Romance, Memrias Pstumas de Brs Cubas, 1880

Memrias Pstumas de
Brs Cubas

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de
Assis,
Rio
de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em
folhetins, a partir de maro de 1880, na Revista Brasileira.

Ao verme
que
primeiro roeu as frias
carnes
do meu cadver

dedico
como saudosa lembrana

estas
Memrias
Pstumas

Prlogo da terceira
edio

A primeira edio destas
Memrias Pstumas de Brs Cubas foi feita aos pedaos na Revista
Brasileira, pelos anos de 1880. Postas mais tarde em livro, corrigi o texto em
vrios lugares. Agora que tive de o rever para a terceira edio, emendei ainda
alguma coisa e suprimi duas ou trs dzias de linhas. Assim composta, sai
novamente  luz esta obra que alguma benevolncia parece ter encontrado no
pblico.

Capistrano de Abreu, noticiando a
publicao do livro, perguntava: As Memrias Pstumas de Brs Cubas so
um romance? Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse tempo, recordava
amigamente as Viagens na minha terra. Ao primeiro respondia j o defunto
Brs Cubas (como o leitor viu e ver no prlogo dele que vai adiante) que sim e
que no, que era romance para uns e no o era para outros. Quanto ao segundo,
assim se explicou o finado: Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brs
Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, no sei
se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Toda essa gente viajou: Xavier de
Maistre  roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De
Brs Cubas se pode dizer que viajou  roda da vida.

O que faz do meu Brs Cubas um
autor particular  o que ele chama rabugens de pessimismo. H na alma deste
livro, por mais risonho que parea, um sentimento amargo e spero, que est
longe de vir de seus modelos.  taa que pode ter lavores de igual escola, mas
leva outro vinho. No digo mais para no entrar na crtica de um defunto, que se
pintou a si e a outros, conforme lhe pareceu melhor e mais certo.

Machado de Assis.

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver
escrito um de seus livros para cem leitores, coisa  que admira e consterna. O
que no admira, nem provavelmente consternar  se este outro livro no tiver os
cem leitores de Stendhal, nem cinqenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez?
Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brs Cubas,
se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, no sei se lhe
meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a
pena da galhofa e a tinta da melancolia, e no  difcil antever o que poder
sair desse conbio. Acresce que a gente grave achar no livro umas aparncias de
puro romance, ao passo que a gente frvola no achar nele o seu romance usual;
ei-lo a fica privado da estima dos graves e do amor dos frvolos, que so as
duas colunas mximas da opinio.

Mas eu ainda espero angariar as
simpatias da opinio, e o primeiro remdio  fugir a um prlogo explcito e
longo. O melhor prlogo  o que contm menos coisas, ou o que as diz de um jeito
obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinrio que
empreguei na composio destas Memrias, trabalhadas c no outro mundo.
Seria curioso, mas nimiamente extenso, e alis desnecessrio ao entendimento da
obra. A obra em si mesma  tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa;
se te no agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brs Cubas.

CAPTULO PRIMEIRO / BITO DO
AUTOR

Algum tempo hesitei se devia abrir
estas memrias pelo princpio ou pelo fim, isto , se poria em primeiro lugar o
meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja comear pelo
nascimento, duas consideraes me levaram a adotar diferente mtodo: a primeira
 que eu no sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem
a campa foi outro bero; a segunda  que o escrito ficaria assim mais galante e
mais novo. Moiss, que tambm contou a sua morte, no a ps no intrito, mas no
cabo: diferena radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei s duas horas
da tarde de uma sexta-feira do ms de agosto de 1869, na minha bela chcara de
Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prsperos, era solteiro,
possua cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio por onze
amigos. Onze amigos! Verdade  que no houve cartas nem anncios. Acresce que
chovia  peneirava uma chuvinha mida, triste e constante, to constante e to
triste, que levou um daqueles fiis da ltima hora a intercalar esta engenhosa
idia no discurso que proferiu  beira de minha cova:  Vs, que o conhecestes,
meus senhores, vs podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a
perda irreparvel de um dos mais belos caracteres que tm honrado a humanidade.
Este ar sombrio, estas gotas do cu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul
como um crepe funreo, tudo isso  a dor crua e m que lhe ri  Natureza as
mais ntimas entranhas; tudo isso  um sublime louvor ao nosso ilustre finado.

Bom e fiel amigo! No, no me
arrependo das vinte aplices que lhe deixei. E foi assim que cheguei  clusula
dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered
country de Hamlet, sem as nsias nem as dvidas do moo prncipe, mas
pausado e trpego como quem se retira tarde do espetculo. Tarde e aborrecido.
Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas trs senhoras, minha irm
Sabina, casada com o Cotrim, a filha,  um lrio do vale,  e... Tenham
pacincia! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de
saber que essa annima, ainda que no parenta, padeceu mais do que as parentas.
 verdade, padeceu mais. No digo que se carpisse, no digo que se deixasse
rolar pelo cho, convulsa. Nem o meu bito era coisa altamente dramtica... Um
solteiro que expira aos sessenta e quatro anos, no parece que rena em si
todos os elementos de uma tragdia. E dado que sim, o que menos convinha a essa
annima era aparent-lo. De p,  cabeceira da cama, com os olhos estpidos, a
boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extino.

 Morto! morto! dizia consigo.

E a imaginao dela, como as
cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vo desde o Ilisso s ribas
africanas, sem embargo das runas e dos tempos,  a imaginao dessa senhora
tambm voou por sobre os destroos presentes at s ribas de uma frica
juvenil... Deix-la ir; l iremos mais tarde; l iremos quando eu me restituir
aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqilamente, metodicamente, ouvindo
os soluos das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas
folhas de tinhoro da chcara, e o som estrdulo de uma navalha que um amolador
est afiando l fora,  porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da
morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante
chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns mpetos de vaga
marinha, esvaa-se-me a conscincia, eu descia  imobilidade fsica e moral, e o
corpo fazia-se-me planta, e pedra e lodo, e coisa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe
disser que foi menos a pneumonia, do que uma idia grandiosa e til, a causa da
minha morte,  possvel que o leitor me no creia, e todavia  verdade. Vou
expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.

CAPTULO II / O
EMPLASTO

Com efeito, um dia de manh,
estando a passear na chcara, pendurou-se-me uma idia no trapzio que eu tinha
no crebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais
arrojadas cabriolas de volatim, que  possvel crer. Eu deixei-me estar a
contempl-la. Sbito, deu um grande salto, estendeu os braos e as pernas, at
tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idia era nada menos que a
inveno de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondraco, destinado a
aliviar a nossa melanclica humanidade. Na petio de privilgio que ento
redigi, chamei a ateno do governo para esse resultado, verdadeiramente
cristo. Todavia, no neguei aos amigos as vantagens pecunirias que deviam
resultar da distribuio de um produto de tamanhos e to profundos efeitos.
Agora, porm, que estou c do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me
influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores,
folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remdio, estas trs palavras:
Emplasto Brs Cubas. Para que neg-lo? Eu tinha a paixo do arrudo, do
cartaz, do foguete de lgrimas. Talvez os modestos me argam esse defeito; fio,
porm, que esse talento me ho de reconhecer os hbeis. Assim, a minha idia
trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o pblico, outra para mim.
De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos:  amor
da glria.

Um tio meu, cnego de prebenda
inteira, costumava dizer que o amor da glria temporal era a perdio das almas,
que s devem cobiar a glria eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um
dos antigos teros de infantaria, que o amor da glria era a coisa mais
verdadeiramente humana que h no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuna
feio.

Decida o leitor entre o militar e
o cnego; eu volto ao emplasto.

CAPTULO III /
GENEALOGIA

 Mas, j que falei nos meus dois
tios, deixem-me fazer aqui um curto esboo genealgico.

O fundador da minha famlia foi um
certo Damio Cubas, que floresceu na primeira metade do sculo XVIII. Era
tanoeiro de ofcio, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penria e
na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas no; fez-se lavrador,
plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, at que
morreu, deixando grosso cabedal a um filho, licenciado Lus Cubas. Neste rapaz 
que verdadeiramente comea a srie de meus avs  dos avs que a minha famlia
sempre confessou,  porque o Damio Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e
talvez mau tanoeiro, ao passo que o Lus Cubas estudou em Coimbra, primou no
Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei Conde da Cunha.

Como este apelido de Cubas lhe
cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Damio, que o
dito apelido fora dado a um cavaleiro, heri nas jornadas da frica, em prmio
da faanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era
homem de imaginao; escapou  tanoaria nas asas de um calembour. Era um
bom carter, meu pai, varo digno e leal como poucos. Tinha,  verdade, uns
fumos de pacholice; mas quem no  um pouco pachola nesse mundo? Releva notar
que ele no recorreu  inventiva seno depois de experimentar a falsificao;
primeiramente, entroncou-se na famlia daquele meu famoso homnimo, o
capito-mor, Brs Cubas, que fundou a vila de So Vicente, onde morreu em 1592,
e por esse motivo  que me deu o nome de Brs. Ops-se-lhe, porm, a famlia do
capito-mor, e foi ento que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas.

Vivem ainda alguns membros de
minha famlia, minha sobrinha Venncia, por exemplo, o lrio do vale, que  a
flor das damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que... Mas no
antecipemos os sucessos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.

CAPTULO IV / A IDIA
FIXA

A minha idia, depois de tantas
cabriolas, constitura-se idia fixa. Deus te livre, leitor, de uma idia fixa;
antes um argueiro, antes uma trave no olho. V o Cavour; foi a idia fixa da
unidade italiana que o matou. Verdade  que Bismarck no morreu; mas cumpre
advertir que a natureza  uma grande caprichosa e a histria uma eterna
loureira. Por exemplo, Suetnio deu-nos um Cludio, que era um simplrio,  ou
uma abbora como lhe chamou Sneca, e um Tito, que mereceu ser as delcias de
Roma. Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois
csares, o delicioso, o verdadeiro delicioso, foi o abbora de Sneca. E tu,
madama Lucrcia, flor dos Brgias, se um poeta te pintou como a Messalina
catlica, apareceu um Gregorovius incrdulo que te apagou muito essa qualidade,
e, se no vieste a lrio, tambm no ficaste pntano. Eu deixo-me estar entre o
poeta e o sbio.

Viva pois a histria, a volvel
histria que d para tudo; e, tornando  idia fixa, direi que  ela a que faz
os vares fortes e os doidos; a idia mbil, vaga ou furta-cor  a que faz os
Cludios,  frmula Suetnio.

Era fixa a minha idia, fixa
como... No me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez
as pirmides do Egito, talvez a finada dieta germnica. Veja o leitor a
comparao que melhor lhe quadrar, veja-a e no esteja da a torcer-me o nariz,
s porque ainda no chegamos  parte narrativa destas memrias. L iremos. Creio
que prefere a anedota  reflexo, como os outros leitores, seus confrades, e
acho que faz muito bem. Pois l iremos. Todavia, importa dizer que este livro 
escrito com pachorra, com a pachorra de um homem j desafrontado da brevidade do
sculo, obra supinamente filosfica, de uma filosofia desigual, agora austera,
logo brincalhona, coisa que no edifica nem destri, no inflama nem regala, e 
todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos l; retifique o seu nariz, e
tornemos ao emplasto. Deixemos a histria com os seus caprichos de dama
elegante. Nenhum de ns pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a
confisso de Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, 
s pela idia de que Sua Alteza, com a mesma mo que trancara o parlamento,
teria imposto aos ingleses o emplasto Brs Cubas. No se riam dessa vitria
comum da farmcia e do puritanismo. Quem no sabe que ao p de cada bandeira
grande, pblica, ostensiva, h muitas vezes vrias outras bandeiras modestamente
particulares, que se hasteiam e flutuam  sombra daquela, e no poucas vezes lhe
sobrevivem? Mal comparando,  como a arraia-mida, que se acolhia  sombra do
castelo feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade  que se fez grada e
castel... No, a comparao no presta.

CAPTULO V / EM QUE APARECE
A ORELHA DE UMA SENHORA

Seno quando, estando eu ocupado
em preparar e apurar a minha inveno, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci
logo, e no me tratei. Tinha o emplasto no crebro; trazia comigo a idia fixa
dos doidos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do cho das turbas, e
remontar ao Cu, como uma guia imortal, e no  diante de to excelso
espetculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava pior;
tratei-me enfim, mas incompletamente, sem mtodo, nem cuidado, nem persistncia;
tal foi a origem do mal que me trouxe  eternidade. Sabem j que morri numa
sexta-feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha inveno que me
matou. H demonstraes menos lcidas e no menos triunfantes.

No era impossvel, entretanto,
que eu chegasse a galgar o cimo de um sculo, e a figurar nas folhas pblicas,
entre macrbios. Tinha sade e robustez. Suponha-se que, em vez de estar
lanando os alicerces de uma inveno farmacutica, tratava de coligir os
elementos de uma instituio poltica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a
corrente de ar, que vence em eficcia o clculo humano, e l se ia tudo. Assim
corre a sorte dos homens.

Com esta reflexo me despedi eu da
mulher, no direi mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as
contemporneas suas, a annima do primeiro captulo, a tal, cuja imaginao 
semelhana das cegonhas do Ilisso... Tinha ento 54 anos, era uma runa, uma
imponente runa. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes, e
que um dia, j enfermo, vejo-a assomar  porta da alcova...

CAPTULO VI / CHIMNE, QUI
L'ET DIT? RODRIGUE, QUI L'ET CRU?

Vejo-a assomar  porta da alcova,
plida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante um minuto, sem nimo de
entrar, ou detida pela presena de um homem que estava comigo. Da cama, onde
jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer
nenhum gesto. Havia j dois anos que nos no vamos, e eu via-a agora no qual
era, mas qual fora, quais framos ambos, porque um Ezequias misterioso fizera
recuar o sol at os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as misrias, e este
punhado de p, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pde mais do que o
tempo, que  o ministro da morte. Nenhuma gua de Juventa igualaria ali a
simples saudade.

Creiam-me, o menos mau  recordar;
ningum se fie da felicidade presente; h nela uma gota da baba de Caim. Corrido
o tempo e cessado o espasmo, ento sim, ento talvez se pode gozar deveras,
porque entre uma e outra dessas duas iluses, melhor  a que se gosta sem doer.

No durou muito a evocao; a
realidade dominou logo; o presente expeliu o passado. Talvez eu exponha ao
leitor, em algum canto deste livro, a minha teoria das edies humanas. O que
por agora importa saber  que Virglia  chamava-se Virglia  entrou na alcova,
firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos, e veio at o meu
leito. O estranho levantou-se e saiu. Era um sujeito, que me visitava todos os
dias para falar do cmbio, da colonizao e da necessidade de desenvolver a
viao frrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virglia
deixou-se estar de p; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem
articular palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixes sem
freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois coraes
murchos, devastados pela vida e saciados dela, no sei se em igual dose, mas
enfim saciados. Virglia tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e
maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela ltima vez, numa festa de
So Joo, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, s agora comeavam os
cabelos escuros a intercalar-se com alguns fios de prata.

 Anda visitando os defuntos?
disse-lhe eu.  Ora, defuntos! respondeu Virglia com um muxoxo. E depois de me
apertar as mos:  Ando a ver se ponho os vadios para a rua.

No tinha a carcia lacrimosa de
outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava s, em casa, com
um simples enfermeiro; podamos falar um ao outro, sem perigo. Virglia deu-me
longas notcias de fora, narrando-as com graa, com um certo travo de m lngua,
que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer
satnico em mofar dele, em persuadir-me que no deixava nada.

 Que idias essas! interrompeu-me
Virglia um tanto zangada. Olhe que no volto mais. Morrer! Todos ns havemos de
morrer; basta estarmos vivos.

E vendo o relgio:

 Jesus! so trs horas. Vou-me
embora.

 J?

 J; virei amanh ou depois.

 No sei se faz bem, retorqui; o
doente  um solteiro e a casa no tem senhoras...

 Sua mana?

 H de vir c passar uns dias,
mas no pode ser antes de sbado.

Virglia refletiu um instante,
levantou os ombros e disse com gravidade:

 Estou velha! Ningum mais repara
em mim. Mas, para cortar dvidas, virei com o Nhonh.

Nhonh era um bacharel, nico
filho de seu casamento, que, na idade de cinco anos, fora cmplice inconsciente
de nossos amores. Vieram juntos, dois dias depois, e confesso que, ao v-los
ali, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu
corresponder logo s palavras afveis do rapaz. Virglia adivinhou-me e disse ao
filho:

 Nhonh, no repares nesse grande
manhoso que a est; no quer falar para fazer crer que est  morte.

Sorriu o filho, eu creio que
tambm sorri, e tudo acabou em pura galhofa. Virglia estava serena e risonha,
tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que
pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de esprito, uma dominao
sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocssemos,
casualmente, nuns amores ilegtimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a falar
com desdm e um pouco de indignao da mulher de que se tratava, alis sua
amiga. O filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu
perguntava a mim mesmo o que diriam de ns os gavies, se Buffon tivesse nascido
gavio...

Era o meu delrio que comeava.

CAPTULO VII / O
DELRIO

Que me conste, ainda ningum
relatou o seu prprio delrio; fao-o eu, e a cincia mo agradecer. Se o leitor
no  dado  contemplao destes fenmenos mentais, pode saltar o captulo; v
direito  narrao. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que 
interessante saber o que se passou na minha cabea durante uns vinte a trinta
minutos.

Primeiramente, tomei a figura de
um barbeiro chins, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o
trabalho com belisces e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado
na Suma Teolgica de So Toms, impressa num volume, e encadernada em
marroquim, com fechos de prata e estampas; idia esta que me deu ao corpo a mais
completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mos os
fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, algum as descruzava (Virglia
decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restitudo  forma
humana, vi chegar um hipoptamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, no sei
se por medo ou confiana; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou
vertiginosa, que me atrevi a interrog-lo, e com alguma arte lhe disse que a
viagem me parecia sem destino.

 Engana-se, replicou o animal,
ns vamos  origem dos sculos.

Insinuei que deveria ser
muitssimo longe; mas o hipoptamo no me entendeu ou no me ouviu, se  que no
fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era
descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balao, retorquiu-me com um gesto
peculiar a estes dois quadrpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os
olhos e deixei-me ir  ventura. J agora no se me d de confessar que sentia
umas tais ou quais ccegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos
sculos, se era to misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia
alguma coisa mais ou menos do que a consumao dos mesmos sculos: reflexes de
crebro enfermo. Como ia de olhos fechados, no via o caminho; lembra-me s que
a sensao de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasio em que me
pareceu entrar na regio dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o
meu animal galopava numa plancie branca de neve, e vrios animais grandes e de
neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas
pude grunhir esta pergunta ansiosa:

 Onde estamos?

 J passamos o den.

 Bem; paremos na tenda de Abrao.

