Poesia, Ocidentais, 1901

Ocidentais

Texto-fonte:

Obra
Completa, Machado
de Assis, vol. III,

Nova
Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado
originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

NDICE

O DESFECHO

CRCULO
VICIOSO

UMA
CRIATURA

A
ARTUR DE OLIVEIRA, ENFERMO

MUNDO
INTERIOR

O CORVO

PERGUNTAS
SEM RESPOSTA

TO BE OR
NOT TO BE

LINDIA

SUAVE
MARI MAGNO

A MOSCA AZUL

ANTONIO
JOS

ESPINOSA

GONALVES
CRESPO

ALENCAR

CAMES

JOS DE
ANCHIETA

SONETO DE
NATAL

OS
ANIMAIS ISCADOS DA PESTE

DANTE

A FELCIO DOS SANTOS

MARIA

A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS

CLDIA

NO ALTO

O
DESFECHO

Prometeu sacudiu os braos
manietados

E splice pediu a eterna
compaixo,

Ao ver o desfilar dos sculos que
vo

Pausadamente, como um dobre de
finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e
mais um bilio,

Uns cingidos de luz, outros
ensangentados...

Sbito, sacudindo as asas de
tufo,

Fita-lhe a gua em cima os olhos
espantados.

Pela primeira vez a vscera do
heri,

Que a imensa ave do cu
perpetuamente ri,

Deixou de renascer s raivas que a
consomem.

Uma invisvel mo as cadeias
dilui;

Frio, inerte, ao abismo um corpo
morto rui;

Acabara o suplcio e acabara o
homem.

CRCULO
VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto
vaga-lume:

 'Quem me dera que fosse
aquela loura estrela,

Que arde no eterno azul, como uma
eterna vela!'

Mas a estrela, fitando a lua, com
cime:

 'Pudesse eu copiar o
transparente lume,

Que, da grega coluna  gtica
janela,

Contemplou, suspirosa, a fronte
amada e bela!'

Mas a lua, fitando o sol, com
azedume:

 'Msera! tivesse eu aquela
enorme, quela

Claridade imortal, que toda a luz
resume!'

Mas o sol, inclinando a rtila
capela:

 'Pesa-me esta brilhante
aurola de nume...

Enfara-me esta azul e desmedida
umbela...

Por que no nasci eu um simples
vaga-lume?'

UMA
CRIATURA

Sei de uma criatura antiga e
formidvel,

Que a si mesma devora os membros e
as entranhas

Com a sofreguido da fome
insacivel.

Habita juntamente os vales e as
montanhas;

E no mar, que se rasga,  maneira
de abismo,

Espreguia-se toda em convulses
estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro
despotismo;

Cada olhar que despede, acerbo e
mavioso,

Parece uma expanso de amor e de
egosmo.

Friamente contempla o desespero e
o gozo,

Gosta do colibri, como gosta do
verme,

E cinge ao corao o belo e o
monstruoso.

Para ela o chacal , como a rola,
inerme;

E caminha na terra imperturbvel,
como

Pelo vasto areal um vasto
paquiderme.

Na rvore que rebenta o seu
primeiro gomo

Vem a folha, que lento e lento se
desdobra,

Depois a flor, depois o suspirado
pomo.

Pois essa criatura est em toda a
obra:

Cresta o seio da flor e
corrompe-lhe o fruto;

E  nesse destruir que as suas
foras dobra.

Ama de igual amor o poluto e o
impoluto;

Comea e recomea uma perptua
lida,

E sorrindo obedece ao divino
estatuto.

Tu dirs que  a Morte; eu direi
que  a Vida.

A ARTUR DE OLIVEIRA, ENFERMO

Sabes tu de um poeta enorme

Que andar no usa

No cho, e cuja estranha musa,

Que nunca dorme,

Cala o p, melindroso e leve,

Como uma pluma,

De folha e flor, de sol e neve,

Cristal e espuma;

E mergulha, como Leandro,

A forma rara

No P, no Sena, em Guanabara

E no Escamandro;

Ouve a Tup e escuta a Momo,

Sem controvrsia,

E tanto ama o trabalho, como

Adora a inrcia;

Ora do fuste, ora da ogiva,

Sair parece;

Ora o Deus do ocidente esquece

Pelo deus Siva;

Gosta do estrpito infinito,

Gosta das longas

Solides em que se ouve o grito

Das arapongas;

E, se ama o lpido besouro,

Que zumbe, zumbe,

E a mariposa que sucumbe

Na flama de ouro,

Vaga-lumes e borboletas,

Da cor da chama,

Roxas, brancas, rajadas, pretas,

No menos ama

Os hipoptamos tranqilos,

E os elefantes,

E mais os bfalos nadantes

E os crocodilos,

Como as girafas e as panteras,

Onas, condores,

Toda a casta de bestas-feras

E voadores.

Se no sabes quem ele seja

Trepa de um salto,

Azul acima, onde mais alto

A guia negreja;

Onde morre o clamor inquo

Dos violentos,

Onde no chega o riso oblquo

Dos fraudulentos;

Ento, olha de cima posto

Para o oceano,

Vers num longo rosto humano

Teu prprio rosto.

E hs de rir, no do riso antigo,

Potente e largo,

Riso de eterno moo amigo,

Mas de outro amargo,

Como o riso de um deus enfermo

Que se aborrece

Da divindade, e que apetece

Tambm um termo...

MUNDO
INTERIOR

Ouo que a Natureza  uma lauda
eterna

De pompa, de fulgor, de movimento
e lida,

Uma escala de luz, uma escala de
vida

De sol  nfima luzerna.

Ouo que a natureza,  a natureza
externa, 

Tem o olhar que namora, e o gesto
que intimida

Feiticeira que ceva uma hidra de
Lerna

Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e
mergulho

Dentro em mim, vejo  luz de outro
sol, outro abismo

Em que um mundo mais vasto, armado
de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno
cataclismo,

E, como o outro, guarda em seu
mbito enorme,

Um segredo que atrai, que desafia
 e dorme.

O CORVO

(EDGAR POE)

Em certo dia,  hora,  hora

Da meia-noite que apavora,

Eu, caindo de sono e exausto de
fadiga,

Ao p de muita lauda antiga,

De uma velha doutrina, agora morta,

Ia pensando, quando ouvi  porta

Do meu quarto um soar devagarinho,

E disse estas palavras tais:

' algum que me bate  porta
de mansinho;

H de ser isso e nada mais.'

