
 a coroa dos Galileus da navegao, como dos Galileus da cincia. Descobrindo
um continente virgem  atividade dos povos da Europa, atirando-se  realizao
de uma idia atravs da fria dos elementos e dos obstculos do desconhecido,
Colombo abriu uma nova porta ao domnio da civilizao. Quando Victor Hugo,
procurando a mo que h de empunhar neste sculo o archote do progresso, aponta
aos olhos da Europa a mo da eterna nao yankee, como dizem os
americanos, presta indiretamente uma homenagem  memria do grande homem que
dotou o XV sculo com um dos feitos mais assombrosos da histria. Tal  o
heri, tal  a histria, que o Sr. Porto Alegre escolheu para assunto do poema
pico com que acaba de brindar as letras ptrias.



O assunto de Colombo devia ser tratado por
um americano; folgamos de ver que esse americano  filho deste pas. No 
somente o seu nome que fica ligado a uma idia grandiosa, mas tambm o nome
brasileiro. Como se houve o Sr. Porto Alegre na concepo do poema? J
conhecemos alguns fragmentos, que, embora formosos, no nos podem dar todo o
conjunto da obra. Mas o nome do Sr. Porto Alegre  uma fiana. O autor das Brasilianas
 um esprito educado nas boas doutrinas literrias, robustecido por fortes
estudos, afeito  contemplao dos modelos clssicos. Junte-se a isto um grande
talento, de que tantas provas possui a literatura nacional. Estamos certos de
que as nossas esperanas sero magnificamente realizadas. Os fragmentos
conhecidos so primorosos; por que o no ser o resto?



Um poema pico, no meio desta prosa atual em que
vivemos, e uma fortuna miraculosa. Pretendem alguns que o poema pico no e do
nosso tempo, e h quem j cavasse uma vasta sepultura para a epopia e para a
tragdia, as duas belas formas da arte antiga. No fazemos parte do cortejo
fnebre de Eurpedes e Homero. As formas poticas podem modificar-se com o
tempo, e  essa a natureza das manifestaes da arte; o tempo, a religio e a
ndole influem no desenvolvimento das formas poticas, mas no as aniquilam
completamente; a tragdia francesa no  a tragdia grega, nem a tragdia
shakespeariana, e todas so a mesma tragdia. Este acordo do moderno com o
antigo era o pensamento de Chnier, que muitos sculos depois de Ovdio e
Catulo ressuscitava o idlio e a alegria da antiguidade.



Findou a idade herica, mas os heris no foram
todos na voragem do tempo. Como fachos esparsos no vasto oceano da histria
atraem os olhos da humanidade, e inspiram os arrojos da musa moderna. Casar a
lio antiga ao carter do tempo, eis a misso do poeta pico. Os estudos e o
talento do Sr. Porto Alegre revelam uma ndole apropriada para uma obra
semelhante.



Apreciaremos o novo poema nacional com a
conscincia e imparcialidade que costumamos usar nestes escritos,  o que no
exclui a admirao e a simpatia pelo autor. A nossa mxima literria  simples:
aprender investigando. Um livro do Sr. Porto Alegre d sempre que investigar e
que aprender.



Temos o dever de ser breve.
Como dissemos acima, a preocupao do momento  o assunto poltico. A ateno
pblica est voltada para a reunio das duas casas do parlamento. As musas, num
dia destes recolhem-se  colina sagrada.