 Mas se ns caminhamos para trs!
redargiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A
jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incmodo, a
conduo violenta, e o resultado impalpvel. E depois  cogitaes do enfermo 
dado que chegssemos ao fim indicado, no era impossvel que os sculos,
irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam
ser to seculares como eles. Enquanto assim pensava, amos devorando caminho, e
a plancie voava debaixo dos nossos ps, at que o animal estacou, e pude olhar
mais tranqilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, alm da imensa
brancura da neve, que desta vez invadira o prprio cu, at ali azul. Talvez, a
espaos, me parecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as
suas largas folhas. O silncio daquela regio era igual ao do sepulcro:
dissera-se que a vida das coisas ficara estpida diante do homem.

Caiu do ar? destacou-se da terra?
no sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu ento,
fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastido
das formas selvticas, e tudo escapava  compreenso do olhar humano, porque os
contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez difano.
Estupefato, no disse nada, no cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo
de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade
de delrio.

 Chama-me Natureza ou Pandora;
sou tua me e tua inimiga.

Ao ouvir esta ltima palavra,
recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu
em torno de ns o efeito de um tufo; as plantas torceram-se e um longo gemido
quebrou a mudez das coisas externas.

 No te assustes, disse ela,
minha inimizade no mata;  sobretudo pela vida que se afirma. Vives; no quero
outro flagelo.

 Vivo? perguntei eu, enterrando
as unhas nas mos, como para certificar-me da existncia.

 Sim, verme, tu vives. No
receies perder esse andrajo que  teu orgulho; provars ainda, por algumas
horas, o po da dor e o vinho da misria. Vives: agora mesmo que ensandeceste,
vives; e se a tua conscincia reouver um instante de sagacidade, tu dirs que
queres viver.

Dizendo isto, a viso estendeu o
brao, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. S
ento pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma
contoro violenta, nenhuma expresso de dio ou ferocidade; a feio nica,
geral, completa, era a da impassibilidade egosta, a da eterna surdez, a da
vontade imvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no corao. Ao mesmo
tempo, nesse rosto de expresso glacial, havia um ar de juventude, mescla de
fora e vio, diante do qual me sentia eu o mais dbil e decrpito dos seres.

 Entendeste-me? disse ela, no fim
de algum tempo de mtua contemplao.

 No, respondi; nem quero
entender-te; tu s absurda, tu s uma fbula. Estou sonhando, decerto, ou, se 
verdade, que enlouqueci, tu no passas de uma concepo de alienado, isto , uma
coisa v, que a razo ausente no pode reger nem palpar. Natureza, tu? a
Natureza que eu conheo  s me e no inimiga; no faz da vida um flagelo, nem,
como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

 Porque levo na minha bolsa os
bens e os males, e o maior de todos, a esperana, consolao dos homens. Tremes?

 Sim; o teu olhar fascina-me.

 Creio; eu no sou somente a
vida; sou tambm a morte, e tu ests prestes a devolver-me o que te emprestei.
Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um
trovo, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o ltimo som que chegava a
meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposio sbita de mim mesmo. Ento,
encarei-a com olhos splices, e pedi mais alguns anos.

 Pobre minuto! exclamou. Para que
queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois?
No ests farto do espetculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te
deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a
quietao da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benefcio das
minhas mos. Que mais queres tu, sublime idiota?

 Viver somente, no te peo mais
nada. Quem me ps no corao este amor da vida, seno tu? e, se eu amo a vida,
por que te hs de golpear a ti mesma, matando-me?

 Porque j no preciso de ti. No
importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem 
forte, jucundo, supe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o
outro, mas o tempo subsiste. Egosmo, dizes tu? Sim, egosmo, no tenho outra
lei. Egosmo, conservao. A ona mata o novilho porque o raciocnio da ona 
que ela deve viver, e se o novilho  tenro tanto melhor: eis o estatuto
universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto
de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um
tempo largo, ao longe, atravs de um nevoeiro, uma coisa nica. Imagina tu,
leitor, uma reduo dos sculos, e um desfilar de todos eles, as raas todas,
todas as paixes, o tumulto dos Imprios, a guerra dos apetites e dos dios, a
destruio recproca dos seres e das coisas. Tal era o espetculo, acerbo e
curioso espetculo. A histria do homem e da Terra tinha assim uma intensidade
que lhe no podiam dar nem a imaginao nem a cincia, porque a cincia  mais
lenta e a imaginao mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensao
viva de todos os tempos. Para descrev-la seria preciso fixar o relmpago. Os
sculos desfilavam num turbilho, e, no obstante, porque os olhos do delrio
so outros, eu via tudo o que passava diante de mim, flagelos e delcias, 
desde essa coisa que se chama glria at essa outra que se chama misria, e via
o amor multiplicando a misria, e via a misria agravando a debilidade. A
vinham a cobia que devora, a clera que inflama, a inveja que baba, e a enxada
e a pena, midas de suor, e a ambio, a fome, a vaidade, a melancolia, a
riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, at destru-lo,
como um farrapo. Eram as formas vrias de um mal, que ora mordia a vscera, ora
mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em
derredor da espcie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia  indiferena, que
era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Ento o homem,
flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrs de uma figura
nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpvel, outro de
improvvel, outro de invisvel, cosidos todos a ponto precrio, com a agulha da
imaginao; e essa figura,  nada menos que a quimera da felicidade,  ou lhe
fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao
peito, e ento ela ria, como um escrnio, e sumia-se, como uma iluso.

Ao contemplar tanta calamidade,
no pude reter um grito de angstia, que Natureza ou Pandora escutou sem
protestar nem rir; e no sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me
pus a rir,  de um riso descompassado e idiota.

 Tens razo, disse eu, a coisa 
divertida e vale a pena,  talvez montona  mas vale a pena. Quando J
amaldioava o dia em que fora concebido,  porque lhe davam ganas de ver c de
cima o espetculo. Vamos l, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa 
divertida, mas digere-me.

A resposta foi compelir-me
fortemente a olhar para baixo, e a ver os sculos que continuavam a passar,
velozes e turbulentos, as geraes que se superpunham s geraes, umas tristes,
como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cmodo, e
todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma fora misteriosa me
retinha os ps; ento disse comigo:  Bem, os sculos vo passando, chegar o
meu, e passar tambm, at o ltimo, que me dar a decifrao da eternidade. E
fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, j
ento tranqilo e resoluto, no sei at se alegre. Talvez alegre. Cada sculo
trazia a sua poro de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de
erro, e o seu cortejo de sistemas, de idias novas, de novas iluses; cada um
deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para
remoar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de
calendrio, fazia-se a histria e a civilizao, e o homem, nu e desarmado,
armava-se e vestia-se, construa o tugrio e o palcio, a rude aldeia e Tebas de
cem portas, criava a cincia, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se
orador, mecnico, filsofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra,
subia  esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que
entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar,
enfarado e distrado, viu enfim chegar o sculo presente, e atrs deles os
futuros. Aquele vinha gil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso,
audaz, sabedor, mas ao cabo to miservel como os primeiros, e assim passou e
assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de
ateno; fitei a vista; ia enfim ver o ltimo,  o ltimo!; mas ento j a
rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreenso; ao p dela o
relmpago seria um sculo. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se;
uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro
cobriu tudo,  menos o hipoptamo que ali me trouxera, e que alis comeou a
diminuir, a diminuir, a diminuir, at ficar do tamanho de um gato. Era
efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sulto, que brincava
 porta da alcova, com uma bola de papel...

CAPTULO VIII / RAZO CONTRA
SANDICE

J o leitor compreendeu que era a
Razo que voltava  casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor
jus, as palavras de Tartufo:

La maison est  moi, c'est  vous
d'en sortir.

Mas  sestro antigo da Sandice
criar amor s casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente
lha faro despejar.  sestro; no se tira da; h muito que lhe calejou a
vergonha. Agora, se advertirmos no imenso nmero de casas que ocupa, umas de
vez, outras durante as suas estaes calmosas, concluiremos que esta amvel
peregrina  o terror dos proprietrios. No nosso caso, houve quase um distrbio
 porta do meu crebro, porque a adventcia no queria entregar a casa, e a dona
no cedia da inteno de tomar o que era seu. Afinal, j a Sandice se contentava
com um cantinho no sto.

 No, senhora, replicou a Razo,
estou cansada de lhe ceder stos, cansada e experimentada, o que voc quer 
passar mansamente do sto  sala de jantar, da  de visitas e ao resto.

 Est bem, deixe-me ficar algum
tempo mais, estou na pista de um mistrio...

 Que mistrio?

 De dois, emendou a Sandice; o da
vida e o da morte; peo-lhe s uns dez minutos.

A Razo ps-se a rir.

 Hs de ser sempre a mesma
coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa...

E dizendo isto, travou-lhe dos
pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu
algumas splicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a
lngua de fora, em ar de surriada, e foi andando...

CAPTULO IX /
TRANSIO

E vejam agora com que destreza;
com que arte fao eu a maior transio deste livro. Vejam: o meu delrio comeou
em presena de Virglia; Virglia foi o meu gro pecado da juventude; no h
juventude sem meninice; meninice supe nascimento; e eis aqui como chegamos ns,
sem esforo, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura
aparente, nada que divirta a ateno pausada do leitor: nada. De modo que o
livro fica assim com todas as vantagens do mtodo, sem a rigidez do mtodo. Na
verdade, era tempo. Que isto de mtodo, sendo, como , uma coisa indispensvel,
todavia  melhor t-lo sem gravata nem suspensrios, mas um pouco  fresca e 
solta, como quem no se lhe d da vizinha fronteira, nem do inspetor de
quarteiro.  como a eloqncia, que h uma genuna e vibrante, de uma arte
natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha. Vamos ao dia 20 de
outubro.

CAPTULO X / NAQUELE
DIA

Naquele dia, a rvore dos Cubas
brotou uma graciosa flor. Nasci; recebeu-me nos braos a Pascoela, insigne
parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma gerao
inteira de fidalgos. No  impossvel que meu pai lhe ouvisse tal declarao;
creio, todavia, que o sentimento paterno  que o induziu a gratific-la com duas
meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heri da nossa casa. Cada
qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu tio
Joo, o antigo oficial de infantaria, achava-me um certo olhar de Bonaparte,
coisa que meu pai no pde ouvir sem nuseas; meu tio Ildefonso, ento simples
padre, farejava-me cnego.

 Cnego  o que ele h de ser, e
no digo mais por no parecer orgulho; mas no me admiraria nada se Deus o
destinasse a um bispado...  verdade, um bispado; no  coisa impossvel. Que
diz voc, mano Bento?

Meu pai respondia a todos que eu
seria o que Deus quisesse; e alava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me 
cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com ele, se era
inteligente, bonito...

Digo essas coisas por alto,
segundo as ouvi narrar anos depois; ignoro a mor parte dos pormenores daquele
famoso dia. Sei que a vizinhana veio ou mandou cumprimentar o recm-nascido, e
que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa. No
houve cadeirinha que no trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calo. Se
no conto os mimos, os beijos, as admiraes, as bnos,  porque, se os
contasse, no acabaria mais o captulo, e  preciso acab-lo.

Item, no posso dizer nada do meu
batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a no ser que foi uma das
mais galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na igreja de So
Domingos, uma tera-feira de maro, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos
o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas
famlias do Norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias, outrora
derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de ambos foram das
primeiras coisas que aprendi; e certamente os dizia com muita graa, ou revelava
algum talento precoce, porque no havia pessoa estranha diante de quem me no
obrigassem a recit-los.

 Nhonh, diga a estes senhores
como  que se chama seu padrinho.

 Meu padrinho?  o Excelentssimo
Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo Csar de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos; minha
madrinha  a Excelentssima Senhora D. Maria Lusa de Macedo Resende e Sousa
Rodrigues de Matos.

  muito esperto o seu menino!
exclamavam os ouvintes.

 Muito esperto, concordava meu
pai; e os olhos babavam-se-lhe de orgulho, e ele espalmava a mo sobre a minha
cabea, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.

Item, comecei a andar, no sei bem
quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a
agarrar s cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pau.  S s,
nhonh, s s, dizia-me a mucama. E eu, atrado pelo chocalho de lata, que minha
me agitava diante de mim, l ia para a frente, cai aqui, cai acol; e andava,
provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.

CAPTULO XI / O MENINO  PAI DO
HOMEM

Cresci; e nisso  que a famlia
no interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnlias e os gatos. Talvez
os gatos so menos matreiros, e com certeza, as magnlias so menos inquietas do
que eu era na minha infncia. Um poeta dizia que o menino  pai do homem. Se
isto  verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

Desde os cinco anos merecera eu a
alcunha de menino diabo; e verdadeiramente no era outra coisa; fui dos mais
malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por
exemplo, um dia quebrei a cabea de uma escrava, porque me negara uma colher do
doce de coco que estava fazendo, e, no contente com o malefcio, deitei um
punhado de cinza ao tacho, e, no satisfeito da travessura, fui dizer  minha
me que a escrava  que estragara o doce por pirraa; e eu tinha apenas seis
anos. Prudncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as
mos no cho, recebia um cordel nos queixos,  guisa de freio, eu trepava-lhe ao
dorso, com uma varinha na mo, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e
ele obedecia,  algumas vezes gemendo,  mas obedecia sem dizer palavra, ou,
quando muito, um  ai, nhonh!  ao que eu retorquia:  Cala a boca, besta!
 Esconder os chapus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar
pelo rabicho das cabeleiras, dar belisces nos braos das matronas, e outras
muitas faanhas deste jaez, eram mostras de um gnio indcil, mas devo crer que
eram tambm expresses de um esprito robusto, porque meu pai tinha-me em grande
admirao; e se s vezes me repreendia,  vista de gente, fazia-o por simples
formalidade: em particular dava-me beijos.

No se conclua daqui que eu
levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabea dos outros nem a
esconder-lhes os chapus; mas opinitico, egosta e algo contemptor dos homens,
isso fui; se no passei o tempo a esconder-lhes os chapus, alguma vez lhes
puxei pelo rabicho das cabeleiras.

Outrossim, afeioei-me 
contemplao da injustia humana, inclinei-me a atenu-la, a explic-la, a
classifiquei-a por partes, a entend-la, no segundo um padro rgido, mas ao
sabor das circunstncias e lugares. Minha me doutrinava-me a seu modo, fazia-me
decorar alguns preceitos e oraes; mas eu sentia que, mais do que as oraes,
me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o esprito, que a faz
viver, para se tornar uma v frmula. De manh, antes do mingau, e de noite,
antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus
devedores; mas entre a manh e a noite fazia uma grande maldade, e meu pai,
passado o alvoroo, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah!
brejeiro! ah! brejeiro!

Sim, meu pai adorava-me. Minha me
era uma senhora fraca, de pouco crebro e muito corao, assaz crdula,
sinceramente piedosa,  caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de
abastada; temente s trovoadas e ao marido. O marido era na Terra o seu deus. Da
colaborao dessas duas criaturas nasceu a minha educao, que, se tinha alguma
coisa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio
cnego fazia s vezes alguns reparos ao irmo; dizia-lhe que ele me dava mais
liberdade do que ensino, e mais afeio do que emenda; mas meu pai respondia que
aplicava na minha educao um sistema inteiramente superior ao sistema usado; e
por este modo, sem confundir o irmo, iludia-se a si prprio.

De envolta com a transmisso e a
educao, houve ainda o exemplo estranho, o meio domstico. Vimos os pais;
vejamos os tios. Um deles, o Joo, era um homem de lngua solta, vida galante,
conversa picaresca. Desde os onze anos entrou a admitir-me s anedotas reais ou
no, eivadas todas de obscenidade ou imundcie. No me respeitava a
adolescncia, como no respeitava a batina do irmo; com a diferena que este
fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso. Eu no; deixava-me estar,
sem entender nada, a princpio, depois entendendo, e enfim achando-lhe graa. No
fim de certo tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava muito de mim, dava-me
doces, levava-me a passeio. Em casa, quando l ia passar alguns dias, no poucas
vezes me aconteceu ach-lo, no fundo da chcara, no lavadouro, a palestrar com
as escravas que batiam roupa; a  que era um desfiar de anedotas, de ditos, de
perguntas, e um estalar de risadas, que ningum podia ouvir, porque o lavadouro
ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a arregaar-lhes
um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre as
peas de roupa, a bat-las, a ensabo-las, a torc-las, iam ouvindo e
redargindo s pilhrias do tio Joo, e a coment-las de quando em quando com
esta palavra:

 Cruz, diabo!... Este sinh Joo
 o diabo!

Bem diferente era o tio cnego.
Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, no realavam um
esprito superior, apenas compensavam um esprito medocre. No era homem que
visse a parte substancial da igreja; via o lado externo, a hierarquia, as
preeminncias, as sobrepelizes, as circunflexes. Vinha antes da sacristia que
do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infrao dos
mandamentos. Agora, a tantos anos de distncia, no estou certo se ele poderia
atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a
histria do smbolo de Nicia; mas ningum, nas festas cantadas, sabia melhor o
nmero e casos das cortesias que se deviam ao oficiante. Cnego foi a nica
ambio de sua vida; e dizia de corao que era a maior dignidade a que podia
aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observncia das regras,
frouxo, acanhado, subalterno, possua algumas virtudes, em que era exemplar, mas
carecia absolutamente da fora de as incutir, de as impor aos outros.

No digo nada de minha tia
materna, D. Emerenciana, e alis era a pessoa que mais autoridade tinha sobre
mim; essa diferenava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa
companhia, uns dois anos. Outros parentes e alguns ntimos no merecem a pena de
ser citados; no tivemos uma vida comum, mas intermitente, com grandes claros de
separao. O que importa  a expresso geral do meio domstico, e essa a fica
indicada,  vulgaridade de caracteres, amor das aparncias rutilantes, do
arrudo, frouxido da vontade, domnio do capricho, e o mais. Dessa terra e
desse estrume  que nasceu esta flor.

CAPTULO XII / UM EPISDIO DE
1814

Mas eu no quero passar adiante,
sem contar sumariamente um galante episdio de 1814; tinha nove anos.

Napoleo, quando eu nasci, estava
j em todo o esplendor da glria e do poder; era imperador e granjeara
inteiramente a admirao dos homens. Meu pai, que  fora de persuadir os outros
da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si prprio, nutria contra ele um dio
puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque
meu tio Joo, no sei se por esprito de classe e simpatia de ofcio, perdoava
no dspota o que admirava no general, meu tio padre era inflexvel contra o
corso; os outros parentes dividiam-se: da as controvrsias e as rusgas.