Ah! bem me lembro! bem me lembro!

Era no glacial dezembro;

Cada brasa do lar sobre o cho
refletia

A sua ltima agonia.

Eu, ansioso pelo sol, buscava

Sacar daqueles livros que estudava

Repouso (em vo!)  dor esmagadora

Destas saudades imortais

Pela que ora nos cus anjos chamam
Lenora.

E que ningum chamar mais.

E o rumor triste, vago, brando

Das cortinas ia acordando

Dentro em meu corao um rumor no
sabido,

Nunca por ele padecido.

Enfim, por aplac-lo aqui no peito,

Levantei-me de pronto, e: 'Com efeito,

(Disse)  visita amiga e retardada

Que bate a estas horas tais.

 visita que pede  minha porta
entrada:

H de ser isso e nada mais.'

Minh'alma ento sentiu-se forte;

No mais vacilo e desta sorte

Falo: 'Imploro de vs,  ou
senhor ou senhora,

Me desculpeis tanta demora.

Mas como eu, precisando de descanso,

J cochilava, e to de manso e manso

Batestes, no fui logo, prestemente,

Certificar-me que a estais.'

Disse; a porta escancaro, acho a
noite somente,

Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,

Que me amedronta, que me assombra,

E sonho o que nenhum mortal h j
sonhado,

Mas o silncio amplo e calado,

Calado fica; a quietao quieta;

S tu, palavra nica e dileta,

Lenora, tu, como um suspiro escasso,

Da minha triste boca sais;

E o eco, que te ouviu, murmurou-te
no espao;

Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.

Logo depois outra pancada

Soa um pouco mais forte; eu,
voltando-me a ela:

'Seguramente, h na janela

Alguma cousa que sussurra. Abramos,

Eia, fora o temor, eia, vejamos

A explicao do caso misterioso

Dessas duas pancadas tais.

Devolvamos a paz ao corao medroso,

Obra do vento e nada mais.'

Abro a janela, e de repente,

Vejo tumultuosamente

Um nobre corvo entrar, digno de
antigos dias.

No despendeu em cortesias

Um minuto, um instante. Tinha o aspecto

De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,

Movendo no ar as suas negras alas,

Acima voa dos portais,

Trepa, no alto da porta, em um
busto de Palas;

Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,

Naquela rgida postura,

Com o gesto severo,  o triste
pensamento

Sorriu-me ali por um momento,

E eu disse: 'O tu que das
noturnas plagas

Vens, embora a cabea nua tragas,

Sem topete, no s ave medrosa,

Dize os teus nomes senhoriais;

Como te chamas tu na grande noite
umbrosa?'

E o corvo disse: 'Nunca mais'.

Vendo que o pssaro entendia

A pergunta que lhe eu fazia,

Fico atnito, embora a resposta
que dera

Dificilmente lha entendera.

Na verdade, jamais homem h visto

Cousa na terra semelhante a isto:

Uma ave negra, friamente posta

Num busto, acima dos portais,

Ouvir uma pergunta e dizer em
resposta

Que este  seu nome: 'Nunca mais'.

No entanto, o corvo solitrio

No teve outro vocabulrio,

Como se essa palavra escassa que
ali disse

Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,

No chegou a mexer uma s pluma,

At que eu murmurei: 'Perdi outrora

Tantos amigos to leais!

Perderei tambm este em
regressando a aurora.'

E o corvo disse: 'Nunca mais!'

Estremeo. A resposta ouvida

 to exata!  to cabida!

'Certamente, digo eu, essa 
toda a cincia

Que ele trouxe da convivncia

De algum mestre infeliz e acabrunhado

Que o implacvel destino h castigado

To tenaz, to sem pausa, nem fadiga,

Que dos seus cantos usuais

S lhe ficou, na amarga e ltima
cantiga,

Esse estribilho: 'Nunca mais'.

Segunda vez, nesse momento,

Sorriu-me o triste pensamento;

Vou sentar-me defronte ao corvo
magro e rudo;

E mergulhando no veludo

Da poltrona que eu mesmo ali trouxera

Achar procuro a lgubre quimera,

A alma, o sentido, o pvido segredo

Daquelas slabas fatais,

Entender o que quis dizer a ave do
medo

Grasnando a frase: 'Nunca mais'.

Assim posto, devaneando,

Meditando, conjeturando,

No lhe falava mais; mas, se lhe
no falava,

Sentia o olhar que me abrasava.

Conjeturando fui, tranqilo a gosto,

Com a cabea no macio encosto

Onde os raios da lmpada caam,

Onde as tranas angelicais

De outra cabea outrora ali se
desparziam,

E agora no se esparzem mais.

Supus ento que o ar, mais denso,

Todo se enchia de um incenso,

Obra de serafins que, pelo cho
roando

Do quarto, estavam meneando

Um ligeiro turbulo invisvel;

E eu exclamei ento: 'Um Deus sensvel

Manda repouso  dor que te devora

Destas saudades imortais.

Eia, esquece, eia, olvida essa
extinta Lenora.'

E o corvo disse: 'Nunca mais'.

Profeta, ou o que quer que sejas!

Ave ou demnio que negrejas!

Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu
do inferno

Onde reside o mal eterno,

Ou simplesmente nufrago escapado

Venhas do temporal que te h lanado

Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo

Tem os seus lares triunfais,

Dize-me: existe acaso um blsamo
no mundo?'

E o corvo disse: 'Nunca mais'.

Profeta, ou o que quer que sejas!

Ave ou demnio que negrejas!

Profeta sempre, escuta, atende,
escuta, atende!

Por esse cu que alm se estende,

Pelo Deus que ambos adoramos, fala,

Dize a esta alma se  dado inda escut-la

No den celeste a virgem que ela chora

Nestes retiros sepulcrais,

Essa que ora nos cus anjos chamam
Lenora!

E o corvo disse: 'Nunca mais'.

Ave ou demnio que negrejas!

Profeta, ou o que quer que sejas!

Cessa, ai, cessa! clamei,
levantando-me, cessa!

Regressa ao temporal,
regressa

 tua noite, deixa-me comigo.

Vai-te, no fique no meu casto abrigo

Pluma que lembre essa mentira tua.

Tira-me ao peito essas fatais

Garras que abrindo vo a minha dor
j crua.'

E o corvo disse: 'Nunca mais'.

E o corvo a fica; ei-lo trepado

No branco mrmore lavrado

Da antiga Palas; ei-lo imutvel,
ferrenho.

Parece, ao ver-lhe o duro cenho,

Um demnio sonhando. A luz cada

Do lampio sobre a ave aborrecida

No cho espraia a triste sombra; e, fora

Daquelas linhas funerais

Que flutuam no cho, a minha alma
que chora

No sai mais, nunca, nunca mais!

PERGUNTAS
SEM RESPOSTA

Vnus Formosa, Vnus fulgurava

No azul do cu da tarde que
morria,

Quando  janela os braos
encostava

Plida Maria.

Ao ver o noivo pela rua umbrosa,

Os longos olhos vidos enfia,

E fica de repente cor-de-rosa

Plida Maria.

Correndo vinha no cavalo baio,

Que ela de longe apenas
distinguia,

Correndo vinha o noivo, como um
raio...

Plida Maria!

Trs dias so, trs dias so
apenas,

Antes que chegue o suspirado dia,

Em que eles poro termo s longas
penas...

Plida Maria!

De confusa, naquele sobressalto,

Que a presena do amado lhe
trazia,

Olhos acesos levantou ao alto

Plida Maria.

E foi subindo, foi subindo acima

No azul do cu da tarde que
morria,

A ver se achava uma sonora rima...

Plida Maria!

Rima de amor, ou rima de ventura,

As mesmas so na escala da
harmonia.

Pousa os olhos em Vnus que
fulgura

Plida Maria.

E o corao, que de prazer lhe
bate,

Acha no astro a fraterna melodia

Que  natureza inteira d
rebate...

Plida Maria!

Maria pensa: 'Tambm tu,
decerto,

Esperas ver, neste final do dia,

Um noivo amado que cavalga perto,

Plida Maria?

Isto dizendo, sbito escutava

Um estrpito, um grito e vozeria,

E logo a frente em nsias
inclinava

Plida Maria.

Era o cavalo, rbido, arrastando

Pelas pedras o noivo que morria;

Maria o viu e desmaiou gritando...

Plida Maria!

Sobem o corpo, vestem-lhe a
mortalha,

E a mesma noiva, semimorta e fria,

Sobre ele as folhas do noivado
espalha.

Plida Maria!

Cruzam-se as mos, na derradeira
prece

Muda que o homem para cima envia,

Antes que desa  terra em que
apodrece.

Plida Maria!

Seis homens tomam do caixo
fechado

E vo lev-lo  cova que se abria;

Terra e cal e um responso
recitado...

Plida Maria!

Quando, trs sis passados,
rutilava

A mesma Vnus, no morrer do dia,

Tristes olhos ao alto levantava

Plida Maria.

E murmurou: 'Tens a expresso
do goivo,

Tens a mesma roaz melancolia;

Certamente perdeste o amor e o
noivo,

Plida Maria?

Vnus, porm, Vnus brilhante e
bela,

Que nada ouvia, nada respondia,

Deixa rir ou chorar numa janela

Plida
Maria.

TO BE OR NOT TO BE

(SHAKESPEARE)

Ser ou no ser, eis a questo.
Acaso

 mais nobre a cerviz curvar aos
golpes

Da ultrajosa fortuna, ou j
lutando

Extenso mar vencer de acerbos
males?

Morrer, dormir, no mais. E um
sono apenas,

Que as angstias extingue e 
carne a herana

Da nossa dor eternamente acaba,

Sim, cabe ao homem suspirar por
ele.

Morrer, dormir. Dormir? Sonhar,
quem sabe!

Ai, eis a dvida. Ao perptuo
sono,

Quando o lodo mortal despido
houvermos,

Que sonhos ho de vir? Pes-lo
cumpre.

Essa a razo que os lutuosos dias

Alonga do infortnio. Quem do
tempo

Sofrer quisera ultrajes e
castigos,

Injrias da opresso, baldes do
orgulho,

Do mal prezado amor choradas
mgoas,

Das leis a inrcia, dos mandes a
afronta,

E o vo desdm que de rasteiras
almas

O paciente mrito recebe,

Quem, se na ponta da despida
lmina

Lhe acenara o descanso? Quem ao
peso

De uma vida de enfados e misrias

Quereria gemer, se no sentira

Terror de alguma no sabida cousa

Que aguarda o homem para l da
morte,

Esse eterno pas misterioso

Donde um viajor sequer h
regressado?

Este s pensamento enleia o homem;

Este nos leva a suportar as dores

J sabidas de ns, em vez de
abrirmos

Caminho aos males que o futuro
esconde,

E a todos acovarda a conscincia.

Assim da reflexo  luz mortia

A viva cor da deciso desmaia;

E o firme, essencial cometimento,

Que esta idia abalou, desvia o
curso,

Perde-se, at de ao perder o
nome.

LINDIA

Vem, vem das guas, msera Moema,

Senta-te aqui. As vozes lastimosas

Troca pelas cantigas deleitosas,

Ao p da doce e plida Coema.

Vs, sombras de Iguau e de
Iracema,

Trazei nas mos, trazei no colo as
rosas

Que o amor desabrochou e fez
viosas

Nas laudas de um poema e outro
poema.

Chegai, folgai, cantai.  esta, 
esta

De Lindia, que a voz suave e
forte

Do vate celebrou, a alegre festa.

Alm do amvel, gracioso porte,

Vede o mimo, a ternura que lhe
resta.

Tanto inda  bela no seu rosto a
morte!

SUAVE MARI MAGNO

Lembra-me que, em certo dia,

Na rua, ao sol de vero,

Envenenado morria

Um pobre co.

Arfava, espumava e ria,

De um riso esprio e bufo,

Ventre e pernas sacudia

Na convulso.

Nenhum, nenhum curioso

Passava, sem se deter,

Silencioso,

Junto ao co que ia morrer,

Como se lhe desse gozo

Ver padecer.

A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, asas de ouro e
granada,

Filha da China ou do Indosto,

Que entre as folhas brotou de uma
rosa encarnada,

Em certa noite de vero.