Chegando ao Rio de Janeiro a
notcia da primeira queda de Napoleo, houve naturalmente grande abalo em nossa
casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo
pblico, julgaram mais decoroso o silncio; alguns foram alm e bateram palmas.
A populao, cordialmente alegre, no regateou demonstraes de afeto  real
famlia; houve iluminaes, salvas, Te-Deum, cortejo e aclamaes.
Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de
Santo Antnio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a queda de
Bonaparte. Nunca me esqueceu esse fenmeno. Nunca mais deixei de pensar comigo
que o nosso espadim  sempre maior do que a espada de Napoleo. E notem que eu
ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita pgina rumorosa de grandes idias
e maiores palavras, mas no sei por que, no fundo dos aplausos que me arrancavam
da boca, l ecoava alguma vez este conceito de experimentado:

 Vai-te embora, tu s cuidas do
espadim.

No se contentou a minha famlia
em ter um quinho annimo no regozijo pblico; entendeu oportuno e indispensvel
celebrar a destituio do imperador com um jantar, e tal jantar que o rudo das
aclamaes chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos, de seus
ministros. Dito e feito. Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu av
Lus Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da ndia; matou-se
um capado; encomendaram-se s madres da Ajuda as compotas e as marmeladas;
lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiais, arandelas, as
vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luxo clssico.

Dada a hora, achou-se reunida uma
sociedade seleta: o juiz-de-fora, trs ou quatro oficiais militares, alguns
comerciantes e letrados, vrios funcionrios da administrao, uns com suas
mulheres e filhas, outros sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a
memria de Bonaparte no papo de um peru. No era um jantar, mas um
Te-Deum; foi o que pouco mais ou menos disse um dos letrados presentes, o
Dr. Vilaa, glosador insigne, que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das
musas. Lembra-me, como se fosse ontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua
longa cabeleira de rabicho, casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu
tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote, cravar os olhos na testa
de uma senhora, depois tossir, alar a mo direita, toda fechada, menos o dedo
ndice, que apontava para o teto; e, assim posto e composto, devolver o mote
glosado. No fez uma glosa, mas trs; depois jurou aos seus deuses no acabar
mais. Pedia um mote, davam-lho, ele glosava-o prontamente, e logo pedia outro e
mais outro; a tal ponto que uma das senhoras presentes no pde calar a sua
grande admirao.

 A senhora diz isso, retorquia
modestamente o Vilaa, porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do
sculo, em Lisboa. Aquilo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de
uma e duas horas, no botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e
bravos. Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, h dias, a senhora
Duquesa de Cadaval...

E estas trs palavras ltimas,
expressas com muita nfase, produziram em toda a assemblia um frmito de
admirao e pasmo. Pois esse homem to dado, to simples, alm de pleitear com
poetas, discreteava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contato de tal
homem, as damas sentiam-se superfinas; os vares olhavam-no com respeito, alguns
com inveja, no raros com incredulidade. Ele, entretanto, ia caminho, a acumular
adjetivo sobre adjetivo, advrbio sobre advrbio, a desfiar todas as rimas de
tirano e de usurpador. Era  sobremesa; ningum j pensava em
comer. No intervalo das glosas, corria um burburinho alegre, um palavrear de
estmagos satisfeitos; os olhos moles e midos, ou vivos e clidos,
espreguiavam-se ou saltitavam de uma ponta  outra da mesa, atulhada de doces e
frutas, aqui o anans em fatias, ali o melo em talhadas, as compoteiras de
cristal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarelo como uma gema, 
ou ento o melado escuro e grosso, no longe do queijo e do car. De quando em
quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso de famlia, vinha quebrar a
gravidade poltica do banquete. No meio do interesse grande e comum, agitavam-se
tambm os pequenos e particulares. As moas falavam das modinhas que haviam de
cantar ao cravo, e do minuete e do solo ingls; nem faltava matrona que
prometesse bailar um oitavado de compasso, s para mostrar como folgara nos seus
bons tempos de criana. Um sujeito, ao p de mim, dava a outro notcia recente
dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda, uma
carta em que o sobrinho lhe dizia ter j negociado cerca de quarenta cabeas, e
outra carta em que... Trazia-as justamente na algibeira, mas no as podia ler
naquela ocasio. O que afianava  que podamos contar, s nessa viagem, uns
cento e vinte negros, pelo menos.

 Trs... trs... trs... fazia o
Vilaa batendo com as mos uma na outra. O rumor cessava de sbito, como um
estacado de orquestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava
longe aconcheava a mo atrs da orelha para no perder palavra; a mor parte,
antes mesmo da glosa, tinha j um meio riso de aplauso, trivial e cndido.

Quanto a mim, l estava, solitrio
e deslembrado, a namorar certa compota da minha paixo. No fim de cada glosa
ficava muito contente, esperando que fosse a ltima, mas no era, e a sobremesa
continuava intata. Ningum se lembrava de dar a primeira voz. Meu pai, 
cabeceira, saboreava a goles extensos a alegria dos convivas, mirava-se todo nos
cares alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade travada
entre os mais distantes espritos, influxo de um bom jantar. Eu via isso, porque
arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe
que ma servisse; mas fazia-o em vo. Ele no via nada; via-se a si mesmo. E as
glosas sucediam-se, como btegas d'gua, obrigando-me a recolher o desejo e o
pedido. Pacientei quanto pude; e no pude muito. Pedi em voz baixa o doce;
enfim, bradei, berrei, bati com os ps. Meu pai, que seria capaz de me dar o
sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era tarde.
A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma escrava, no
obstante os meus gritos e repeles.

No foi outro o delito do
glosador: retardara a compota e dera causa  minha excluso. Tanto bastou para
que eu cogitasse uma vingana, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, coisa
que de alguma maneira o tornasse ridculo. Que ele era um homem grave o Dr.
Vilaa, medido e lento, quarenta e sete anos, casado e pai. No me contentava o
rabo de papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser coisa pior. Entrei a
espreit-lo, durante o resto da tarde, a segui-lo, na chcara, aonde todos
desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusbia, irm do sargento-mor
Domingues, uma robusta donzelona, que se no era bonita, tambm no era feia.

 Estou muito zangada com o
senhor, dizia ela.

 Por qu?

 Porque... no sei por qu...
porque  a minha sina... creio s vezes que  melhor morrer.

Tinham penetrado numa pequena
moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Vilaa levava nos olhos umas chispas de
vinho e de volpia.

 Deixe-me! disse ela.

 Ningum nos v. Morrer, meu
anjo? Que idias so essas! Voc sabe que eu morrerei tambm... que digo?...
morro todos os dias, de paixo, de saudades...

D. Eusbia levou o leno aos
olhos. O glosador vasculhava na memria algum pedao literrio e achou este, que
mais tarde verifiquei ser de uma das peras do Judeu:

 No chores, meu bem; no queiras
que o dia amanhea com duas auroras.

Disse isto; puxou-a para si; ela
resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito
ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.

 O Dr. Vilaa deu um beijo em D.
Eusbia! bradei eu correndo pela chcara.

Foi um estouro esta minha palavra;
a estupefao imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda;
trocavam-se sorrisos, segredos,  socapa, as mes arrastavam as filhas,
pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas, disfaradamente, irritado
deveras com a indiscrio; mas no dia seguinte, ao almoo, lembrando o caso,
sacudiu-me o nariz a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

CAPTULO XIII / UM
SALTO

Unamos agora os ps e demos um
salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever,
contar, dar cacholetas, apanh-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora
nas praias, onde quer que fosse propcio a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha
os ralhos, os castigos, as lies rduas e longas, e pouco mais, muito pouco e
muito leve. S era pesada, a palmatria, e ainda assim...  palmatria, terror
dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho
mestre, ossudo e calvo, me incutiu no crebro o alfabeto, a prosdia, a sintaxe,
e o mais que ele sabia, benta palmatria, to praguejada dos modernos, quem me
dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorncias,
e o meu espadim, aquele espadim de 1814, to superior  espada de Napoleo! Que
querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lio de cor e
compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que  das ltimas
letras; com a diferena que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga.
Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco,
capote, leno na mo, calva  mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar,
grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois  lio. E fizeste
isto durante vinte e trs anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da
Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, at que um dia deste
o grande mergulho nas trevas, e ningum te chorou, salvo um preto velho, 
ningum, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero
escrever-lhe o nome todo nesta pgina: Ludgero Barata,  um nome funesto, que
servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de ns, o Quincas Borba, esse
ento era cruel com o pobre homem. Duas, trs vezes por semana, havia de lhe
deixar na algibeira das calas,  umas largas calas de enfiar , ou na gaveta
da mesa, ou ao p do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas
horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os
ltimos nomes: ramos sevandijas, capadcios, malcriados, moleques.  Uns
tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porm, deixava-se estar quieto, com
os olhos espetados no ar.

Uma flor, o Quincas Borba. Nunca
em minha infncia, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso,
inventivo e travesso. Era a flor, e no j da escola, seno de toda a cidade. A
me, viva, com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado,
asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrs, um pajem que nos deixava gazear
a escola, ir caar ninhos de pssaros, ou perseguir lagartixas nos morros do
Livramento e da Conceio, ou simplesmente arruar,  toa, como dois peraltas sem
emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas
festas do Esprito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre
um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha
garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificncia nas atitudes, nos meneios.
Quem diria que... Suspendamos a pena; no adiantemos os sucessos. Vamos de um
salto a 1822, data da nossa independncia poltica, e do meu primeiro cativeiro
pessoal.

CAPTULO XIV / O PRIMEIRO
BEIJO

Tinha dezessete anos; pungia-me um
buozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos,
eram a minha feio verdadeiramente mscula. Como ostentasse certa arrogncia,
no se distinguia bem se era uma criana, com fumos de homem, se um homem com
ares de menino. Ao cabo, era um lindo garo, lindo e audaz, que entrava na vida
de botas e esporas, chicote na mo e sangue nas veias, cavalgando um corcel
nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi
buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso sculo. O pior 
que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deit-lo  margem, onde o realismo
o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixo, o transportou para
os seus livros.

Sim, eu era esse garo bonito,
airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante
de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiosos. De todas
porm a que me cativou logo foi uma... uma... no sei se diga; este livro 
casto, ao menos na inteno; na inteno  castssimo. Mas v l; ou se h de
dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a linda
Marcela, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razo os rapazes. Era
filha de um hortelo das Astrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade,
porque a opinio aceita  que nascera de um letrado de Madri, vtima da invaso
francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.

Cosas de Espaa. Quem quer que fosse,
porm, o pai, letrado ou hortelo, a verdade  que Marcela no possua a
inocncia rstica, e mal chegava a entender a moral do cdigo. Era boa moa,
lpida, sem escrpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe no
permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa,
impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um
certo Xavier, sujeito abastado e tsico,  uma prola.

Vi-a pela primeira vez, no Rocio
Grande, na noite das luminrias, logo que constou a declarao da independncia,
uma festa de primavera, um amanhecer da alma pblica. ramos dois rapazes, o
povo e eu; vnhamos da infncia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a
sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um
desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras.  Segue-me, disse
ela ao pajem. E eu segui-a, to pajem como o outro, como se a ordem me fosse
dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio
caminho, chamaram-lhe linda Marcela, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio
Joo, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

Trs dias depois perguntou-me meu
tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moas, nos Cajueiros. Fomos; era em
casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tubrculos, presidia ao banquete
noturno, em que eu pouco ou nada comi, porque s tinha olhos para a dona da
casa. Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia dzia de mulheres,
 todas de partido , e bonitas, cheias de graa, mas a espanhola... O
entusiasmo, alguns goles de vinho, o gnio imperioso, estouvado, tudo isso me
levou a fazer uma coisa nica;  sada,  porta da rua, disse a meu tio que
esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.

 Esqueceu alguma coisa? perguntou
Marcela de p, no patamar.

 O leno.

Ela ia abrir-me caminho para
tornar  sala; eu segurei-lhe nas mos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo.
No sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se chamou algum; no sei nada;
sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufo, e incerto como um
brio.

CAPTULO XV /
MARCELA

Gastei trinta dias para ir do
Rocio Grande ao corao de Marcela, no j cavalgando o corcel do cego desejo,
mas o asno da pacincia, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, h dois
meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e
o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Danae, trs inventos do
Padre Zeus, que, por estarem fora da moda, a ficam trocados no cavalo e no
asno. No direi as traas que urdi, nem as peitas, nem as alternativas de
confiana e temor, nem as esperas baldadas, nem nenhuma outra dessas coisas
preliminares. Afirmo-lhes que o asno foi digno do corcel,  um asno de Sancho,
deveras filsofo, que me levou  casa dela, no fim do citado perodo; apeei-me,
bati-lhe na anca e mandei-o pastar.

Primeira comoo da minha
juventude, que doce que me foste! Tal devia ser, na criao bblica, o efeito do primeiro sol.
Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em
flor. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito
anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.

Teve duas fases a nossa paixo, ou
ligao, ou qualquer outro nome, que eu de nomes no curo, teve a fase consular
e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que
ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a
credulidade no pde resistir  evidncia, o Xavier deps as insgnias, e eu
concentrei todos os poderes na minha mo; foi a fase cesariana. Era meu o
universo; mas, ai triste! no o era de graa. Foi-me preciso coligir dinheiro,
multiplic-lo, invent-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele
dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem repreenso, sem demora, sem frieza; dizia a
todos que eu era rapaz e que ele o fora tambm. Mas a tal extremo chegou o
abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais.
Ento recorri a minha me, e induzi-a a desviar alguma coisa, que me dava s
escondidas. Era pouco; lancei mo de um recurso ltimo: entrei a sacar sobre a
herana de meu pai, a assinar obrigaes, que devia resgatar um dia com usura.

 Em verdade, dizia-me Marcela,
quando eu lhe levava alguma seda, alguma jia: em verdade, voc quer brigar
comigo... Pois isto  coisa que se faa... um presente to caro...

E, se era jia, dizia isto a
contempl-la entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensai-la em si, e a rir,
e a beijar-me com uma reincidncia impetuosa e sincera; mas, protestando,
derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com v-la assim.
Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia
obter; Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave
ningum nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa
em que morava, nos Cajueiros, era prpria. Eram slidos e bons os mveis, de
jacarand lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras, baixela,  uma
linda baixela da ndia, que lhe doara um desembargador. Baixela do diabo,
deste-me grandes repeles aos nervos. Disse-o muita vez  prpria dona; no lhe
dissimulava o tdio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de
antanho. Ela ouvia-me e ria, com uma expresso cndida,  cndida e outra coisa,
que eu nesse tempo no entendia bem; mas agora, relembrando o caso, penso que
era um riso misto, como devia ter a criatura que nascesse, por exemplo, de uma
bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock. No sei se me explico. E
porque tinha notcia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os aular
mais. Assim foi que um dia, como eu lhe no pudesse dar certo colar, que ela
vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso amor
no precisava de to vulgar estmulo.

 No lhe perdo, se voc fizer de
mim essa triste idia, concluiu ameaando-me com o dedo.

E logo, sbita como um passarinho,
espalmou as mos, cingiu-me com elas o rosto, puxou-me a si e fez um trejeito
gracioso, um momo de criana. Depois, reclinada na marquesa, continuou a falar
daquilo, com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe comprassem os
afetos. Vendera muita vez as aparncias, mas a realidade, guardava-a para
poucos. Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ela amara deveras, dois anos
antes, s a custo conseguia dar-lhe alguma coisa de valor, como me acontecia a
mim; ela s lhe aceitava sem relutncia os mimos de escasso preo, como a cruz
de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas.

 Esta cruz...

Dizia isto, metendo a mo no seio
e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul e pendurada ao colo.

 Mas essa cruz, observei eu, no
me disseste que era teu pai que...

Marcela abanou a cabea com um ar
de lstima:

 No percebeste que era mentira,
que eu dizia isso para te no molestar? Vem c, chiquito, no sejas assim
desconfiado comigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos
separarmos...

 No digas isso! bradei eu.

 Tudo cessa! Um dia...

No pde acabar; um soluo
estrangulou-lhe a voz; estendeu as mos, tomou das minhas, conchegou-me ao seio,
e sussurrou-me baixo ao ouvido:  Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lho com os
olhos midos. No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado.

 Para te lembrares de mim, quando
nos separarmos, disse eu.

Marcela teve primeiro um silncio
indignado; depois fez um gesto magnfico: tentou atirar o colar  rua. Eu
retive-lhe o brao; pedi-lhe muito que no me fizesse tal desfeita, que ficasse
com a jia. Sorriu e ficou.

Entretanto, pagava-me  farta os
sacrifcios; espreitava os meus mais recnditos pensamentos; no havia desejo a
que no acudisse com alma, sem esforo, por uma espcie de lei da conscincia e
necessidade do corao. Nunca o desejo era razovel, mas um capricho puro, uma
criancice, v-la trajar de certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e
no aquele, ir a passeio ou outra coisa assim, e ela cedia a tudo, risonha e
palreira.

 Voc  das Arbias, dizia-me.

E ia a pr o vestido, a renda, os
brincos, com uma obedincia de encantar.

CAPTULO XVI / UMA REFLEXO
IMORAL

Ocorre-me uma reflexo imoral, que
 ao mesmo tempo uma correo de estilo. Cuido haver dito, no captulo XIV, que
Marcela morria de amores pelo Xavier. No morria, vivia. Viver no  a mesma
coisa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo, gente muito
vista na gramtica. Bons joalheiros, que seria do amor se no fossem os vossos
dixes e fiados? Um tero ou um quinto do universal comrcio dos coraes. Esta 
a reflexo imoral que eu pretendia fazer, a qual  ainda mais obscura do que
imoral, porque no se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer 
que a mais bela testa do mundo no fica menos bela, se a cingir um diadema de
pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem
bonita, Marcela amou-me...

CAPTULO XVII / DO TRAPZIO E
OUTRAS COISAS

...Marcela amou-me durante quinze
meses e onze contos de ris; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze
contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um
capricho juvenil.

 Desta vez, disse ele, vais para
a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para
homem srio e no para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:
 Gatuno, sim senhor; no  outra coisa um filho que me faz isto...

Sacou da algibeira os meus ttulos
de dvida, j resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara.  Vs, peralta?  assim
que um moo deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avs ganhamos o
dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas
juzo, ou ficas sem coisa nenhuma.

Estava furioso, mas de um furor
temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada opus  ordem da viagem, como de
outras vezes fizera; ruminava a idia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela;
expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem
responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que no podia ir para a
Europa.

 Por que no?

 No posso, disse ela com ar
dolente; no posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre
pai, morto por Napoleo...

 Qual deles: o hortelo ou o
advogado?

Marcela franziu a testa,
cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou
vir um copo de alu. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte
dos meus onze contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta
foi dar com a mo no copo e na salva; entornou-se-lhe o lquido no regao, a
preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a ss, derramei
todo o desespero de meu corao; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me
tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da
sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos.
Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um
pedao de mrmore. Tive mpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos,
subjugando-a a meus ps. Ia talvez faz-lo; mas a ao trocou-se noutra; fui eu
que me atirei aos ps dela, contrito e splice; beijei-lhos, recordei aqueles
meses da nossa felicidade solitria, repeti-lhe os nomes queridos de outro
tempo, sentado no cho, com a cabea entre os joelhos dela, apertando-lhe muito
as mos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lgrimas que me no desamparasse...
Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, at que
brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:

 No me aborrea, disse.

Levantou-se, sacudiu o vestido,
ainda molhado, e caminhou para a alcova.  No! bradei eu; no hs de entrar...
no quero... Ia a lanar-lhe as mos: era tarde; ela entrara e fechara-se.

Sa desatinado; gastei duas
mortais horas em vaguear pelos bairros mais excntricos e desertos, onde fosse
difcil dar comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma espcie de gula
mrbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delrio, e ora me comprazia
em crer que eles eram eternos, que tudo aquilo era um pesadelo, ora,
enganando-me a mim mesmo, tentava rejeit-los de mim, como um fardo intil.
Ento resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades,
e deleitava-me com a idia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de
saudades e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa, uma
lembrana qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente do cime
enterrava-se-me no corao; toda a natureza bradava que era preciso levar
Marcela comigo.

 Por fora... por fora... dizia
eu ferindo o ar com uma punhada.

Enfim, tive uma idia salvadora...
Ah! trapzio dos meus pecados, trapzio das concepes abstrusas! A idia
salvadora trabalhou nele, como a do emplasto (captulo II). Era nada menos que
fascin-la, fascin-la muito, deslumbr-la, arrast-la; lembrou-me pedir-lhe por
um meio mais concreto do que a splica. No medi as conseqncias; recorri a um
derradeiro emprstimo; fui  Rua dos Ourives, comprei a melhor jia da cidade,
trs diamantes grandes encastoados num pente de marfim; corri  casa de Marcela.

Marcela estava reclinada numa
rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pezinho
calado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e
sonolento.

 Vem comigo, disse eu, arranjei
recursos... temos muito dinheiro, ters tudo o que quiseres... Olha, toma.

E mostrei-lhe o pente com os
diamantes... Marcela teve um leve sobressalto, ergueu metade do corpo, e,
apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois
retirou os olhos; tinha-se dominado. Ento, eu lancei-lhe as mos aos cabelos,
coligi-os, enlacei-os  pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e
rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe
as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem,
tudo com uma minuciosidade e um carinho de me.

 Pronto, disse eu.

 Doudo! foi a sua primeira
resposta.

A segunda foi puxar-me para si, e
pagar-me o sacrifcio com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o
pente, admirou muito a matria e o lavor, olhando a espaos para mim, e abanando
a cabea, com um ar de repreenso:

 Ora voc! dizia.

 Vens comigo?

Marcela refletiu um instante. No
gostei da expresso com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede
para a jia; mas toda a m impresso se desvaneceu, quando ela me respondeu
resolutamente:

 Vou. Quando embarcas?

 Daqui a dois ou trs dias.

 Vou.

Agradeci-lho de joelhos. Tinha
achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-lho; ela sorriu, e foi
guardar a jia, enquanto eu descia a escada.

CAPTULO XVIII / VISO DO
CORREDOR

No fim da escada, ao fundo do
corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as
idias dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensaes profundas e
contrrias. Achava-me feliz. Certo  que os diamantes corrompiam-me um pouco a
felicidade; mas no  menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os
gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter
defeitos, mas amava-me...

 Um anjo! murmurei olhando para o
teto do corredor.

E a, como um escrnio, vi o olhar
de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiana, o
qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e
o meu. Pobre namorado das Mil e Uma Noites! Vi-te ali mesmo correr atrs
da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a
correr, a correr, a correr, at a alameda comprida, donde saste  rua, onde
todos os correeiros te apuparam e desancaram. Ento pareceu-me que o corredor de
Marcela era a alameda, e que a rua era a de Bagd. Com efeito, olhando para a
porta, vi na calada trs dos correeiros, um de batina, outro de libr, outro 
paisana, os quais todos trs entraram no corredor, tomaram-me pelos braos,
meteram-me numa sege, meu pai  direita, meu tio cnego  esquerda, o da libr
na bolia, e l me levaram  casa do intendente de polcia, donde fui
transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas
toda a resistncia era intil.

Trs dias depois segui barra fora,
abatido e mudo. No chorava sequer; tinha uma idia fixa... Malditas idias
fixas! A dessa ocasio era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de
Marcela.

CAPTULO XIX / A
BORDO

ramos onze passageiros, um homem
doido, acompanhado pela mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro
comerciantes e dois criados. Meu pai recomendou-me a todos, comeando pelo
capito do navio, que alis tinha muito que cuidar de si, porque, alm do mais,
levava a mulher tsica em ltimo grau.

No sei se o capito suspeitou
alguma coisa do meu fnebre projeto, ou se meu pai o ps de sobreaviso; sei que
no me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando no podia
estar comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa camilha
rasa, a tossir muito, e a afianar que me havia de mostrar os arredores de
Lisboa. No estava magra, estava transparente; era impossvel que no morresse
de uma hora para outra. O capito fingia no crer na morte prxima, talvez por
enganar-se a si mesmo. Eu no sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o
destino de uma mulher tsica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela.

Uma noite, logo no fim de uma
semana, achei ensejo propcio para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o
capito, que junto  amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.

 Algum temporal? disse eu.

 No, respondeu ele estremecendo;
no; admiro o esplendor da noite. Veja; est celestial!

O estilo desmentia da pessoa,
assaz rude e aparentemente alheia a locues rebuscadas. Fitei-o; ele pareceu
saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mo e apontou
para a lua, perguntando-me por que no fazia uma ode  noite; respondi-lhe que
no era poeta. O capito rosnou alguma coisa, deu dois passos, meteu a mo no
bolso, sacou um pedao de papel, muito amarrotado; depois,  luz de uma
lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida martima. Eram versos
dele.

 Que tal?

No me lembra o que lhe disse;
lembra-me que ele me apertou a mo com muita fora e muitos agradecimentos; logo
depois recitou-me dois sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da
parte da mulher.  L vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa,
com amor.

Fiquei s; mas a musa do capito
varrera-me do esprito os pensamentos maus; preferi dormir, que  um modo
interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu
medo a toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a
filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da
loucura. No, nunca me h de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio
do tumulto das gentes e dos uivos do furaco, a cantarolar e a bailar, com os
olhos a saltarem-lhe da cara, plido, cabelo arrepiado e longo. s vezes parava,
erguia ao ar as mos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez,
depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher no podia j cuidar
dele; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do Cu.
Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diverso excelente 
tempestade do meu corao. Eu, que meditava ir ter com a morte, no ousei
fit-la quando ela veio ter comigo.

O capito perguntou-me se tivera
medo, se estivera em risco, se no achara sublime o espetculo: tudo isso com um
interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o
capito perguntou-me se no gostava de idlios piscatrios; eu respondi-lhe
ingenuamente que no sabia o que era.

 Vai ver, respondeu.

E recitou-me um poemazinho, depois
outro,  uma gloga,  e enfim cinco sonetos, com os quais rematou nesse dia a
confidncia literria. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o
capito que s por motivos graves abraara a profisso martima, porque a av
queria que ele fosse padre, e com efeito possua algumas letras latinas; no
chegou a ser padre, mas no deixou de ser poeta, que era a sua vocao natural.
Para prov-lo, recitou-me logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei
um fenmeno: os ademanes que ele usava eram tais, que uma vez me fizeram rir;
mas o capito, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que
no viu nem ouviu nada.

Os dias passavam, e as guas, e os
versos, e com eles ia tambm passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um
dia, logo depois do almoo, disse-me o capito que a enferma talvez no chegasse
ao fim da semana.

 J! exclamei.

 Passou muito mal a noite.

Fui v-la; achei-a, na verdade,
quase moribunda, mas falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias, antes de
ir comigo a Coimbra, porque era seu propsito levar-me  Universidade. Deixei-a
consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer no
costado do navio, e tratei de o consolar; ele agradeceu-me, relatou-me a
histria dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicao da mulher,
relembrou os versos que lhe fez, e recitou-mos. Neste ponto vieram busc-lo da
parte dela; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia seguinte foram cruis; o
terceiro foi o da morte; eu fugi ao espetculo, tinha-lhe repugnncia. Meia hora
depois encontrei o capito, sentado num molho de cabos, com a cabea nas mos,
disse-lhe alguma coisa de conforto.

 Morreu como uma santa, respondeu
ele; e, para que estas palavras no pudessem ser levadas  conta de fraqueza,
ergueu-se logo, sacudiu a cabea, e fitou o horizonte, com um gesto longo e
profundo.  Vamos, continuou, entreguemo-la  cova que nunca mais se abre.

Efetivamente, poucas horas depois,
era o cadver lanado ao mar, com as cerimnias do costume. A tristeza murchara
todos os rostos; o do vivo trazia a expresso de um cabeo rijamente lascado
pelo raio. Grande silncio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se,
 uma leve ruga,  e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos 
popa, com os olhos naquele ponto incerto do mar em que ficava um de ns... Fui
dali ter com o capito, para distra-lo.

 Obrigado, disse-me ele
compreendendo a inteno; creia que nunca me esquecerei dos seus bons servios.
Deus  que lhos h de pagar. Pobre Leocdia! tu te lembrars de ns no Cu.

Enxugou com a manga uma lgrima
importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a paixo dele. Falei-lhe
dos versos, que me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os olhos do capito
animaram-se um pouco.  Talvez aceite, disse ele; mas no sei... so bem frouxos
versos. Jurei-lhe que no; pedi que os reunisse e mos desse antes do
desembarque.

 Pobre Leocdia! murmurou sem
responder ao pedido. Um cadver... o mar... o cu... o navio...

No dia seguinte veio ler-me um
epicdio composto de fresco, em que estavam memoradas as circunstncias da morte
e da sepultura da mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e a mo trmula; no
fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.

 So, disse eu.

 No haver estro, ponderou ele,
no fim de um instante, mas ningum me negar sentimento, se no  que o prprio
sentimento prejudicou a perfeio...

 No me parece; acho os versos
perfeitos.

 Sim, eu creio que... Versos de
marujo.

 De marujo poeta.

Ele levantou os ombros, olhou para
o papel, e tornou a recitar a composio, mas j ento sem tremuras, acentuando
as intenes literrias, dando relevo s imagens e melodia aos versos. No fim,
confessou-me que era a sua obra mais acabada; eu disse-lhe que sim; ele
apertou-me muito a mo e predisse-me um grande futuro.

CAPTULO XX /
BACHARELO-ME

Um grande futuro! Enquanto esta
palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte
misterioso e vago. Uma idia expelia outra, a ambio desmontava Marcela. Grande
futuro? Talvez naturalista, literato, arquelogo, banqueiro, poltico, ou at
bispo,  bispo que fosse,  uma vez que fosse um cargo, uma preeminncia, uma
grande reputao, uma posio superior. A ambio, dado que fosse guia, quebrou
nessa ocasio o ovo, e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores!
adeus, Marcela! dias de delrio, jias sem preo, vida sem regmen, adeus! C me
vou s fadigas e  glria; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.

E foi assim que desembarquei em
Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas matrias
rduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel;
deram-mo com a solenidade do estilo, aps os anos da lei; uma bela festa que me
encheu de orgulho e de saudades,  principalmente de saudades. Tinha eu
conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folio; era um acadmico estrina,
superficial, tumulturio e petulante, dado s aventuras, fazendo romantismo
prtico e liberalismo terico, vivendo na pura f dos olhos pretos e das
constituies escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho,
uma cincia que eu estava longe de trazer arraigada no crebro, confesso que me
achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma
carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade.
Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado,
mas sentindo j uns mpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros,
de influir, de gozar, de viver,  de prolongar a Universidade pela vida
adiante...

CAPTULO XXI / O
ALMOCREVE

Vai ento, empacou o jumento em
que eu vinha montado; fustiguei-o, ele deu dois corcovos, depois mais trs,
enfim mais um, que me sacudiu fora da sela, com tal desastre, que o p esquerdo
me ficou preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas j ento,
espantado, disparou pela estrada fora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente
deu dois saltos, mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de lhe pegar
na rdea e det-lo, no sem esforo nem perigo. Dominado o bruto,
desvencilhei-me do estribo e pus-me de p.

 Olhe do que vosmec escapou,
disse o almocreve.

E era verdade; se o jumento corre
por ali fora, contundia-me deveras, e no sei se a morte no estaria no fim do
desastre; cabea partida, uma congesto, qualquer transtorno c dentro, l se me
ia a cincia em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu
sentia-no no sangue que me agitava o corao. Bom almocreve! enquanto eu tornava
 conscincia de mim mesmo, ele cuidava de consertar os arreios do jumento, com
muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe trs moedas de ouro das cinco que trazia
comigo; no porque tal fosse o preo da minha vida,  essa era inestimvel; mas
porque era uma recompensa digna da dedicao com que ele me salvou. Est dito,
dou-lhe as trs moedas.

 Pronto, disse ele,
apresentando-me a rdea da cavalgadura.

 Daqui a nada, respondi;
deixa-me, que ainda no estou em mim...

 Ora qual!

 Pois no  certo que ia
morrendo?

 Se o jumento corre por a fora,
 possvel; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmec que no aconteceu nada.

Fui aos alforjes, tirei um colete
velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo
cogitei se no era excessiva a gratificao, se no bastavam duas moedas. Talvez
uma. Com efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremees de alegria.
Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira uma moeda de
ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir  luz do sol; no a viu o
almocreve, porque eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou
a falar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que
tomasse juzo, que o senhor doutor podia castig-lo; um monlogo paternal.
Valha-me Deus! at ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a
testa.

 Ol! exclamei.

 Queira vosmec perdoar, mas o
diabo do bicho est a olhar para a gente com tanta graa...

Ri-me, hesitei, meti-lhe na mo um
cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado,
melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas braas de
distncia, olhei para trs, o almocreve fazia-me grandes cortesias, com
evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu
pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do colete que
trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vintns que eu devera ter
dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata. Porque, enfim, ele no levou em
mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento,
aos hbitos do ofcio; acresce que a circunstncia de estar, no mais adiante
nem mais atrs, mas justamente no ponto do desastre, parecia constitu-lo
simples instrumento da Providncia; e de um ou de outro modo, o mrito do ato
era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexo, chamei-me
prdigo, lancei o cruzado  conta das minhas dissipaes antigas; tive (por que
no direi tudo?) tive remorsos.

CAPTULO XXII / VOLTA AO
RIO

Jumento de uma figa, cortaste-me o
fio s reflexes. J agora no digo o que pensei dali at Lisboa, nem o que fiz
em Lisboa, na pennsula e em outros lugares da Europa, da velha Europa, que
nesse tempo parecia remoar. No, no direi que assisti s alvoradas do
romantismo, que tambm eu fui fazer poesia efetiva no regao da Itlia; no
direi coisa nenhuma. Teria de escrever um dirio de viagem e no umas memrias,
como estas so, nas quais s entra a substncia da vida.

Ao cabo de alguns anos de
peregrinao, atendi s splicas de meu pai:  Vem, dizia ele na ltima carta;
se no vieres depressa, achars tua me morta! Esta ltima palavra foi para mim
um golpe. Eu amava minha me; tinha ainda diante dos olhos as circunstncias da
ltima bno que ela me dera, a bordo do navio. Meu triste filho, nunca mais
te verei, soluava a pobre senhora apertando-me ao peito. E essas palavras
ressoavam-me agora, como uma profecia realizada.

Note-se que eu estava em Veneza,
ainda recendente aos versos de lord Byron; l estava, mergulhado em pleno
sonho, revivendo o pretrito, crendo-me na Serenssima Repblica.  verdade; uma
vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.  Que
doge, signor mio? Ca em mim, mas no confessei a iluso; disse-lhe que a
minha pergunta era um gnero de charada americana; ele mostrou compreender, e
acrescentou que gostava muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois
deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a Ponte dos Suspiros, a gndola, os
versos do lorde, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala na
direo do Rio de Janeiro.

Vim... Mas no; no alonguemos
este captulo. s vezes, esqueo-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com
grave prejuzo meu, que sou autor. Captulos compridos quadram melhor a leitores
pesades; e ns no somos um pblico in-folio, mas in-12, pouco
texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... No, no
alonguemos o captulo.

CAPTULO XXIII / TRISTE, MAS
CURTO

Vim. No nego que, ao avistar a
cidade natal, tive uma sensao nova. No era efeito da minha ptria poltica;
era-o do lugar da infncia, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de
mantilha, o preto do ganho, as coisas e cenas da meninice, buriladas na memria.
Nada menos que uma renascena. O esprito, como um pssaro, no se lhe deu da
corrente dos anos, arrepiou o vo na direo da fonte original, e foi beber da
gua fresca e pura, ainda no mesclada do enxurro da vida.

Reparando bem, h a um
lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a consternao da
famlia. Meu pai abraou-me com lgrimas.  Tua me no pode viver, disse-me.
Com efeito, no era j o reumatismo que a matava, era um cancro no estmago. A
infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro  indiferente s virtudes do
sujeito; quando ri, ri; roer  o seu ofcio. Minha irm Sabina, j ento
casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moa! dormia trs horas por
noite, nada mais. O prprio tio Joo estava abatido e triste. D. Eusbia e
algumas outras senhoras l estavam tambm, no menos tristes e no menos
dedicadas.

 Meu filho!

A dor suspendeu por um pouco as
tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa
eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia
brilhante; restavam os ossos, que no emagrecem nunca. Mal poderia conhec-la;
havia oito ou nove anos que nos no vamos. Ajoelhado, ao p da cama, com as
mos dela entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar falar, porque cada
palavra seria um soluo, e ns temamos avis-la do fim. Vo temor! Ela sabia
que estava prestes a acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manh.

Longa foi a agonia, longa e cruel,
de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me encheu de dor e estupefao.
Era a primeira vez que eu via morrer algum. Conhecia a morte de outiva; quando
muito, tinha-a visto j petrificada no rosto de algum cadver, que acompanhei ao
cemitrio, ou trazia-lhe a idia embrulhada nas amplificaes de retrica dos
professores de coisas antigas,  a morte aleivosa de Csar, a austera de
Scrates, a orgulhosa de Cato. Mas esse duelo do ser e do no ser, a morte em
ao, dolorida, contrada, convulsa, sem aparelho poltico ou filosfico, a
morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar. No
chorei; lembra-me que no chorei durante o espetculo: tinha os olhos estpidos,
a garganta presa, a conscincia boquiaberta. Qu? uma criatura to dcil, to
meiga, to santa, que nunca jamais fizera verter uma lgrima de desgosto, me
carinhosa, esposa imaculada, era fora que morresse assim, trateada, mordida
pelo dente tenaz de uma doena sem misericrdia? Confesso que tudo aquilo me
pareceu obscuro, incongruente, insano...

Triste captulo; passemos a outro
mais alegre.