E zumbia, e voava, e voava, e
zumbia

Refulgindo ao claro do sol

E da lua,  melhor do que
refulgiria

Um brilhante do Gro-Mogol.

Um pole que a viu, espantado e
tristonho,

Um pole lhe perguntou:

'Mosca, esse refulgir, que
mais parece um sonho,

Dize, quem foi que to ensinou?'

Ento ela, voando, e revoando,
disse:

 'Eu sou a vida, eu sou a flor

Das graas, o padro da eterna
meninice,

E mais a glria, e mais o amor'.

E ele deixou-se estar a
contempl-la, mudo,

E tranqilo, como um faquir,

Como algum que ficou deslembrado
de tudo,

Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto, a voltear
no espao,

Uma cousa lhe pareceu

Que surdia, com todo o resplendor
de um pao

E viu um rosto, que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de
Cachemira,

Que tinha sobre o colo nu

Um imenso colar de opala, e uma
safira

Tirada do corpo de Vichnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas
superfinas,

Aos ps dele, no liso cho,

Espreguiam sorrindo as suas
graas finas,

E todo o amor que tm lhe do.

Mudos, graves, de p, cem etopes
feios,

Com grandes leques de avestruz,

Refrescam-lhes de manso os
aromados seios,

Voluptuosamente nus.

Vinha a glria depois;  quatorze
reis vencidos,

E enfim as preas triunfais

De trezentas naes, e os parabns
unidos

Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo  que no
rosto aberto

Das mulheres e dos vares,

Como em gua que deixa o fundo
descoberto,

Via limpos os coraes.

Ento ele, estende a mo calosa e
tosca,

Afeita a s carpintejar,

Com um gesto pegou na fulgurante
mosca,

Curioso de a examinar.

Quis v-la, quis saber a causa do
mistrio.

E, fechando-a na mo, sorriu

De contente, ao pensar que ali
tinha um imprio,

E para casa se partiu.

Alvoroado chega, examina, e
parece

Que se houve nessa ocupao

Miudamente, como um homem que
quisesse

Dissecar a sua iluso.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal
arte, que ela,

Rota, baa, nojenta, vil,

Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe
aquela

Viso fantstica e sutil.

Hoje, quando ele a vai, de alo e
cardamomo

Na cabea, com ar taful,

Dizem que ensandeceu, e que no
sabe como

Perdeu a sua mosca azul.

ANTNIO JOS

(21 de outubro de 1739)

Antnio, a sapincia da Escritura

Clama que h para a humana
criatura

Tempo de rir e tempo de chorar,

Como h um sol no ocaso, e outro
na aurora.

Tu, sangue de Efraim e de Issacar,

Pois que j riste, chora.

ESPINOSA

Gosto de ver-te, grave e
solitrio,

Sob o fumo de esqulida candeia,

Nas mos a ferramenta de operrio,

E na cabea a coruscante idia.

E enquanto o pensamento delineia

Uma filosofia, o po dirio

A tua mo a labutar granjeia

E achas na independncia o teu
salrio.

Soem c fora agitaes e lutas,

Sibile o bafo asprrimo do
inverno,

Tu trabalhas, tu pensas, e
executas

Sbrio, tranqilo, desvelado e
terno,

A lei comum, e morres, e
transmutas

O suado labor no prmio eterno.

GONALVES
CRESPO

Esta musa da ptria, esta
saudosa

Niobe dolorida,

Esquece acaso a vida,

Mas no esquece a morte gloriosa.

E plida, e chorosa,

Ao Tejo voa, onde no cho cada

Jaz aquela evadida

Lira da nossa Amrica viosa.

Com ela torna, e, dividindo os
ares,

Trpido, mole, doce movimento

Sente nas frouxas cordas
singulares.

No  a asa do vento,

Mas a sombra do filho, no momento

De entrar perpetuamente os ptrios
lares.

ALENCAR

Ho de anos volver,  no como as
neves

De alheios climas, de geladas
cores;

Ho de os anos volver, mas como as
flores,

Sobre o teu nome, vvidos e
leves...

Tu, cearense musa, que os amores

Meigos e tristes, rsticos e
breves,

Da indiana escreveste,  ora os
escreves

No volume dos ptrios esplendores.

E ao tornar este sol, que te h
levado,

J no acha a tristeza. Extinto 
o dia

Da nossa dor, do nosso amargo
espanto.

Porque o tempo implacvel e
pausado,

Que o homem consumiu na terra
fria,

No consumiu o engenho, a flor, o
encanto...

CAMES

I

Tu quem s? Sou o sculo
que passa.

Quem somos ns? A multido
fremente.

Que cantamos? A glria
resplendente.

De quem? De quem mais soube a
fora e a graa.

Que cantou ele? A vossa mesma
raa.

De que modo? Na lira alta e
potente.

A quem amou? A sua forte gente.

Que lhe deram? Penria, ermo,
desgraa.

Nobremente sofreu? Como homem
forte.

Esta imensa oblao?... -lhe
devida.

Paga?... Paga-lhe toda a adversa
sorte.

Chama-se a isto? A glria
apetecida.

Ns, que o cantamos?... Volvereis
 morte.

Ele, que  morto?... Vive a eterna
vida.

II

Quando, transposta a lgubre
morada

Dos castigos, ascende o florentino

 regio onde o claro divino

Enche de intensa luz a alma
nublada,

A saudosa Beatriz, a antiga amada,

A mo lhe estende e guia o
peregrino,

E aquele olhar etreo e cristalino

Rompe agora da plpebra sagrada.

Tu, que tambm o Purgatrio
andaste,

Tu, que rompeste os crculos do
Inferno,

Cames, se o teu amor fugir
deixaste,

Ora o tens, como um guia alto e
superno

Que a Natrcia da vida que
choraste

Chama-se Glria e tem o amor
eterno.

III

Quando, torcendo a chave
misteriosa

Que os cancelos fechava do
Oriente,

O Gama abriu a nova terra ardente

Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma viso resplandecente

Lhe amostrou no futuro a sonorosa

Tuba, que cantaria a ao famosa

Aos ouvidos da prpria e estranha
gente.

E disse: 'Se j noutra,
antiga idade,

Tria bastou aos homens, ora quero

Mostrar que  mais humana a
humanidade.

Pois no sers heri de um canto
fero,

Mas vencers o tempo e a
imensidade

Na voz de outro moderno e brando
Homero.'

IV

Um dia, junto  foz de brando e
amigo

Rio de estranhas gentes habitado,

Pelos mares asprrimos levado,

Salvaste o livro que viveu
contigo.

E esse que foi s ondas arrancado,

J livre agora do mortal perigo,

Serve de arca imortal, de eterno
abrigo,

No s a ti, mas ao teu bero
amado.

Assim, um homem s, naquele dia,

Naquele escasso ponto do universo,

Lngua, histria, nao, armas,
poesia,

Salva das frias mos do tempo
adverso.

E tudo aquilo agora o desafia.

E to sublime preo cabe em verso.

1802-1885

Um dia, celebrando o gnio e a
eterna vida,

Victor Hugo escreveu numa pgina
forte

Estes nomes que vo galgando a
eterna morte,

Isaas, a voz de bronze, alma
sada

Da coxa de Davi; squilo que a
Orestes

E a Prometeu, que sofre as
vinganas celestes

Deu a nota imortal que abala e
persuade,

E transmite o terror, como excita
a piedade.

Homero, que cantou a clera
potente

De Aquiles, e colheu as lgrimas
troianas

Para glria maior da sua amada
gente,

E com ele Virglio e as graas
virgilianas;

Juvenal que marcou com ferro em
brasa o ombro

Dos tiranos, e o velho e grave
florentino,

Que mergulha no abismo, e caminha
no assombro,

Baixa humano ao inferno e regressa
divino;

Logo aps Caldern, e logo aps
Cervantes;

Voltaire, que mofava, e Rabelais
que ria;

E, para coroar esses nomes
vibrantes,

Shakespeare, que resume a
universal poesia.

E agora que ele a vai, galgando a
eterna morte,

Pega a Histria da pena e na
pgina forte,

Para continuar a srie
interrompida,

Escreve o nome dele, e d-lhe a
eterna vida.

JOS DE
ANCHIETA

Esse que as vestes speras cingia,

E a viva flor da ardente juventude

Dentro do peito a todos escondia;

Que em pginas de areia vasta e
rude

Os versos escrevia e encomendava

 mente, como esforo de virtude;

Esse nos rios de Babel achava,

Jerusalm, os cantos primitivos,

E novamente aos ares os cantava.

No procedia ento como os cativos

De Sio, consumidos de saudade,

Velados de tristeza, e pensativos.

Os cantos de outro clima e de
outra idade

Ensinava sorrindo s novas gentes,

Pela lngua do amor e da piedade.

E iam caindo os versos excelentes

No abenoado cho, e iam caindo

Do mesmo modo as msticas
sementes.

Nas florestas os pssaros, ouvindo

O nome de Jesus e os seus
louvores,

Iam cantando o mesmo canto lindo.

Eram as notas como alheias flores

Que verdejam no meio de verduras

De diversas origens e primores.

Anchieta, soltando as vozes puras,

Achas outra Sio neste hemisfrio,

E a mesma f e igual amor apuras.

Certo, ferindo as cordas do
saltrio,

Unicamente contas divulg-la

A palavra crist e o seu mistrio.

Trepar no cuidas a luzente escala

Que os heris cabe e leva  clara
esfera

Onde eterna se faz a humana fala.

Onde os tempos no so esta
quimera

Que apenas brilha e logo se
esvaece,

Como folhas de escassa primavera.

Onde nada se perde nem se esquece,

E no dorso dos sculos trazido

O nome de Anchieta resplandece

Ao vivo nome do Brasil unido.

SONETO DE NATAL

Um homem,  era aquela noite
amiga,

Noite crist, bero do Nazareno, 

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dana, e a lpida
cantiga,

Quis transportar ao verso doce e
ameno

As sensaes da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite crist, bero do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha
branca

Pede-lhe a inspirao; mas, frouxa
e manca.

A pena no acode ao gesto seu.

E, em vo lutando contra o metro
adverso,

S lhe saiu este pequeno verso:

'Mudaria o Natal ou mudei
eu?'

OS
ANIMAIS ISCADOS DA PESTE

(LA FONTAINE)

Mal que espalha o terror e que a
ira celeste

Inventou para castigar

Os pecados do mundo, a peste, em
suma, a peste,

Capaz de abastecer o Aqueronte num
dia,

Veio entre os animais lavrar;

E, se nem tudo sucumbia,

Certo  que tudo adoecia.

J nenhum, por dar mate ao
moribundo alento,

Catava mais nenhum sustento.

No havia manjar que o apetite
abrisse,

Raposa ou lobo que sasse

Contra a presa inocente e mansa,

Rola que  rola no fugisse,

E onde amor falta, adeus, folgana!

O leo convocou uma assemblia e
disse:

'Scios meus, certamente este
infortnio veio

A castigar-nos de pecados.

Que o mais culpado entre os culpados

Morra por aplacar a clera divina.

Para a comum sade esse , talvez,
o meio.

Em casos tais  de uso haver
sacrificados;

Assim a histria no-lo ensina.

Sem nenhuma iluso, sem nenhuma
indulgncia,

Pesquisemos a conscincia.

Quanto a mim, por dar mate ao
mpeto gluto,

Devorei muita carneirada.

Em que  que me ofendera? em nada.

E tive mesmo ocasio

De comer igualmente o guarda da
manada.

Portanto, se  mister
sacrificar-me, pronto.

Mas, assim como me acusei,

Bom  que cada um se acuse, de tal
sorte

Que (devemos quer-lo, e  de todo
ponto

Justo) caiba ao maior dos culpados
a morte.'

' Meu senhor, acudiu a
raposa,  ser rei

Bom demais;  provar melindre
exagerado.

Pois ento devorar carneiros,

Raa lorpa e vil, pode l ser
pecado?

No. Vs fizestes-lhes, senhor,

Em os comer, muito favor.

E no que toca aos pegureiros,

Toda a calamidade era bem
merecida,

Pois so daquelas gentes tais

Que imaginaram ter posio mais
subida

Que a de ns outros animais'.

Disse a raposa, e a corte
aplaudiu-lhe o discurso.