CAPTULO XXIV / CURTO, MAS
ALEGRE

Fiquei prostrado. E contudo era
eu, nesse tempo, um fiel compndio de trivialidade e presuno. Jamais o
problema da vida e da morte me oprimira o crebro; nunca at esse dia me
debruara sobre o abismo do Inexplicvel; faltava-me o essencial, que  o
estmulo, a vertigem...

Para lhes dizer a verdade toda, eu
refletia as opinies de um cabeleireiro, que achei em Mdena, e que se
distinguia por no as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais
demorada que fosse a operao do toucado, no enfadava nunca; ele intercalava as
penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor... No
tinha outra filosofia. Nem eu. No digo que a Universidade me no tivesse
ensinado alguma; mas eu decorei-lhe s as frmulas, o vocabulrio, o esqueleto.
Tratei-a como tratei o latim; embolsei trs versos de Virglio, dois de Horcio,
uma dzia de locues morais e polticas, para as despesas da conversao.
Tratei-os como tratei a histria e a jurisprudncia. Colhi de todas as coisas a
fraseologia, a casca, a ornamentao...

Talvez espante ao leitor a
franqueza com que lhe exponho e realo a minha mediocridade; advirta que a
franqueza  a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinio, o
contraste dos interesses, a luta das cobias obrigam a gente a calar os trapos
velhos, a disfarar os rasges e os remendos, a no estender ao mundo as
revelaes que faz  conscincia; e o melhor da obrigao  quando,  fora de
embaar os outros, embaa-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o
vexame, que  uma sensao penosa, e a hipocrisia, que  um vcio hediondo. Mas,
na morte, que diferena! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir
fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se,
desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em
suma, j no h vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem
estranhos; no h platia. O olhar da opinio, esse olhar agudo e judicial,
perde a virtude, logo que pisamos o territrio da morte; no digo que ele se no
estenda para c, e nos no examine e julgue; mas a ns  que no se nos d do
exame nem do julgamento. Senhores vivos, no h nada to incomensurvel como o
desdm dos finados.

CAPTULO XXV/ NA
TIJUCA

Ui! L me ia a pena a escorregar
para o enftico. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca,
durante as primeiras semanas depois da morte de minha me.

No stimo dia, acabada a missa
fnebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque, 
o Prudncio do captulo XI,  e fui meter-me numa velha casa de nossa
propriedade. Meu pai forcejou por me torcer a resoluo, mas eu  que no podia
nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo,
 duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar  fina fora.
Era um bom rapaz este Cotrim; passara de estrina a circunspecto. Agora
comerciava em gneros de estiva, labutava de manh at  noite, com ardor, com
perseverana. De noite, sentado  janela, a encaracolar as suas, no pensava
em outra coisa. Amava a mulher e um filho, que ento tinha, e que lhe morreu
alguns anos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o esprito
atnito. Creio que por ento  que comeou a desabotoar em mim a hipocondria,
essa flor amarela, solitria e mrbida, de um cheiro inebriante e sutil.  Que
bom que  estar triste e no dizer coisa nenhuma!  Quando esta palavra de
Shakespeare me chamou a ateno, confesso que senti em mim um eco, um eco
delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro
do poeta aberto nas mos, e o esprito ainda mais cabisbaixo do que a figura, 
ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor
taciturna, com uma sensao nica, uma coisa a que poderia chamar volpia do
aborrecimento. Volpia do aborrecimento: decora esta expresso, leitor;
guarda-a, examina-a, e se no chegares a entend-la, podes concluir que ignoras
uma das sensaes mais sutis desse mundo e daquele tempo.

s vezes, caava, outras dormia,
outras lia,  lia muito,  outras enfim no fazia nada; deixava-me atoar de
idia em idia, de imaginao em imaginao, como uma borboleta vadia ou
faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caa, as sombras da noite
velavam a montanha e a cidade. Ningum me visitava; recomendei expressamente que
me deixassem s. Um dia, dois dias, trs dias, uma semana inteira passada assim,
sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao
bulcio. Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solido; a dor
aplacara; o esprito j se no contentava com o uso da espingarda e dos livros,
nem com a vista do arvoredo e do cu. Reagia a mocidade, era preciso viver. Meti
no ba o problema da vida e da morte, os hipocondracos do poeta, as camisas, as
meditaes, as gravatas, e ia fech-lo, quando o moleque Prudncio me disse que
uma pessoa do meu conhecimento se mudara na vspera para uma casa roxa, situada
a duzentos passos da nossa.

 Quem?

 Nhonh talvez no se lembre mais
de D. Eusbia...

 Lembra-me...  ela?

 Ela e a filha. Vieram ontem de
manh.

Ocorreu-me logo o episdio de
1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razo.
Na verdade, fora impossvel evitar as relaes ntimas do Vilaa com a irm do
sargento-mor; antes mesmo do meu embarque, j se boquejava misteriosamente no
nascimento de uma menina. Meu tio Joo mandou-me dizer depois que o Vilaa, ao
morrer, deixara um bom legado a D. Eusbia, coisa que deu muito que falar em
todo o bairro. O prprio tio Joo, guloso de escndalos, no tratou de outro
assunto na carta, alis de muitas folhas. Tinham-me dado razo os
acontecimentos. Ainda porm que ma no dessem, 1814 l ia longe, e, com ele, a
travessura, e o Vilaa, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relaes
estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo essa reflexo e acabei de fechar
o ba.

 Nhonh no vai visitar sinh D.
Eusbia? perguntou-me o Prudncio. Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta
senhora.

Lembrei-me que a vira, entre
outras senhoras, por ocasio da morte e do enterro; ignorava porm que ela
houvesse prestado a minha me esse derradeiro obsquio. A ponderao do moleque
era razovel; eu devia-lhe uma visita; determinei faz-la imediatamente, e
descer.

CAPTULO XXVI / O AUTOR
HESITA

Sbito ouo uma voz:  Ol, meu
rapaz, isto no  vida! Era meu pai, que chegava com duas propostas na
algibeira. Sentei-me no ba e recebi-o sem alvoroo. Ele esteve alguns instantes
de p, a olhar para mim; depois estendeu-me a mo com um gesto comovido:

 Meu filho, conforma-te com a
vontade de Deus.

 J me conformei, foi a minha
resposta, e beijei-lhe a mo.

No tinha almoado; almoamos
juntos. Nenhum de ns aludiu ao triste motivo da minha recluso. Uma s vez
falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na Regncia:
foi ento que aludiu  carta de psames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia
a carta consigo, j bastante amarrotada, talvez por hav-la lido a muitas outras
pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-ma duas vezes.

 J lhe fui agradecer este sinal
de considerao, concluiu meu pai, e acho que deves ir tambm...

 Eu?

 Tu;  um homem notvel, faz hoje
as vezes de imperador. Demais trago comigo uma idia, um projeto, ou... sim,
digo-te tudo; trago dois projetos, um lugar de deputado e um casamento.

Meu pai disse isto com pausa, e
no no mesmo tom, mas dando s palavras um jeito e disposio, cujo fim era
cav-las mais profundamente no meu esprito. A proposta, porm, desdizia tanto
das minhas sensaes ltimas, que eu cheguei a no entend-la bem. Meu pai no
fraqueou e repetiu-a; encareceu o lugar e a noiva.

 Aceitas?

 No entendo de poltica, disse
eu depois de um instante; quanto  noiva... deixe-me viver como um urso, que
sou.

 Mas os ursos casam-se, replicou
ele.

 Pois traga-me uma ursa. Olhe, a
Ursa-Maior...

Riu-se meu pai, e depois de rir,
tornou a falar srio. Era-me necessria a carreira poltica, dizia ele, por
vinte e tantas razes, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com
exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto  noiva, bastava que eu a
visse; se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem demora de um dia.
Experimentou assim a fascinao, depois a persuaso, depois a intimao; eu no
dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de po, a
sorrir ou a refletir; e, para tudo dizer, nem dcil nem rebelde  proposta.
Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa
e uma posio poltica eram bens dignos de apreo; outra dizia que no; e a
morte de minha me me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas, das
afeies, da famlia...

 No vou daqui sem uma resposta
definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as slabas com o
dedo.

Bebeu o ltimo gole de caf;
repoltreou-se, e entrou a falar de tudo, do Senado, da Cmara, da Regncia, da
restaurao, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de
Mata-cavalos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente
num pedao de papel, com uma ponta de lpis; traava uma palavra, uma frase, um
verso, um nariz, um tringulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso,
assim:

arma virumque
cano
A
Arma virumque cano

arma virumque cano

arma virumque

arma virumque cano

virumque

Maquinalmente tudo isto; e, no
obstante, havia certa lgica, certa deduo; por exemplo, foi o virumque
que me fez chegar ao nome do prprio poeta, por causa da primeira slaba; ia a
escrever virumque  e sai-me Virglio, ento continuei:

Vir
Virglio

Virglio
Virglio

Virglio
Virglio

Meu pai, um pouco despeitado com
aquela indiferena, ergueu-se, veio a mim, lanou os olhos ao papel...

 Virglio! exclamou. s tu, meu
rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virglia.

CAPTULO XXVII /
VIRGLIA?

Virglia? Mas ento era a mesma
senhora que alguns anos depois?... A mesma; era justamente a senhora, que em
1869 devia assistir aos meus ltimos dias, e que antes, muito antes, teve larga
parte nas minhas mais ntimas sensaes. Naquele tempo contava apenas uns quinze
ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raa, e, com
certeza, a mais voluntariosa. No digo que ia lhe coubesse a primazia da beleza,
entre as mocinhas do tempo, porque isto no  romance, em que o autor sobredoura
a realidade e fecha os olhos s sardas e espinhas; mas tambm no digo que lhe
maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, no. Era bonita, fresca, saa das
mos da natureza, cheia daquele feitio, precrio e eterno, que o indivduo
passa a outro indivduo, para os fins secretos da criao. Era isto Virglia, e
era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns mpetos
misteriosos; muita preguia e alguma devoo,  devoo, ou talvez medo; creio
que medo.

A tem o leitor, em poucas linhas,
o retrato fsico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida;
era aquilo com dezesseis anos. Tu que me ls, se ainda fores viva, quando estas
pginas vierem  luz,  tu que me ls, Virglia amada, no reparas na diferena
entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Cr que era
to sincero ento como agora; a morte no me tornou rabugento, nem injusto.

 Mas, dirs tu, como  que podes
assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona!
Mas  isso mesmo que nos faz senhores da Terra,  esse poder de restaurar o
passado, para tocar a instabilidade das nossas impresses e a vaidade dos nossos
afetos. Deixa l dizer Pascal que o homem  um canio pensante. No;  uma
errata pensante, isso sim. Cada estao da vida  uma edio, que corrige a
anterior, e que ser corrigida tambm, at a edio definitiva, que o editor d
de graa aos vermes.

CAPTULO XXVIII / CONTANTO
QUE...

 Virglia? interrompi eu.

 Sim, senhor;  o nome da noiva.
Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma moa assim, desta altura,
viva como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...

 Que Dutra?

 O Conselheiro Dutra, no
conheces; uma influncia poltica. Vamos l, aceitas?

No respondi logo; fitei por
alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar
as duas coisas, a candidatura e o casamento, contanto que...

 Contanto qu?

 Contanto que no fique obrigado
a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem
pblico...

 Todo o homem pblico deve ser
casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. Mas seja como queres; estou por
tudo, fico certo de que a vista far f! Demais, a noiva e o Parlamento so a
mesma coisa... isto , no... sabers depois... V; aceito a dilao, contanto
que...

 Contanto qu?... interrompi eu,
imitando-lhe a voz.

 Ah! brejeiro! Contanto que no
te deixes ficar a intil, obscuro, e triste; no gastei dinheiro, cuidados,
empenhos, para te no ver brilhar, como deves, e te convm, e a todos ns; 
preciso continuar o nosso nome, continu-lo e ilustr-lo ainda mais. Olha, estou
com sessenta anos, mas se fosse necessrio comear vida nova, comeava, sem
hesitar um s minuto. Teme a obscuridade, Brs; foge do que  nfimo. Olha que
os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos  valer pela
opinio dos outros homens. No estragues as vantagens da tua posio, os teus
meios...

E foi por diante o mgico, a
agitar diante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar
depressa, e a flor da hipocondria recolheu-se ao boto para deixar a outra flor
menos amarela, e nada mrbida,  o amor da nomeada, o emplasto Brs Cubas.

CAPTULO XXIX / A
VISITA

Vencera meu pai; dispus-me a
aceitar o diploma e o casamento, Virglia e a Cmara dos Deputados.  As duas
Virglias, disse ele num assomo de ternura poltica. Aceitei-os; meu pai deu-me
dois fortes abraos. Era o seu prprio sangue que ele, enfim, reconhecia.

 Desces comigo?

 Deso amanh. Vou fazer
primeiramente uma visita a D. Eusbia...

Meu pai torceu o nariz, mas no
disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D.
Eusbia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir
falar-me, com um alvoroo, um prazer to sincero, que me desacanhou logo. Creio
que chegou a cingir-me com o seu par de braos robustos. Fez-me sentar ao p de
si, na varanda, entre muitas exclamaes de contentamento:

 Ora, o Brasinho! Um homem! Quem
diria, h anos... Um homenzarro! E bonito! Qual! Voc no se lembra de
mim...

Disse-lhe que sim, que no era
possvel esquecer uma amiga to familiar de nossa casa. D. Eusbia comeou a
falar de minha me, com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou
logo, posto me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rdea 
conversao; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim,
os namoros tambm; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do
episdio de 1814, ela, o Vilaa, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a
record-lo, ouo um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

 Mame... mame...

CAPTULO XXX / A FLOR DA
MOITA

A voz a as saias pertenciam a uma
mocinha morena, que se deteve  porta, alguns instantes, ao ver gente estranha.
Silncio curto e constrangido. D. Eusbia quebrou-o, enfim, com resoluo e
franqueza:

 Vem c, Eugnia, disse ela,
cumprimenta o Dr. Brs Cubas, filho do Sr. Cubas; veio da Europa.

E voltando-se para mim:

 Minha filha Eugnia.

Eugnia, a flor da moita, mal
respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e
lentamente se aproximou da cadeira da me. A me arranjou-lhe uma das tranas do
cabelo, cuja ponta se desmanchara.  Ah! travessa! dizia. No imagina, doutor, o
que isto ... E beijou-a com to expansiva ternura que me comoveu um pouco;
lembrou-me minha me, e,  direi tudo,  tive umas ccegas de ser pai.

 Travessa? disse eu. Pois j no
est em idade prpria, ao que parece.

 Quantos lhe d?

 Dezessete.

 Menos um.

 Dezesseis. Pois ento!  uma
moa.

No pde Eugnia encobrir a
satisfao que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como
dantes, ereta, fria e muda. Em verdade, parecia ainda mais mulher do que era;
seria criana nos seus folgares de moa; mas assim quieta, impassvel, tinha a
compostura da mulher casada. Talvez essa circunstncia lhe diminua um pouco da
graa virginal. Depressa nos familiarizamos; a me fazia-lhe grandes elogios, eu
escutava-os de boa sombra, e ela sorria com os olhos flgidos, como se l dentro
do crebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de
diamante...

Digo l dentro, porque c fora o
que esvoaou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e
comeou a bater as asas em derredor de D. Eusbia. D. Eusbia deu um grito,
levantou-se, praguejou umas palavras soltas:  T'esconjuro!... Sai, diabo!...
Virgem Nossa Senhora!...

 No tenha medo, disse eu; e,
tirando o leno, expeli a borboleta. D. Eusbia sentou-se outra vez, ofegante,
um pouco envergonhada; a filha, pode ser que plida de medo, dissimulava a
impresso com muita fora de vontade. Apertei-lhes a mo e sa, a rir comigo da
superstio das duas mulheres, um rir filosfico, desinteressado, superior. De
tarde, vi passar a cavalo a filha de D. Eusbia, seguida de um pajem; fez-me um
cumprimento com a ponta do chicote. Confesso que me lisonjeei com a idia de
que, alguns passos adiante, ela voltaria a cabea para trs; mas no voltou.

CAPTULO XXXI / A BORBOLETA
PRETA

Na dia seguinte, como eu estivesse
a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, to negra como a
outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da vspera, e ri-me; entrei
logo a pensar na filha de D. Eusbia, no susto que tivera, e na dignidade que,
apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaar muito em torno de
mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraa; e, porque eu a
sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu
pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, comeou a
mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de
ombros, sa do quarto; mas tornando l, minutos depois, e achando-a ainda no
mesmo lugar, senti um repelo dos nervos, lancei mo de uma toalha, bati-lhe e
ela caiu.

No caiu morta; ainda torcia o
corpo e movia as farpinhas da cabea. Apiedei-me; tomei-a na palma da mo e fui
dep-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns
segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

 Tambm por que diabo no era ela
azul? disse comigo.

E esta reflexo,  uma das mais
profundas que se tem feito, desde a inveno das borboletas,  me consolou do
malefcio, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o
cadver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela sara do mato, almoada
e feliz. A manh era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as
suas borboletices, sob a vasta cpula de um cu azul, que  sempre azul, para
todas as asas. Passa pela minha janela, entra e d comigo. Suponho que nunca
teria visto um homem; no sabia, portanto, o que era o homem; descreveu
infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos,
braos, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Ento disse consigo: Este
 provavelmente o inventor das borboletas. A idia subjugou-a, aterrou-a; mas o
medo, que  tambm sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu
criador era beij-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim,
foi pousar na vidraa, viu dali o retrato de meu pai, e no  impossvel que
descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das
borboletas, e voou a pedir-lhe misericrdia.

Pois um golpe de toalha rematou a
aventura. No lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa
das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam
como  bom ser superior s borboletas! Porque,  justo diz-lo, se ela fosse
azul, ou cor de laranja, no teria mais segura a vida; no era impossvel que eu
a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. No era. Esta ltima
idia restituiu-me a consolao; uni o dedo grande ao polegar, despedi um
piparote e o cadver caiu no jardim. Era tempo; a vinham j as prvidas
formigas... No, volto  primeira idia; creio que para ela era melhor ter
nascido azul.

CAPTULO XXXII / COXA DE
NASCENA

Fui dali acabar os preparativos da
viagem. J agora no me demoro mais. Deso imediatamente; deso, ainda que algum
leitor circunspecto me detenha para perguntar se o captulo passado  apenas uma
sensaboria ou se chega a empulhao... Ai, no contava com D. Eusbia. Estava
pronto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida,
e ir l jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que
no pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquela compensao; fui.

Eugnia desataviou-se nesse dia
por minha causa. Creio que foi por minha causa,  se  que no andava muita vez
assim. Sem as bichas de ouro, que trazia na vspera, lhe pendiam agora das
orelhas, duas orelhas finamente recortadas numa cabea de ninfa. Um simples
vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um
boto de madreprola, e outro boto nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra
de pulseira.