Ningum do tigre nem do urso,

Ningum de outras iguais senhorias
do mato,

Inda entre os atos mais daninhos,

Ousava esmerilhar um ato;

E at os ltimos rafeiros,

Todos os bichos rezingueiros,

No eram, no entender geral, mais
que uns santinhos.

Eis chega o burro:  'Tenho
idia que no prado

De um convento, indo eu a passar,
e picado

Da ocasio, da fome e do capim
vioso,

E pode ser que do tinhoso,

Um bocadinho lambisquei

Da plantao. Foi um abuso, isso 
verdade.'

Mal o ouviu, a assemblia exclama:
'Aqui del-rei!'

Um lobo, algo letrado, arenga e
persuade

Que era fora imolar esse bicho
nefando,

Empesteado autor de tal
calamidade;

E o pecadilho foi julgado

Um atentado.

Pois comer erva alheia!  crime
abominando!

Era visto que s a morte

Poderia purgar um pecado to duro.

E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miservel ou
forte

ulicos te faro detestvel ou
puro.

DANTE

(INFERNO, canto XXV)

Acabara o ladro, e, ao ar
erguendo

As mos em figas, deste modo
brada:

'Olha, Deus, para ti o estou
fazendo!'

E desde ento me foi a serpe
amada,

Pois uma vi que o colo lhe
prendia,

Como a dizer: 'no falars
mais nada!'

Outra os braos na frente lhe
cingia

Com tantas voltas e de tal maneira

Que ele fazer um gesto no podia.

Ah! Pistia, por que numa fogueira

No ardes tu, se a mais e mais
impuros,

Teus filhos vo nessa mortal
carreira?

Eu, em todos os crculos escuros

Do inferno, alma no vi to
rebelada.

Nem a que em Tebas resvalou dos
muros.

E ele fugiu sem proferir mais
nada.

Logo um centauro furioso assoma

A bradar: 'Onde, aonde a alma
danada?

Marema no ter tamanha soma

De reptis quanta vi que lhe
ouriava

O dorso inteiro desde a humana
coma.

Junto  nuca do monstro se elevava

De asas abertas um drago que
enchia

De fogo a quanto ali se
aproximava.

'Aquele  Caco,  o Mestre me
dizia, 

Que, sob as rochas do Aventino,
ousado

Lagos de sangue tanta vez abria.

No vai de seus irmos acompanhado

Porque roubou malicioso o armento

Que ali pascia na campanha ao
lado.

Hrcules com a maa e golpes
cento,

Sem lhe doer um dcimo ao nefando,

Ps remate a tamanho
atrevimento.'

Ele falava, e o outro foi andando.

No entanto embaixo vinham para ns

Trs espritos que s vimos quando

Atroara este grito: 'Quem
sois vs?'

Nisto a conversa nossa
interrompendo

Ele, como eu, no grupo os olhos
ps.

Eu no os conheci, mas sucedendo,

Como outras vezes suceder  certo,

Que o nome de um estava outro
dizendo,

'Cianfa aonde ficou?'
Eu, por que esperto

E atento fosse o Mestre em
escut-lo,

Pus sobre a minha boca o dedo
aberto.

Leitor, no maravilha que
aceit-lo

Ora te custe o que vais ter
presente,

Pois eu, que o vi, mal ouso
acredit-lo.

Eu contemplava, quando uma
serpente

De seis ps temerosa se lhe atira

A um dos trs e o colhe de
repente.

Com os ps do meio o ventre lhe
cingira,

Com os da frente os braos lhe
peava,

E ambas as faces lhe mordeu com
ira.

Os outros dous s coxas lhe
alongava,

E entre elas insinua a cauda que
ia

Tocar-lhes os rins e dura os
apertava.

A hera no se enrosca nem se enfia

Pela rvore, como a horrvel fera

Ao pecador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera,

Um s vulto, uma cor iam tomando,

Quais tinham sido nenhum deles
era.

Tal o papel, se o fogo o vai
queimando,

Antes de negro estar, e j depois

Que o branco perde, fusco vai
ficando.

Os outros dous bradavam: 'Ora
pois,

Agnel, ai triste, que mudana 
essa?

Olha que j no s nem um nem
dous!'

Faziam ambas uma s cabea,

E na nica face um rosto misto,

Onde eram dous, a aparecer comea.

Dos quatro braos dous restavam, e
isto,

Pernas, coxas e o mais ia mudado

Num tal composto que jamais foi
visto.

Todo o primeiro aspecto era
acabado;

Dous e nenhum era a cruel figura,

E tal se foi a passo demorado.

Qual camaleo, que variar procura

De sebe s horas em que o sol
esquenta,

E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta,

Para o ventre dos dous corre
acendida,

Lvida e cor de um bago de
pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida

Tenra criana antes que  luz
sasse,

Num deles morde, e cai toda
estendida.

O ferido a encarou, mas nada
disse;

Firme nos ps, apenas bocejava,

Qual se de febre ou sono ali
casse.

Frente a frente, um ao outro
contemplava,

E  chaga de um, e  boca de
outro, forte

Fumo saa e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte

De Sabelo e Nasdio, e atento
esteja

Que o que lhe vou dizer  de outra
sorte.

Cale-se Ovdio e neste quadro veja

Que, se Aretusa em fonte nos h
posto

E Cadmo em serpe, no lhe tenho
inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto

No transmudou, com que elas de
repente

Trocassem a matria e o ser
oposto.

Tal era o acordo entre ambas que a
serpente

A cauda em duas caudas fez
partidas,

E a alma os ps ajuntava
estreitamente.

Pernas e coxas vi-as to unidas

Que nem leve sinal dava a juntura

De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bfida a figura

Que ali se perde, e a pele abranda,
ao passo

Que a pele do homem se tornava
dura.

Em cada axila vi entrar um brao,

A tempo que iam esticando  fera

Os dous ps que eram de tamanho
escasso.

Os ps de trs a serpe os
retorcera

At formarem-lhe a encoberta
parte,

Que no infeliz em ps se
convertera.

Enquanto o fumo os cobre, e de tal
arte

A cor lhes muda e pe  serpe o
velo

Que j da pele do homem se lhe
parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem
torc-lo

Aquele torvo olhar com que ambos
iam

A trocar entre si o rosto e a
v-lo.

Ao que era em p as carnes lhe
fugiam

Para as fontes, e ali do que
abundava

Duas orelhas de homem lhe saam.

E o que de sobra ainda lhe ficava

O nariz lhe compe e lhe perfaz

E o lbio lhe engrossou quanto
bastava.

A boca estende o que por terra jaz

E as orelhas recolhe na cabea,

Bem como o caracol s pontas faz.

A lngua, que era ento de uma s
pea,

E prestes a falar, fendida vi-a,

Enquanto a do outro se une, e o
fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe
havia,

Pelo vale fugiu assobiando,

E esta lhe ia falando e lhe
cuspia.

Logo a recente espdua lhe foi
dando

E  outra disse: 'Ora com
Buoso mudo,

Rasteje, como eu vinha
rastejando!'

Assim na cova stima vi tudo

Mudar e transmudar; a novidade

Me absolva o estilo desornado e
rudo.

Mas que um tanto perdesse a
claridade

Dos olhos meus, e turva a mente
houvesse,

No fugiram com tanta brevidade,

Nem to ocultos, que eu no
conhecesse

Puccio Sciancato, nica ali vinda

Alma que a forma prpria no
perdesse;

O outro chor-lo tu, Gaville, ainda.

A
FELCIO DOS SANTOS

Felcio amigo, se eu disser que os
anos

Passam correndo ou passam
vagarosos,

Segundo so alegres ou penosos,

Tecidos de afeies ou desenganos,

'Filosofia  esta de
ranosos!'

Dirs. Mas no h outra entre os
humanos.

No se contam sorrisos pelos
danos,

Nem das tristezas desabrocham
gozos.

Banal, confesso. O precioso e o
raro

, seja o cu nublado ou seja
claro,

Tragam os tempos amargura ou
gosto,

No desdizer do mesmo velho amigo,

Ser com os teus o que eles so contigo,

Ter um s corao, ter um s
rosto.

MARIA

Maria, h no seu gesto airoso e
nobre,

Nos olhos meigos e no andar to
brando,

Um no sei qu suave que descobre,

Que lembra um grande pssaro
marchando.

Quero, s vezes, pedir-lhe que
desdobre

As asas, mas no peo, reparando

Que, desdobradas, podem ir voando

Lev-la ao teto azul que a terra
cobre.

E penso ento, e digo ento
comigo:

'Ao cu, que v passar todas
as gentes

Bastem outros primores de valia.

Pssaro ou moa, fique o olhar
amigo,

O nobre gesto e as graas
excelentes

Da nossa cara e lpida
Maria.'

A UMA
SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS

Pensa em ti mesma, achars

Melhor poesia,

Viveza, graa, alegria,

Doura e paz.

Se j dei flores um dia,

Quando rapaz,

As que ora dou tm assaz

Melancolia.

Uma s das horas tuas

Valem um ms

Das almas j ressequidas.

Os sis e as luas

Creio bem que Deus os fez

Para outras vidas.

CLDIA

Era Cldia a vergntea ilustre e
rara

De uma famlia antiga. Tez morena,

Como a casca do pssego, deixava

Transparecer o sangue e a
juventude.

Era a romana ardente e imperiosa

Que os ecos fatigou de Roma
inteira

Coa narrao das longas aventuras.

Nunca mais gentil fronte o sol da
Itlia

Amoroso beijou, nem mais gracioso

Corpo envolveram tnicas de Tiro.

Sombrios, como a morte, os olhos
eram.

A vermelha botina em si guardava

Breve, divino p. mida boca,

Como a rosa que os zfiros
convida,

Os beijos convidava. Era o modelo

Da luxuosa Lmia,  aquela moa

Que o marido esqueceu, e amou sem
pejo

O msico Polio. De mais, fazia

A ilustre Cldia trabalhados
versos;

A cabea curvava pensativa

Sobre as tabelas nuas; invocava

Do clssico Parnaso as musas
belas,

E, se no mente linguaruda fama,

Davam-lhe inspirao vadias musas.

O ideal da matrona austera e fria,

Caseira e nada mais, esse acabava.

Bem hajas tu, patrcia desligada

De preconceitos vos, tu que
presides

Ao festim dos rapazes, tu que
estendes

Sobre verdes coxins airosas
formas,

Enquanto o esposo, consultando os
dados,

Perde risonho vlidos
sestrcios...

E tu, viva msera, deixada

Na flor dos anos, merencria e
triste,

Que seria de ti, se o gozo e o
luxo

No te alegrassem a alma? Cedo
esquece

A memria de um bito. E bem
hajas,

Discreto esposo, que morreste a
tempo.

Perdes, bem sei, dos teus rivais
sem conta

Os custosos presentes, as ceatas,

Os jantares opparos. Contudo,

No vers cheia a casa de crianas

Loiras obras de artfices
estranhos.

Baias recebe a celebrada moa

Entre festins e jbilos. Faltava

Ao pomposo jardim das lcias
flores

Esta rosa de Paestum. Chega; 
ela,

 ela, a amvel dona. O cu
ostenta

A larga face azul, que o sol no
ocaso

Coos frouxos raios desmaiado
tinge.

Terno e brando abre o mar o
espmeo seio;

Moles respiram viraes do golfo.

Cldia chega. Tremei, moas
amadas;

Ovelhinhas dos plcidos idlios,

Roma vos manda esta faminta loba.

Prendei, prendei com vnculos de
ferro,

Os volveis amantes, que os no
veja

Esta formosa Pris. Inventai-lhes

Um filtro protetor, um filtro
ardente,

Que o fogo leve aos coraes
rendidos,

E aos vossos ps eternamente os
prenda;

Cldia... Mas, quem pudera, a frio
e a salvo,

Um requebro afrontar daqueles
olhos

Ver-lhe o trgido seio, as mos, o
talhe,

O andar, a voz, ficar mrmore frio

Ante as splices graas? Menor
pasmo

Fora, se ao gladiador, em pleno
circo,

A pantera africana os ps
lambesse,

Ou se,  cauda de indmito cavalo,

Ovantes hostes arrastassem Csar.

Coroados de rosas os convivas

Entram. Trajam com graa vestes
novas

Tafuis de Itlia, finos e
galhardos

Patrcios da repblica expirante,

E madamas faceiras. Vem entre eles

Clio, a flor dos vadios, nobre
moo,

E opulento, o que  mais.
Ambicioso

Quer triunfar na clssica tribuna

E honras aspira at do consulado.