Era isso no corpo; no era outra
coisa no esprito. Idias claras, maneiras chs, certa graa natural, um ar de
senhora, e no sei se alguma outra coisa; sim, a boca, exatamente a boca da me,
a qual me lembrava o episdio de 1814, e ento dava-me mpetos de glosar o mesmo
mote  filha...

 Agora vou mostrar-lhe a chcara,
disse a me, logo que esgotamos o ltimo gole de caf.

Samos  varanda, dali  chcara,
e foi ento que notei uma circunstncia. Eugnia coxeava um pouco, to pouco,
que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o p. A me calou-se; a filha
respondeu sem titubear:

 No, senhor, sou coxa de
nascena.

Mandei-me a todos os diabos;
chamei-me desastrado, grosseiro. Com efeito, a simples possibilidade de ser
coxa era bastante para lhe no perguntar nada. Ento lembrou-me que da primeira
vez que a vi  na vspera  a moa chegara-se lentamente  cadeira da me, e que
naquele dia j a achei  mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito;
mas por que razo o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.

Tratei de apagar os vestgios de
meu desazo;  no me foi difcil, porque a me era, segundo confessara, uma
velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a chcara,
rvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que
ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os
olhos de Eugnia...

Palavra que o olhar de Eugnia no
era coxo, mas direito, perfeitamente so; vinha de uns olhos pretos e
tranqilos. Creio que duas ou trs vezes baixaram estes, um pouco turvados; mas
duas ou trs vezes somente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade,
nem biocos.

CAPTULO XXXIII /
BEM-AVENTURADOS OS QUE NO DESCEM

O pior  que era coxa. Uns olhos
to lcidos, uma boca to fresca, uma compostura to senhoril; e coxa! Esse
contraste faria suspeitar que a natureza  s vezes um imenso escrnio. Por que
bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha
fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a soluo do
enigma. O melhor que h, quando se no resolve um enigma,  sacudi-lo pela
janela fora; foi o que eu fiz; lancei mo de uma toalha e enxotei essa outra
borboleta preta, que me adejava no crebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o
sonho, que  uma fresta do esprito, deixou novamente entrar o bichinho, e a
fiquei eu a noite toda a cavar o mistrio, sem explic-lo.

Amanheceu chovendo, transferi a
descida; mas no outro dia, a manh era lmpida e azul, e apesar disso deixei-me
ficar, no menos que no terceiro dia, e no quarto, at o fim da semana. Manhs
bonitas, frescas, convidativas; l embaixo a famlia a chamar-me, e a noiva, e o
Parlamento, e eu sem acudir a coisa nenhuma, enlevado ao p da minha Vnus
Manca. Enlevado  uma maneira de realar o estilo; no havia enlevo, mas gosto,
uma certa satisfao fsica e moral. Queria-lhe,  verdade; ao p dessa criatura
to singela, filha espria e coxa, feita de amor e desprezo, ao p dela
sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia melhor ao p de mim. E isto na
Tijuca. Uma simples gloga. D. Eusbia vigiava-nos, mas pouco; temperava a
necessidade com a convenincia. A filha, nessa primeira exploso da natureza,
entregava-me a alma em flor.

 O senhor desce amanh? disse-me
ela no sbado.

 Pretendo.

 No desa.

No desci, e acrescentei um
versculo ao Evangelho:  Bem-aventurados os que no descem, porque deles  o
primeiro beijo das moas. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de
Eugnia,  o primeiro que nenhum outro varo jamais lhe tomara, e no furtado ou
arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dvida.
Pobre Eugnia! Se tu soubesses que idias me vagavam pela mente fora naquela
ocasio! Tu, trmula de comoo, com os braos nos meus ombros, a contemplar em
mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos de 1814, na moita, no Vilaa, e a
suspeitar que no podias mentir ao teu sangue,  tua origem...

D. Eusbia entrou inesperadamente,
mas no to sbita, que nos apanhasse ao p um do outro. Eu fui at  janela;
Eugnia sentou-se a concertar uma das tranas. Que dissimulao graciosa! que
arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, no
estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! D. Eusbia
no suspeitou nada.

CAPTULO XXXIV / A UMA ALMA
SENSVEL

H a, entre as cinco ou dez
pessoas que me lem, h a uma alma sensvel, que est decerto um tanto agastada
com o captulo anterior, comea a tremer pela sorte de Eugnia, e talvez... sim,
talvez, l no fundo de si mesma, me chame cnico. Eu cnico, alma sensvel? Pela
coxa de Diana! esta injria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse
alguma coisa nesse mundo. No, alma sensvel, eu no sou cnico, eu fui homem;
meu crebro foi um tablado em que se deram peas de todo gnero, o drama sacro,
o austero, o piegas, a comdia lou, a desgrenhada farsa, os autos, as
bufonerias, um pandemnio, alma sensvel, uma barafunda de coisas e pessoas, em
que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna at a arruda do teu quintal, desde
o magnfico leito de Clepatra at o recanto da praia em que o mendigo tirita o
seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vria casta e feio. No havia ali a
atmosfera somente da guia e do beija-flor; havia tambm a da lesma e do sapo.
Retira, pois, a expresso, alma sensvel, castiga os nervos, limpa os culos, 
que isso s vezes  dos culos,  e acabemos de uma vez com esta flor da moita.

CAPTULO XXXV / O CAMINHO DE
DAMASCO

Ora aconteceu, que, oito dias
depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me
sussurrou as palavras da Escritura (At. IX, 7): Levanta-te, e entra na
cidade. Essa voz saa de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me
desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e
despos-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, no h
duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma
segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manh viria para baixo.  Adeus,
suspirou ela estendendo-me a mo com simplicidade; faz bem.  E como eu nada
dissesse, continuou:  Faz bem em fugir ao ridculo de casar comigo. Ia
dizer-lhe que no; ela retirou-se lentamente, engolindo as lgrimas. Alcancei-a
a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do Cu que eu era obrigado a
descer, mas que no deixava de lhe querer e muito; tudo hiprboles frias, que
ela escutou sem dizer nada.

 Acredita-me? perguntei eu no
fim.

 No, e digo-lhe que faz bem.

Quis ret-la, mas o olhar que me
lanou no foi j de splica, seno de imprio. Desci da Tijuca, na manh
seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo
que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraar a carreira
poltica... que a constituio... que a minha noiva... que o meu cavalo...

CAPTULO XXXVI / A PROPSITO DE
BOTAS

Meu pai, que me no esperava,
abraou-me cheio de ternura e agradecimento.  Agora  deveras? disse ele. Posso
enfim...?

Deixei-o nessa reticncia, e fui
descalar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei  larga, e
deitei-me a fio comprido, enquanto os ps, e todo eu atrs deles, entrvamos
numa relativa bem-aventurana. Ento considerei que as botas apertadas so uma
das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os ps, do azo ao prazer de
as descalar. Mortifica os ps, desgraado, desmortifica-os depois, e a tens a
felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta idia me
trabalhava no famoso trapzio, lanava eu os olhos para a Tijuca, e via a
aleijadinha perder-se no horizonte do pretrito, e sentia que o meu corao no
tardaria tambm a descalar as suas botas. E descalou-as o lascivo. Quatro ou
cinco dias depois, saboreava esse rpido, inefvel e incoercvel momento de
gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupao, a um incmodo... Daqui
inferi eu que a vida  o mais engenhoso dos fenmenos, porque s agua a fome,
com o fim de deparar a ocasio de comer, e no inventou os calos, seno porque
eles aperfeioam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a
sabedoria humana no vale um par de botas curtas.

Tu, minha Eugnia,  que no as
descalaste nunca; foste a pela estrada da vida, manquejando da perna e do
amor, triste como os enterros pobres, solitria, calada, laboriosa, at que
vieste tambm para esta outra margem... O que eu no sei  se a tua existncia
era muito necessria ao sculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse
patear a tragdia humana.

CAPTULO XXXVII /
ENFIM!

Enfim! eis aqui Virglia. Antes de
ir  casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum ajuste prvio
de casamento.

 Nenhum ajuste. H tempos,
conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver
deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio que
o far. Quanto  noiva,  o nome que dou a uma criaturinha, que  uma jia, uma
flor, uma estrela, uma coisa rara...  a filha dele; imaginei que, se casasses
com ela, mais depressa serias deputado.

 S isto?

 S isto.

Fomos dali  casa do Dutra. Era
uma prola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males
pblicos, mas no desesperando de os curar depressa. Achou que a minha
candidatura era legtima; convinha, porm, esperar alguns meses. E logo me
apresentou  mulher,  uma estimvel senhora,  e  filha, que no desmentiu em
nada o panegrico de meu pai. Juro-vos que em nada. Relede o captulo XXVII. Eu,
que levava idias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que no sei
se as tinha, no me fitou de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e
simplesmente conjugal. No fim de um ms estvamos ntimos.

CAPTULO XXXVIII / A QUARTA
EDIO

 Venha c jantar amanh, disse-me
o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia
seguinte, mandei que a sege me esperasse no Largo de So Francisco de Paula, e
fui dar vrias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das edies humanas? Pois
sabei que, naquele tempo, estava eu na quarta edio, revista e emendada, mas
ainda inada de descuidos e barbarismos; defeito que, alis, achava alguma
compensao no tipo, que era elegante, e na encadernao, que era luxuosa. Dadas
as voltas, ao passar pela Rua dos Ourives, consulto o relgio e cai-me o vidro
na calada. Entro na primeira loja que tinha  mo; era um cubculo,  pouco
mais,  empoeirado e escuro.

Ao fundo, por trs do balco,
estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento no se destacava
logo,  primeira vista; mas logo que se destacava era um espetculo curioso. No
podia ter sido feia; ao contrrio, via-se que fora bonita, e no pouco bonita;
mas a doena e uma velhice precoce, destruam-lhe a flor das graas. As bexigas
tinham sido terrveis; os sinais, grandes e muitos, faziam salincias e
encarnas, declives e aclives, e davam uma sensao de lixa grossa, enormemente
grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e alis tinham uma expresso
singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar.
Quanto ao cabelo, estava ruo e quase to poento como os portais da loja. Num
dos dedos da mo esquerda fulgia-lhe um diamante. Cr-lo-eis, psteros? essa
mulher era Marcela.

No a conheci logo; era difcil;
ela porm conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram
a expresso usual por outra, meio doce e meio triste. Vi-lhe um movimento como
para esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que no durou mais de um
instante. Marcela acomodou-se e sorriu.

 Quer comprar alguma coisa? disse
ela estendendo-me a mo.

No respondi nada. Marcela
compreendeu a causa do meu silncio (no era difcil), e s hesitou, creio eu,
em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memria do
passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balco permeio, falou-me longamente de si,
da vida que levara, das lgrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos
desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que
ajudou a molstia, adiantando-lhe a decadncia. Verdade  que tinha a alma
decrpita. Vendera tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu
nos braos, deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas, para que a desgraa
fosse completa, era agora pouco buscada a loja  talvez pela singularidade de a
dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei
pouco tempo em dizer-lha; no era longa, nem interessante.

 Casou? disse Marcela no fim de
minha narrao.

 Ainda no, respondi secamente.

Marcela lanou os olhos para a
rua, com a atonia de quem reflete ou relembra; eu deixei-me ir ento ao passado,
e, no meio das recordaes e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo
fizera tanto desatino. No era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza
de outro tempo valia uma tera parte dos meus sacrifcios? Era o que eu buscava
saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me que no; ao mesmo tempo
os olhos me contavam que, j outrora, como hoje, ardia neles a flama da cobia.
Os meus  que no souberam ver-lha; eram olhos da primeira edio.

 Mas por que entrou aqui? viu-me
da rua? perguntou ela, saindo daquela espcie de torpor.

 No, supunha entrar numa casa de
relojoeiro; queria comprar um vidro para este relgio; vou a outra parte;
desculpe-me; tenho pressa.

Marcela suspirou com tristeza. A
verdade  que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e ansiava por
me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o
relgio, e, apesar da minha oposio, mandou-o, a uma loja na vizinhana,
comprar o vidro. No havia remdio; sentei-me outra vez. Disse ela ento que
desejava ter a proteo dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde
ou mais cedo era natural que me casasse, e afianou que me daria finas jias por
preos baratos. No disse preos baratos, mas usou uma metfora delicada
e transparente. Entrei a desconfiar que no padecera nenhum desastre (salvo a
molstia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o nico fim de
acudir  paixo do lucro, que era o verme roedor daquela existncia; foi isso
mesmo que me disseram depois.

CAPTULO XXXIX / O
VIZINHO

Enquanto eu fazia comigo mesmo
aquela reflexo, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapu, trazendo pela mo
uma menina de quatro anos.

 Como passou de hoje de manh?
disse ele a Marcela.

 Assim, assim. Vem c, Maricota.

O sujeito levantou a criana pelos
braos e passou-a para dentro do balco.

 Anda, disse ele; pergunta a D.
Marcela como passou a noite. Estava ansiosa por vir c, mas a me no tinha
podido vesti-la.., Ento, Maricota? Toma a bno... Olha a vara de marmelo!
Assim... No imagina o que ela  l em casa; fala na senhora a todos os
instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda ontem... Digo, Maricota?

 No, diga, no, papai.

 Ento foi alguma coisa feia?
perguntou Marcela batendo na cara da menina.

 Eu lhe digo; a me ensina-lhe a
rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos a Nossa
Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde... imagine o
qu?... que queria oferec-los a Santa Marcela.

 Coitadinha! disse Marcela
beijando-a.

  um namoro, uma paixo, como a
senhora no imagina... A me diz que  feitio...

Contou mais algumas coisas o
sujeito, todas muito agradveis, at que saiu levando a menina, no sem
deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era
ele.

  um relojoeiro da vizinhana,
um bom homem; a mulher tambm; e a filha  galante, no? Parecem gostar muito de
mim...  boa gente.

Ao proferir estas palavras havia
um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma
onda de ventura...

CAPTULO XL / NA
SEGE

Nisto entrou o moleque trazendo o
relgio com o vidro novo. Era tempo; j me custava estar ali; dei uma moedinha
de prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra ocasio, e sa a passo
largo. Para dizer tudo, devo confessar que o corao me batia um pouco; mas era
uma espcie de dobre de finados. O esprito ia travado de impresses opostas.
Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almoo, repetiu-me,
por antecipao, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Cmara dos
Deputados; rimo-nos muito, e o sol tambm, que estava brilhante, como nos mais
belos dias do mundo; do mesmo modo que Virglia devia rir, quando eu lhe
contasse as nossas fantasias do almoo. Vai seno quando, cai-me o vidro do
relgio; entro na primeira loja que me fica  mo; e eis me surge o passado,
ei-lo que me lacera e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto cortado de
saudades e bexigas...

L o deixei; meti-me s pressas na
sege, que me esperava no Largo de So Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro
que rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiou as bestas, a sege entrou a
sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara
a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. No h, s vezes, um certo
vento morno, no forte nem spero, mas abafadio, que nos no leva o chapu da
cabea, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia  ou parece ser pior do
que se fizesse uma e outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os
espritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me soprava por
achar-me naquela espcie de garganta entre o passado e o presente, almejava por
sair  plancie do futuro. O pior  que a sege no andava.

 Joo, bradei eu ao boleeiro.
Esta sege anda ou no anda?

 U! nhonh! J estamos parados
na porta de sinh conselheiro.

CAPTULO XLI / A
ALUCINAO

Era verdade. Entrei apressado;
achei Virglia ansiosa, mau humor, fronte nublada. A me, que era surda, estava
na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moa com sequido:

 Espervamos que viesse mais
cedo.

Defendi-me do melhor modo; falei
do cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a
voz nos lbios, fico tolhido de assombro. Virglia... seria Virglia aquela
moa? Fitei-a muito, e a sensao foi to penosa, que recuei um passo e desviei
a vista. Tornei a olh-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda
na vspera to fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo
mesmo flagelo, que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos,
fizeram-se murchos; tinha o lbio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem;
peguei-lhe na mo, e chamei-a brandamente a mim. No me enganava; eram as
bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.

Virglia afastou-se, e foi
sentar-se no sof. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus prprios ps.
Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo,
e encaminhei-me para Virglia, que l estava sentada e calada. Cus! Era outra
vez a fresca, a juvenil, a florida Virglia. Em vo procurei no rosto dela algum
vestgio da doena; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.

 Nunca me viu? perguntou
Virglia, vendo que a encarava com insistncia.

 To bonita, nunca.

Sentei-me, enquanto Virglia,
calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Falei-lhe
de coisas estranhas ao incidente; ela porm no me respondia nada, nem olhava
para mim. Menos o estalido, era a esttua do Silncio. Uma s vez me deitou os
olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do lbio, contraindo as
sobrancelhas, ao ponto de as unir; todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao
rosto uma expresso mdia, entre cmica e trgica.

Havia alguma afetao naquele
desdm; era um arrebique do gesto. L dentro, ela padecia, e no pouco,  ou
fosse mgoa pura, ou s despeito; e porque a dor que se dissimula di mais, 
muito provvel que Virglia padecesse em dobro do que realmente devia padecer.
Creio que isto  metafsica.

CAPTULO XLII / QUE ESCAPOU A
ARISTTELES

Outra coisa que tambm me parece
metafsica  isto:  D-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta,
encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a
primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela,   uma
simples suposio; a segunda, Brs Cubas; a terceira, Virglia. Temos que
Marcela, recebendo um piparote do passado rolou at tocar em Brs Cubas,  o
qual, cedendo  fora impulsiva, entrou a rolar tambm at esbarrar em Virglia,
que no tinha nada com a primeira bola; e eis a como, pela simples transmisso
de uma fora, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que
poderemos chamar  solidariedade do aborrecimento humano. Como  que este
captulo escapou a Aristteles?

CAPTULO XLIII / MARQUESA,
PORQUE EU SEREI MARQUS

 Positivamente, era um diabrete
Virglia, um diabrete anglico, se querem, mas era-o, e ento...

Ento apareceu o Lobo Neves, um
homem que no era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem
mais simptico, e todavia foi quem me arrebatou Virglia e a candidatura, dentro
de poucas semanas, com um mpeto verdadeiramente cesariano. No precedeu nenhum
despeito; no houve a menor violncia de famlia. Dutra veio dizer-me, um dia,
que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por
grandes influncias. Cedi; tal foi o comeo da minha derrota. Uma semana depois,
Virglia perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.

 Pela minha vontade, j; pelas
dos outros, daqui a um ano.

Virglia replicou:

 Promete que algum dia me far
baronesa?

 Marquesa, porque eu serei
marqus.

Desde ento fiquei perdido.
Virglia comparou a guia e o pavo, e elegeu a guia, deixando o pavo com o
seu espanto, o seu despeito, e trs ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco
beijos; mas dez que fossem no queria dizer coisa nenhuma. O lbio do homem no
 como a pata do cavalo de tila, que esterilizava o solo em que batia; 
justamente o contrrio.

CAPTULO XLIV / UM
CUBAS!