Mais custoso lavor no vestem
damas,

Nem aroma melhor do seio exalam.

Tem na altivez do olhar sincero
orgulho,

E certo que o merece. Entre os
rapazes

Que  noite correm solitrias
ruas,

Ou nos jardins de Roma o luxo
ostentam,

Nenhum como ele, com mais ternas
falas,

Galanteou, vencendo, as raparigas.

Entra: pregam-se nele cobiosos

Olhos que amor venceu, que amor
domina,

Olhos fiis ao frvido Catulo.

O poeta estremece. Brando e frio,

O marido de Cldia os olhos lana

Ao mancebo, e um sorriso complacente

A boca lhe abre. Imparcial na
luta,

Vena Catulo ou Clio, ou venam
ambos.

No se lhe ope o dono: o aresto
aceita.

Vistes j como as ondas
tumultuosas,

Uma aps outra, vm morrer 
praia,

E mal se rompe o espmeo seio
quela.

J esta corre e expira? Tal no
peito

Da calorosa Lsbia nascem, morrem

As volveis paixes. Vestal do
crime,

Dos amores vigia a chama eterna,

No a deixa apagar; pronto lhe
lana

leo com que a alimente.
Enrubescido

De ternura e desejo o rosto volve

Ao mancebo gentil. Baldado
empenho!

Indiferente aos mgicos encantos,

Clio contempla a moa. Olhar mais
frio,

Ningum deitou jamais a graas
tantas.

Ela insiste; ele foge-lhe. Vexada,

A moa inclina lnguida a
cabea...

Tu nada vs, desapegado esposo,

Mas o amante v tudo.

Cldia arranca

Uma rosa da fronte, e as folhas
deita

Na taa que enche generoso vinho.

'Clio, um brinde aos
amores!' diz, e entrega-lha.

O cortejado moo os olhos lana,

No  Cldia, que a taa lhe
oferece,

Mas a outra no menos afamada,

Dama de igual prospia e iguais
campanhas,

E taa igual lhe aceita. Afronta 
esta

Que  moa faz subir o sangue s
faces,

Aquele sangue antigo, e raro, e
ilustre,

Que atravessou purssimo e sem
mescla

A corrente dos tempos... Uma
Cldia!

Tamanha injria! Ai, no! mais que
a vaidade,

Mais que o orgulho de raa, o que
te pesa,

O que te faz doer, viciosa dama,

 ver que um rival merece o zelo

Deste pimpo de amores e
aventuras.

Pega na taa o nscio esposo e
bebe,

Com o vinho, a vergonha. Sombra
triste,

Sombra de ocultas e profundas
mgoas,

Tolda a fronte ao poeta.

Os mais, alegres,

Vo ruminando a saborosa ceia;

Circula o dito equvoco e
chistoso,

Comentam-se os decretos do Senado,

O molho mais da moda, os versos
ltimos

De Catulo, os lees mandados de
frica

E as vitrias de Csar. O epigrama

Rasga a pele ao caudilho
triunfante;

Chama-lhe este: 'O larpio
endividado',

Aquele: 'Vnus calva',
outro: 'O bitnio...'

Oposio de ceias e jantares,

Que a marcha no impede ao crime e
 glria.

Sem liteira, nem lbicos escravos,

Cldia vai consultar armnio
arspice.

Quer saber se h de Clio am-la
um dia

Ou desprez-la sempre. O armnio
estava

Meditabundo,  luz escassa e
incerta

De uma candeia etrusca; aos ombros
dele

Decrpita coruja os olhos abre.

'Velho, aqui tens dinheiro (a
moa fala),

Se  tua inspirao  dado agora

Adivinhar as cousas do futuro,

Conta-me...'  O resto
expe. Ergue-se o velho

Sbito. Os olhos lana cobiosos

 fulgente moeda.  'Saber
queres

Se te h de amar esse mancebo
esquivo?'

 'Sim'.  Cochilava a
um canto descuidada

A avezinha de Vnus, branca pomba.

Lana mo dela o arspice, e de um
golpe

Das entranhas lhe arranca o sangue
e a vida.

Olhos fitos no velho a moa
aguarda

A sentena da sorte; empalidece

Ou ri, conforme do ancio no rosto

Ocultas impresses vem debuxar-se.

'Bem haja Vnus! a vitria 
tua!

O corao da vtima palpita

Inda que morto j...'

No eram ditas.

Estas palavras, entra um vulto...
 ele?

s tu, cioso amante!

A voz lhes falta

Aos dous (contemplam-se ambos,
interrogam-se);

Rompe afinal o lgubre silncio...

Quando o vate acabou, tinha nos
braos

A namorada moa. Lacrimosa,

Tudo confessa. Tudo lhe perdoa

O desvairado amante. 'Nuvem
leve

Isto foi; deixa l memrias
tristes,

Erros que te perdo; amemos,
Lsbia;

A vida  nossa;  nossa a
juventude.'

'Oh! tu s bom!' 
'No sei; amo e mais nada.

Foge o mal donde amor plantou seus
lares.

Amar  ser do cu'. Splices
olhos

Que a dor umedecera e que umedecem

Lgrimas de ternura, os olhos
buscam

Do poeta; um sorriso lhes
responde,

E um beijo sela esta aliana nova.

Quem jamais construiu slida torre

Sobre a areia volvel? Poucos dias

Decorreram; viosas esperanas

Sbito renascidas, folha a folha,

Alastraram a terra. Ingrata e
fria,

Lsbia esqueceu Catulo. Outro lhe
pede

Prmio  recente, abrasadora
chama;

Faz-se agora importuno o que era
esquivo.

Vitria  dela; o arspice
acertara.

NO ALTO

O poeta chegara ao alto da
montanha,

E quando ia a descer a vertente do
oeste,

Viu uma cousa estranha,

Uma figura m.

Ento, volvendo o olhar ao sutil,
ao celeste,

Ao gracioso Ariel, que de baixo o
acompanha,

Num tom medroso e agreste

Pergunta o que ser.

Como se perde no ar um som festivo
e doce,

Ou bem como se fosse

Um pensamento vo,

Ariel se desfez sem lhe dar mais
resposta.

Para descer a encosta

O outro estendeu-lhe a mo.

FIM