Meu pai ficou atnito com o
desenlace, e quer-me parecer que no morreu de outra coisa. Eram tantos os
castelos que engenhara, tantos e tantssimos os sonhos, que no podia v-los
assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princpio no quis
cr-lo. Um Cubas! um galho da rvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal
convico, que eu, j ento informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a
volvel dama, para s contemplar aquele fenmeno, no raro, mas curioso: uma
imaginao graduada em conscincia.

 Um Cubas! repetia-me ele na
seguinte manh, ao almoo.

No foi alegre o almoo; eu
prprio estava a cair de sono. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era
impossvel; no se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar
aquela, tempos depois, no lhe estava agora preso por nenhum outro vnculo, alm
de uma fantasia passageira, alguma obedincia e muita fatuidade. E isto basta a
explicar a viglia; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete,
o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, at romper a aurora,
a mais tranqila das auroras.

Mas eu era moo, tinha o remdio
em mim mesmo. Meu pai  que no pde suportar facilmente a pancada. Pensando
bem, pode ser que no morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe
complicou as ltimas dores,  positivo. Morreu da a quatro meses, 
acabrunhado, triste, com uma preocupao intensa e contnua,  semelhana de
remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve
ainda meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, 
lembra-me bem,  vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma
concentrao de 1uz, que era, por assim dizer, o ltimo lampejo da alma
expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em
algum lugar alto, como alis me cabia.

 Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da
visita do ministro, uma manh de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais
o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a cincia dos mdicos,
nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de
morrer, morreu.

 Um Cubas!

CAPTULO XLV /
NOTAS

Soluos, lgrimas, casa armada,
veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadver, outro que tomou a
medida do caixo, caixo, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam,
lentamente, a passo surdo, e apertavam a mo  famlia, alguns tristes, todos
srios e calados, padre e sacristo, rezas, asperses dgua benta, o fechar do
caixo, a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o
descem a custo pela escada, no obstante os gritos, soluos e novas lgrimas da
famlia, e vo at o coche fnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam
as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um
simples inventrio, eram notas que eu havia tomado para um captulo triste e
vulgar que no escrevo.

CAPTULO XLVI / A
HERANA

Veja-nos agora o leitor, oito dias
depois da morte de meu pai,  minha irm sentada num sof,  pouco adiante,
Cotrim, de p, encostado a um consolo, com os braos cruzados e a morder o
bigode,  eu a passear de um lado para outro, com os olhos no cho. Luto pesado.
Profundo silncio.

 Mas afinal, disse Cotrim; esta
casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...

 Vale cinqenta, ponderei; Sabina
sabe que custou cinqenta e oito...

 Podia custar at sessenta,
tornou Cotrim; mas no se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje.
Voc sabe que as casas, aqui h anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os
cinqenta contos, quantos no vale a que voc deseja para si, a do Campo?

 No fale nisso! Uma casa velha.

 Velha! exclamou Sabina,
levantando as mos ao teto.

 Parece-lhe nova, aposto?

 Ora, mano, deixe-se dessas
coisas, disse Sabina, erguendo-se do sof; podemos arranjar tudo em boa amizade,
e com lisura. Por exemplo, Cotrim no aceita os pretos, quer s o boleeiro de
papai e o Paulo...

 O boleeiro no, acudi eu; fico
com a sege e no hei de ir comprar outro.

 Bem; fico com o Paulo e o
Prudncio.

 O Prudncio est livre.

 Livre?

 H dois anos.

 Livre? Como seu pai arranjava
estas coisas c por casa, sem dar parte a ningum! Est direito. Quanto 
prata... creio que no libertou a prata?

Tnhamos falado na prata, a velha
prataria do tempo de D. Jos I, a poro mais grave da herana, j pelo lavor,
j pela vetustez, j pela origem da propriedade; dizia meu pai que o Conde da
Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisav Lus Cubas.

 Quanto  prata, continuou
Cotrim, eu no faria questo nenhuma, se no fosse o desejo que sua irm tem de
ficar com ela; e acho-lhe razo. Sabina  casada, e precisa de uma copa digna,
apresentvel. Voc  solteiro, no recebe, no...

 Mas posso casar.

 Para qu? interrompeu Sabina.

Era to sublime esta pergunta, que
por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mo de
Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com to boa sombra, que o Cotrim
interpretou o gesto como de aquiescncia, e agradeceu-mo.

 Que  l? redargi; no cedi
coisa nenhuma, nem cedo.

 Nem cede?

Abanei a cabea.

 Deixa, Cotrim, disse minha irm
ao marido; v se ele quer ficar tambm com a nossa roupa do corpo;  s o que
falta.

 No falta mais nada. Quer a
sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe,  muito mais sumrio
citar-nos a juzo e provar com testemunhas que Sabina no  sua irm, que eu no
sou seu cunhado e que Deus no  Deus. Faa isto, e no perde nada, nem uma
colherinha. Ora, meu amigo, outro ofcio!

Estava to agastado, e eu no
menos, que entendi oferecer um meio de conciliao; dividir a prata. Riu-se e
perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o aucareiro; e depois desta
pergunta, declarou que teramos tempo de liquidar a pretenso, quando menos em
juzo. Entretanto, Sabina fora at  janela que dava para a chcara,  e depois
de um instante, voltou, e props ceder o Paulo e outro preto, com a condio de
ficar com a prata; eu ia dizer que no me convinha, mas Cotrim adiantou-se e
disse a mesma coisa.

 Isso nunca! no fao esmolas!
disse ele.

Jantamos tristes. Meu tio cnego
apareceu  sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercao.

 Meus filhos, disse ele,
lembrem-se que meu irmo deixou um po bem grande para ser repartido por todos.

Mas Cotrim:

 Creio, creio. A questo, porm,
no  de po,  de manteiga. Po seco  que eu no engulo.

Fizeram-se finalmente as
partilhas, mas ns estvamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me
muito a brigar com Sabina. ramos to amigos! Jogos pueris, frias de criana,
risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse po da alegria e da
misria, irmmente, como bons irmos que ramos. Mas estvamos brigados. Tal
qual a beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.

CAPTULO XLVII / O
RECLUSO

Marcela, Sabina, Virglia... a
estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas no fossem
mais do que modos de ser da minha afeio interior. Pena de maus costumes, ata
uma gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos srdido; e depois sim, depois
vem comigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte
dos anos que decorreram desde o inventrio de meu pai at 1842. Vem; se te
cheirar a algum aroma de toucador, no cuides que o mandei derramar para meu
regalo;  um vestgio da N. ou da Z. ou da U.  que todas essas letras
maisculas embalaram a a sua elegante abjeo. Mas, se alm do aroma, quiseres
outra coisa, fica-te com o desejo, porque eu no guardei retratos, nem cartas,
nem memrias, a mesma comoo esvaiu-se, e s me ficaram as letras iniciais.

Vivi meio recluso, indo de longe
em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do tempo
passei-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e
dos dias, ora bulioso, ora aptico, entre a ambio e o desnimo. Escrevia
poltica e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas pblicas, e
cheguei a alcanar certa reputao de polemista e de poeta. Quando me lembrava
do Lobo Neves, que era j deputado, e de Virglia, futura marquesa, perguntava a
mim mesmo por que no seria melhor deputado e melhor marqus do que o Lobo
Neves,  eu, que valia mais, muito mais do que ele,  e dizia isto a olhar para
a ponta do nariz...

CAPTULO XLVIII / UM PRIMO DE
VIRGLIA

 Sabe quem chegou ontem de So
Paulo? perguntou-me uma noite Lus Dutra.

Lus Dutra era um primo de
Virglia, que tambm privava com as musas. Os versos dele agradavam e valiam
mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sano de alguns, que lhe
confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse acanhado, no interrogava a
ningum; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreo; ento criava novas
foras e arremetia juvenilmente ao trabalho.

Pobre Lus Dutra! Apenas publicava
alguma coisa, corria  minha casa, e entrava a girar em volta de mim,  espreita
de um juzo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produo,
e eu falava-lhe de mil coisas diferentes,  do ltimo baile do Catete, da
discusso das cmaras, de berlindas e cavalos,  de tudo, menos dos seus versos
ou prosas. Ele respondia-me, a princpio com animao, depois mais frouxo,
torcia a rdea da conversa para o seu assunto dele, abria um livro,
perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que no,
mas torcia a rdea para o outro lado, e l ia ele atrs de mim, at que empacava
de todo e saa triste. Minha inteno era faz-lo duvidar de si mesmo,
desanim-lo, elimin-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...

CAPTULO XLIX / A PONTA DO
NARIZ

Nariz, conscincia sem remorsos,
tu me valeste muito na vida... J meditaste alguma vez no destino do nariz,
amado leitor? A explicao do Doutor Pangloss  que o nariz foi criado para uso
dos culos,  e tal explicao confesso que at certo tempo me pareceu
definitiva; mas veio um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos
obscuros de filosofia, atinei com a nica, verdadeira e definitiva explicao.

Com efeito, bastou-me atentar no
costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a
ponta do nariz, com o fim nico de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos
na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no
invisvel, aprende o impalpvel, desvincula-se da terra, dissolve-se,
eteriza-se. Essa sublimao do ser pela ponta do nariz  o fenmeno mais excelso
do esprito, e a faculdade de a obter no pertence ao faquir somente: 
universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu prprio nariz,
para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplao, cujo efeito  a
subordinao do universo a um nariz somente, constitui o equilbrio das
sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o
gnero humano no chegaria a durar dois sculos: extinguia-se com as primeiras
tribos.

Ouo daqui uma objeo do leitor:
 Como pode ser assim, diz ele se nunca jamais ningum no viu estarem os homens
a contemplar o seu prprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que
nunca entraste no crebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de
chapus;  a loja de um rival, que a abriu h dois anos; tinha ento duas
portas, hoje tem quatro; promete ter seis a oito. Nas vidraas ostentam-se os
chapus do rival; pelas portas entram os fregueses do rival; o chapeleiro
compara aquela loja com a sua, que  mais antiga e tem s duas portas, e aqueles
chapus com os seus, menos buscados, ainda que de igual preo. Mortifica-se
naturalmente; mas vai andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a
frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu prprio atraso,
quando ele chapeleiro  muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro...
Nesse instante  que os olhos se fixam na ponta do nariz.

A concluso, portanto,  que h
duas foras capitais: o amor, que multiplica a espcie, e o nariz, que a
subordina ao indivduo. Procriao, equilbrio.

CAPTULO L / VIRGLIA
CASADA

 Quem chegou de So Paulo foi
minha prima Virglia, casada com o Lobo Neves, continuou Lus Dutra.

 Ah!

 E s hoje  que eu soube uma
coisa, seu magano...

 Que foi?

 Que voc quis casar com ela.

 Idias de meu pai. Quem lhe
disse isso?

 Ela mesma. Falei-lhe muito em
voc, e ela ento contou-me tudo.

No dia seguinte, estando na Rua do
Ouvidor,  porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a distncia, uma mulher
esplndida. Era ela; s a reconheci a poucos passos, to outra estava, a tal
ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o ltimo apuro. Cortejamo-nos; ela
seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; fiquei
atnito.

Oito dias depois, encontrei-a num
baile; creio que chegamos a trocar duas ou trs palavras. Mas noutro baile, dado
da a um ms, em casa de uma senhora, que ornara os sales do primeiro reinado,
e no desornava ento os do segundo, a aproximao foi maior e mais longa,
porque conversamos e valsamos. A valsa  uma deliciosa coisa. Valsamos; no nego
que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexvel e magnfico, tive uma
singular sensao, uma sensao de homem roubado.

 Est muito calor, disse ela,
logo que acabamos. Vamos ao terrao?

 No; pode constipar-se. Vamos a
outra sala.

Na outra sala estava Lobo Neves,
que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos polticos,
acrescentando que nada dizia dos literrios por no entender deles; mas os
polticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais
esmeros de cortesia, e separamo-nos contentes um do outro.

Cerca de trs semanas depois
recebi um convite dele para uma reunio ntima. Fui; Virglia recebeu-me com
esta graciosa palavra:  O senhor hoje h de valsar comigo.  Em verdade, eu
tinha fama e era valsista emrito; no admira que ela me preferisse. Valsamos
uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; c foi a valsa que nos
perdeu. Creio que essa noite apertei-lhe a mo com muita fora, e ela deixou-a
ficar, como esquecida, e eu a abra-la, e todos com os olhos em ns, e nos
outros que tambm se abraavam e giravam... Um delrio.

CAPTULO LI / 
MINHA!

  minha! disse eu comigo, logo
que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite,
foi-se-me a idia entranhando no esprito, no  fora de martelo, mas de
verruma, que  mais insinuativa.

  minha! dizia eu ao chegar 
porta de casa.

Mas a, como se o destino ou o
acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus
arroubos possessrios, luziu-me no cho uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me;
era uma moeda de ouro, uma meia dobra.

  minha! repeti eu a rir-me, e
meti-a no bolso.

Nessa noite no pensei mais na
moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repeles da
conscincia, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que
eu no herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente no era
minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre,
algum operrio que no teria com que dar de comer  mulher e aos filhos; mas se
fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor
meio, o nico meio, era faz-lo por intermdio de um anncio ou da polcia.
Enviei uma carta ao chefe de polcia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que,
pelos meios a seu alcance, fizesse devolv-lo s mos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei
tranqilo, posso at dizer que jubiloso. Minha conscincia valsara tanto na
vspera, que chegou a ficar sufocada, sem respirao; mas a restituio da meia
dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de
ar puro, e a pobre dama respirou  larga. Ventilai as conscincias! no vos digo
mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstncias, o meu ato era
bonito, porque exprimia um justo escrpulo, um sentimento de alma delicada. Era
o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; 
o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.

 Fizeste bem, Cubas; andaste
perfeitamente. Este ar no  s puro,  balsmico,  uma transpirao dos
eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?

E a boa dama sacou um espelho e
abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da vspera,
redonda, brilhante, multiplicando-se por si mesma,  ser dez  depois trinta 
depois quinhentas,  exprimindo assim o benefcio que me daria na vida e na
morte o simples ato da restituio. E eu espraiava todo o meu ser na
contemplao daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma
simples moeda, hem? Vejam o que  ter valsado um poucochinho mais.

Assim eu, Brs Cubas, descobri uma
lei sublime, a lei da equivalncia das janelas, e estabeleci que o modo de
compensar uma janela fechada  abrir outra, a fim de que a moral possa arejar
continuamente a conscincia. Talvez no entendas o que a fica; talvez queiras
uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois
toma l o embrulho misterioso.

CAPTULO LII / O EMBRULHO
MISTERIOSO

Foi o caso que, alguns dias
depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. No digo
bem; houve menos tropeo que pontap. Vendo um embrulho, po grande, mas limpo
e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma coisa que parecia alguma
coisa, lembrou-me bater-lhe com o p, assim por experincia, e bati, e o
embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta;
ao longe uns meninos brincavam,  um pescador curava as redes ainda mais longe,
 ningum que pudesse ver a minha ao; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas no sem receio. Podia
ser uma pulha de rapazes. Tive idia de devolver o achado  praia, mas apalpei-o
e rejeitei a idia. Um pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.

 Vejamos, disse eu ao entrar no
gabinete.

E hesitei um instante, creio que
por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha.  certo que no havia ali
nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que
havia de assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo,
se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma dzia de lenos velhos ou duas
dzias de goiabas podres. Era tarde; a curiosidade estava aguada, como deve
estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada
menos de cinco contos de ris. Nada menos. Talvez uns dez mil-ris mais. Cinco
contos em boas notas e moedas, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro.
Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro
com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclu que
no. Sobre o jantar fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos
meus cuidados maternais a respeito de cinco contos,  eu, que era abastado.

Para no pensar mais naquilo fui
de noite  casa do Lobo Neves, que instara muito comigo no deixasse de
freqentar as recepes da mulher. L encontrei o chefe de polcia; fui-lhe
apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera
alguns dias antes. Aventou o caso; Virglia pareceu saborear o meu procedimento,
e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota anloga, que eu ouvi com
impacincia de mulher histrica.

De noite, no dia seguinte, em toda
aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e at confesso que os
deixei muito quietinhos na gaveta da secretria. Gostava de falar de todas as
coisas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia no era
crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da
Providncia. No podia ser outra coisa. No se perdem cinco contos, como se
perde um leno de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos,
apalpam-se a mido, no se lhes tiram os olhos de cima, nem as mos, nem o
pensamento, e para se perderem assim tolamente, numa praia,  necessrio que...
Crime  que no podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que
embaciasse o carter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte
grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e at direi
que a minha felicidade era merecida, porque eu no me sentia mau, nem indigno
dos benefcios da Providncia.

 Estes cinco contos, dizia eu
comigo, trs semanas depois, hei de empreg-los em alguma ao boa, talvez um
dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco
do Brasil. L me receberam com muitas e delicadas aluses ao caso da meia dobra,
cuja notcia andava j espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi
enfadado que a coisa no valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me ento a
modstia,  e porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente
grande.

CAPTULO LIII / . . . .
.

Virglia  que j se no lembrava
da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha
vida, no meu pensamento;  era o que dizia, e era verdade.

H umas plantas que nascem e
crescem depressa; outras so tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou
com tal mpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e
exuberante criatura dos bosques. No lhes poderei dizer, ao certo, os dias que
durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor,
ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trmula, 
coitadinha,  trmula de medo, porque era ao porto da chcara. Uniu-nos esse
beijo nico,  breve como a ocasio, ardente como o amor, prlogo de uma vida de
delcias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de
aflies que desabrochavam em alegria,  uma hipocrisia paciente e sistemtica,
nico freio de uma paixo sem freio,  vida de agitaes, de cleras, de
desesperos e de cimes, que uma hora pagava  farta e de sobra; mas outra hora
vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar  tona as agitaes e o
resto, e o resto do resto, que  o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele
prlogo.

CAPTULO LIV / A
PNDULA

Sa dali a saborear o beijo. No
pude dormir; estirei-me na cama,  certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as
horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pndula
fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a
cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava ento um velho
diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da
vida para d-las  morte, e a cont-las assim:

 Outra de menos...

 Outra de menos...

 Outra de menos...

 Outra de menos...

O mais singular  que, se o
relgio parava, eu dava-lhe corda, para que ele no deixasse de bater nunca, e
eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenes h, que se
transformam ou acabam; as mesmas instituies morrem; o relgio  definitivo e
perptuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, h de ter um
relgio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.

Naquela noite no padeci essa
triste sensao de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me
c dentro, vinham umas sobre outras,  semelhana de devotas que se abalroam
para ver o anjo-cantor das procisses. No ouvia os instantes perdidos, mas os
minutos ganhados. De certo tempo em diante no ouvi coisa nenhuma, porque o meu
pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na
direo da casa de Virglia. A achou no peitoril de uma janela o pensamento de
Virglia, saudaram-se e ficaram de palestra. Ns a rolarmos na cama, talvez com
frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho
dilogo de Ado e Eva.

CAPTULO LV / O VELHO DILOGO
DE ADO E EVA

BRS
CUBAS................................?

VIRGLIA...............................

BRS
CUBAS................................................................................................

........................................................

VIRGLIA..........................................!

BRS
CUBAS.................................

VIRGLIA..........................................................................................................................................................?
..................................................

.......................................................

BRS
CUBAS.................................

VIRGLIA...............................................

BRS
CUBAS..............................................................................................

.............................
..........!..............................!...........................!

VIRGLIA....................................................?

BRS
CUBAS..............................................!

VIRGLIA...................................................!

CAPTULO LVI / O MOMENTO
OPORTUNO

Mas, com a breca! quem me
explicar a razo desta diferena? Um dia vimo-nos, tratamos o casamento,
desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque no houvera paixo nenhuma;
mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a v-la, damos
trs ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delrio. A
beleza de Virglia chegara,  certo, a um alto grau de apuro, mas ns ramos
substancialmente os mesmos, e eu,  minha parte, no me tornara mais bonito nem
mais elegante. Quem me explicar a razo dessa diferena?

A razo no podia ser outra seno
o momento oportuno. No era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de
ns estava verde para o amor, ambos o estvamos para o nosso amor:
distino fundamental. No h amor possvel sem a oportunidade dos sujeitos.
Esta explicao achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo, um dia em que
Virglia se me queixava de um pintalegrete que l ia e tenazmente a galanteava.

 Que importuno! dizia ela fazendo
uma careta de raiva.

Estremeci, fitei-a, vi que a
indignao era sincera; ento ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma
vez aquela mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evoluo.
Tinha vindo de importuno a oportuno.

CAPTULO LVII /
DESTINO

Sim, senhor, amvamos. Agora, que
todas as leis sociais no-lo impediam, agora  que nos amvamos deveras.
Achvamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no
Purgatrio:

Di pari, come buoi, che vanno a
giogo;

e digo mal, comparando-nos a bois,
porque ns ramos outra espcie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo.
Eis-nos a caminhar sem saber at onde, nem por que estradas escusas; problema
que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja soluo entreguei ao destino.
Pobre Destino! Onde andars agora, grande procurador dos negcios humanos?
Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e no
 impossvel que... J me no lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas.
Disse eu comigo que j agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte
amar-nos; se assim no fora, como explicaramos a valsa e o resto? Virglia
pensava a mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de
remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos,  porque me no tinha
amor, Virglia cingiu-me com os seus magnficos braos, murmurando:

 Amo-te,  a vontade do Cu.

E esta palavra no vinha  toa;
Virglia era um pouco religiosa. No ouvia missa aos domingos,  verdade, e
creio at que s ia s igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em
alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com
sono. Tinha medo s trovoadas; nessas ocasies, tapava os ouvidos, e resmoneava
todas as oraes do catecismo. Na alcova dela havia um oratoriozinho de
jacarand, obra de talha, de trs palmos de altura, com trs imagens dentro; mas
no falava dele s amigas; ao contrrio, tachava de beatas as que eram s
religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer, e que a
sua religio era uma espcie de camisa de flanela, preservativa e clandestina;
mas evidentemente era engano meu.

CAPTULO LVIII /
CONFIDNCIA

Lobo Neves, a princpio, metia-me
grandes sustos. Pura iluso! Como adorasse a mulher, no se vexava de mo dizer
muitas vezes; achava que Virglia era a perfeio mesma, um conjunto de
qualidades slidas e finas, amorvel, elegante, austera, um modelo. E a
confiana no parava a. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia
confessou-me que trazia uma triste carcoma na existncia; faltava-lhe a glria
pblica. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela
uno religiosa de um desejo que no quer acabar de morrer; ento compreendi que
a ambio dele andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o vo. Dias
depois disse-me todos os seus tdios e desfalecimentos, as amarguras engolidas,
as raivas sopitadas; contou-me que a vida poltica era um tecido de invejas,
despeitos, intrigas, perfdias, interesses, vaidades. Evidentemente havia a uma
crise de melancolia; tratei de combat-la.

 Sei o que lhe digo, replicou-me
com tristeza. No pode imaginar o que tenho passado. Entrei na poltica por
gosto, por famlia, por ambio, e um pouco por vaidade. J v que reuni em mim
s todos os motivos que levam o homem  vida pblica; faltou-me s o interesse
de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da platia; e, palavra, que era
bonito! Soberbo cenrio, vida, movimento e graa na representao.
Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto?
Deixe-me ficar com as minhas amofinaes. Creia que tenho passado horas e
dias... No h constncia de sentimentos, no h gratido, no h nada...
nada.... nada...

Calou-se, profundamente abatido,
com os olhos no ar, parecendo no ouvir coisa nenhuma, a no ser o eco de seus
prprios pensamentos. Aps alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mo:  O
senhor h de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo; tinha um
negcio, que me mordia o esprito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois
pediu-me que no referisse a ningum o que se passara entre ns; ponderei-lhe
que a rigor no se passara nada. Entraram dois deputados e um chefe poltico da
parquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princpio um tanto postia, mas
logo depois natural. No fim de meia hora, ningum diria que ele no era o mais
afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

CAPTULO LIX / UM
ENCONTRO

Deve ser um vinho enrgico a
poltica, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui
andando, at que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu
antigo companheiro de colgio. Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu
fui andando... andando... andando...

 Por que no serei eu
ministro?

Esta idia, rtila e grande, 
trajada ao bizarro, como diria o Padre Bernardes,  esta idia comeou uma
vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe graa.
No pensei mais na tristeza de Lobo Neves; sentia a atrao do abismo. Recordei
aquele companheiro de colgio, as correrias nos morros, as alegrias e
travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que
no seria eu como ele. Entrava ento no Passeio Pblico, e tudo me parecia dizer
a mesma coisa.  Por que no sers ministro, Cubas?  Cubas, por que no sers
ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensao me refrescava todo o
organismo. Entrei, fui sentar-me num banco, a remoer aquela idia. E Virglia
que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara,
que no me pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse.

Imaginem um homem de trinta e oito
a quarenta anos, alto, magro e plido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter
escapado ao cativeiro de Babilnia; o chapu era contemporneo do de Gessler.
Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,  ou,
literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo
sem brilho; o plo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botes restavam
trs. As calas, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as
bainhas eram rodas pelo taco de um botim sem misericrdia nem graxa. Ao
pescoo flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas,
apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia tambm colete, um colete
de seda escura, roto a espaos, e desabotoado.

 Aposto que me no conhece, Sr.
Dr. Cubas? disse ele.

 No me lembra...

 Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado... Quem me dera
agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolao!
Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de
colgio, to inteligente e abastado. Quincas Borba! No; impossvel; no pode
ser. No podia acabar de crer que essa figura esqulida, essa barba pintada de
branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa runa fosse o Quincas Borba.
Mas era. Os olhos tinham um resto da expresso de outro tempo, e o sorriso no
perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com
firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura
repelia, a comparao acabrunhava.

 No  preciso contar-lhe nada,
disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de misrias, de atribulaes e
de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que
trambolho! Acabo mendigo...

E alando a mo direita e os
ombros, com um ar de indiferena, parecia resignado aos golpes da fortuna, e no
sei at se contente. Talvez contente. Com certeza, impassvel. No havia nele a
resignao crist, nem a conformidade filosfica. Parece que a misria lhe
calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensao de lama. Arrastava os andrajos,
como outrora a prpura: com certa graa indolente.

 Procure-me, disse eu, poderei
arranjar-lhe alguma coisa.

Um sorriso magnfico lhe abriu os
lbios.  No  o primeiro que me promete alguma coisa, replicou, e no sei se
ser o ltimo que no me far nada. E para qu? Eu nada peo, a no ser
dinheiro; dinheiro sim, porque  necessrio comer, e as casas de pasto no fiam.
Nem as quitandeiras. Uma coisa de nada, uns dois vintns de angu, nem isso fiam
as malditas quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno!
o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje no almocei.

 No?

 No; sa muito cedo de casa.
Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de So Francisco,  esquerda de
quem sobe; no precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois
sa cedo, e ainda no comi...

Tirei a carteira, escolhi uma nota
de cinco mil-ris,  a menos limpa,  e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos
cintilantes de cobia. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.

 In hoc signo vinces!
bradou.

E depois beijou-a, com muitos
ademanes de ternura, e to ruidosa expanso, que me produziu um sentimento misto
de nojo e lstima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou srio, grotescamente
srio, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que no
via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-ris.

 Pois est em suas mos ver
outras muitas, disse eu.

 Sim? acudiu ele, dando um bote
para mim.

 Trabalhando, conclu eu.

Fez um gesto de desdm; calou-se
alguns instantes; depois disse-me positivamente que no queria trabalhar. Eu
estava enjoado dessa abjeo to cmica e to triste, e preparei-me para sair.

 No v sem eu lhe ensinar a
minha filosofia da misria, disse ele, escarranchando-se diante de mim.

CAPTULO LX / O
ABRAO

Cuidei que o pobre diabo estivesse
doido, e ia afastar-me, quando ele me pegou no pulso, e olhou alguns instantes
para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mo uns estremees de
cobia, uns pruridos de posse.

 Magnfico! disse ele.

Depois comeou a andar  roda de
mim e a examinar-me muito.

 O senhor trata-se, disse ele.
Jias, roupa fina, elegante e.. Compare esses sapatos aos meus; que diferena!
Pudera no! Digo-lhe que se trata. E moas? Como vo elas? Est casado?

 No...

 Nem eu.

 Moro na rua...

 No quero saber onde mora,
atalhou Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, d-me outra nota de cinco
mil-ris; mas permita-me que no a v buscar  sua casa.  uma espcie de
orgulho... Agora, adeus; vejo que est impaciente.

 Adeus!

 E obrigado. Deixa-me
agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraou-me com tal
mpeto, que no pude evit-lo. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a
camisa amarrotada do abrao, enfadado e triste. J no dominava em mim a parte
simptica da sensao, mas a outra. Quisera ver-lhe a misria digna. Contudo,
no pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora,
entristecer-me e encarar o abismo que separa as esperanas de um tempo da
realidade de outro tempo...

 Ora adeus! Vamos jantar, disse
comigo.

Meto a mo no colete e no acho o
relgio. ltima desiluso! O Borba furtara-mo no abrao.

CAPTULO LXI / UM
PROJETO

Jantei triste. No era a falta do
relgio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscncias de
criana, e outra vez a comparao, e a concluso... Desde a sopa, comeou a
abrir em mim a flor amarela e mrbida do captulo XXV, e ento jantei depressa,
para correr  casa de Virglia. Virglia era o presente; eu queria refugiar-me
nele, para escapar s opresses do passado, porque o encontro do Quincas Borba,
tornara-me aos olhos o passado, no qual fora deveras, mas um passado roto,
abjeto, mendigo e gatuno.

Sa de casa, mas era cedo; iria
ach-los  mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive ento um desejo de
tornar ao Passeio Pblico, a ver se o achava; a idia de o regenerar surgiu-me
como uma forte necessidade. Fui; mas j no o achei. Indaguei do guarda;
disse-me que efetivamente esse sujeito ia por ali s vezes.

 A que horas?

 No tem hora certa.

No era impossvel encontr-lo
noutra ocasio; prometi a mim mesmo l voltar. A necessidade de o regenerar, de
o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o corao; eu
comeava a sentir um bem-estar, uma elevao, uma admirao de mim prprio...
Nisto caa a noite; fui ter com Virglia.

CAPTULO LXII / O
TRAVESSEIRO

Fui ter com Virglia; depressa
esqueci o Quincas Borba. Virglia era o travesseiro do meu esprito, um
travesseiro mole, tpido, aromtico, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali
que ele costumava repousar de todas as sensaes ms, simplesmente enfadonhas,
ou at dolorosas. E, bem pesadas as coisas, no era outra a razo da existncia
de Virglia; no podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o
Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplao mtua, com as mos presas umas
nas outras; cinco minutos e um beijo. E l se foi a lembrana do Quincas
Borba... Escrfula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que
molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino,
para fechar os olhos e dormir?

CAPTULO LXIII /
FUJAMOS!

Ai! Nem sempre dormir. Trs
semanas depois, indo  casa de Virglia,  eram quatro horas da tarde,  achei-a
triste e abatida. No me quis dizer o que era; mas, como eu instasse muito:

 Creio que o Damio desconfia
alguma coisa. Noto agora umas esquisitices nele... No sei. Trata-me bem, no h
dvida; mas o olhar parece que no  o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite
acordei, aterrada; estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja iluso, mas
eu penso que ele desconfia...

Tranqilizei-a como pude; disse
que podiam ser cuidados polticos. Virglia concordou que seriam, mas ficou
ainda muito excitada e nervosa. Estvamos na sala de visitas, que dava
justamente para a chcara, onde trocramos o beijo inicial. Uma janela aberta
deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar
para as cortinas, sem as ver. Empunhara o binculo da imaginao; lobrigava, ao
longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que no havia Lobo
Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a
expanso da vontade. Esta idia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral
e o marido, bastava penetrar naquela habitao dos anjos.

 Virglia, disse eu, proponho-te
uma coisa.

 Que ?

 Amas-me?

 Oh! suspirou ela, cingindo-me os
braos ao pescoo.

Virglia amava-me com fria;
aquela resposta era a verdade patente. Com os braos ao meu pescoo, calada,
respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e belos
olhos, que davam uma sensao singular de luz mida; eu deixei-me estar a
v-los, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insacivel como a
morte. A beleza de Virglia tinha agora um tom grandioso, que no possura antes
de casar. Era dessas figuras talhadas em pentlico, de um lavor nobre, rasgado e
puro, tranqilamente bela, como as esttuas, mas no aptica nem fria. Ao
contrrio, tinha o aspecto das naturezas clidas, e podia-se dizer que, na
realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquela ocasio, em que
exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana. Mas o tempo urgia;
deslacei-lhe as mos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nela, perguntei se tinha
coragem.

 De qu?

 De fugir. Iremos para onde nos
for mais cmodo, uma casa grande ou pequena,  tua vontade, na roa ou na
cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ningum nos aborrea, e no haja
perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo,
ele pode descobrir alguma coisa, e estars perdida...ouves? perdida... morta...
e ele tambm, porque eu o matarei, juro-te.

Interrompi-me; Virglia
empalidecera muito, deixou cair os braos e sentou-se no canap. Esteve assim
alguns instantes, sem me dizer palavra, no sei se vacilante na escolha, se
aterrada com a idia da descoberta e da morte. Fui-me a ela, insisti na
proposta, disse-lhe todas as vantagens de uma vida a ss, sem zelos, nem
terrores, nem aflies. Virglia ouvia-me calada; depois disse:

 No escaparamos talvez; ele
iria ter comigo e matava-me do mesmo modo.

Mostrei-lhe que no. O mundo era
assaz vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito
sol; ele no chegaria at l; s as grandes paixes so capazes de grandes
aes, e ele no a amava tanto que pudesse ir busc-la, se ela estivesse longe.
Virglia fez um gesto de espanto e quase indignao; murmurou que o marido
gostava muito dela.

 Pode ser, respondi eu; pode ser
que sim...

Fui at a janela, e comecei a
rufar com os dedos no peitoril. Virglia chamou-me; deixei-me estar, a remoer os
meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse ali  mo...
Justamente, nesse instante, apareceu na chcara o Lobo Neves. No tremas assim,
leitora plida; descansa, que no hei de rubricar esta lauda com um pingo de
sangue. Logo que apareceu na chcara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma
palavra graciosa; Virglia retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou
da a trs minutos.

 Est c h muito tempo? disse-me
ele.

 No.

Entrara srio, pesado, derramando
os olhos de um modo distrado, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira
expanso de jovialidade, quando viu chegar o filho, o Nhonh, o futuro bacharel
do captulo VI; tomou-o nos braos, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. Eu,
que tinha dio ao menino, afastei-me de ambos. Virglia tornou  sala.

 Ah! respirou Lobo Neves,
sentando-se preguiosamente no sof.

 Cansado? perguntei eu.

 Muito; aturei duas maadas de
primeira ordem, uma na cmara e outra na rua. E ainda temos terceira,
acrescentou, olhando para a mulher.

 Que ? perguntou Virglia.

 Um... Adivinha!

Virglia sentara-se ao lado dele,
pegou-lhe numa das mos, comps-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.

 Nada menos que um camarote.

 Para a Candiani?

 Para a Candiani.

Virglia bateu palmas,
levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que destoava
muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro,
consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria, da pera
que se cantava, e de no sei que outras coisas.

 Voc janta conosco, doutor,
disse-me Lobo Neves.

 Veio para isso mesmo, confirmou
a mulher; diz que voc possui o melhor vinho do Rio de Janeiro.

 Nem por isso bebe muito.

Ao jantar, desmenti-o; bebi mais
do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso para perder a razo. J
estava excitado, fiquei um pouco mais. Era a primeira grande clera que eu
sentia contra Virglia. No olhei uma s vez para ela durante o jantar; falei de
poltica, da imprensa, do ministrio, creio que falaria de teologia, se a
soubesse, ou se me lembrasse. Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e
dignidade, e at com certa benevolncia superior; e tudo aquilo me irritava
tambm, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me apenas nos
levantamos da mesa.

 At logo, no? perguntou Lobo
Neves.

 Pode ser.

E sa.

CAPTULO LXIV / A
TRANSAO

Vaguei pelas ruas e recolhi-me s
nove horas. No podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. s onze horas estava
arrependido de no ter ido ao teatro, consultei o relgio, quis vestir-me, e
sair. Julguei, porm, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza.
Evidentemente, Virglia comeava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idia
fez-me sucessivamente desesperado e frio, disposto a esquec-la e a mat-la.
Via-a dali mesmo, reclinada no camarote, com os seus magnficos braos nus,  os
braos que eram meus, s meus,  fascinando os olhos de todos, com o vestido
soberbo que havia de ter, o colo de leite, os cabelos postos em bandos, 
maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos dela... Via-a
assim, e doa-me que a vissem outros. Depois, comeava a despi-la, a pr de lado
as jias e sedas, a despente-la com as minhas mos sfregas e lascivas, a
torn-la,  no sei se mais bela, se mais natural,  a torn-la minha, somente
minha, unicamente minha.

No dia seguinte, no me pude ter;
fui cedo  casa de Virglia; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.

 Que houve? perguntei.

 Voc no me ama, foi a sua
resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me tivesse
dio. Se eu ao menos soubesse o que  que fiz! Mas no sei. No me dir o que
foi?

 Que foi o qu? Creio que no
houve nada.

 Nada? Tratou-me como no se
trata um cachorro...

A esta palavra, peguei-lhe nas
mos, beijei-as, e duas lgrimas rebentaram-lhe dos olhos.

 Acabou, acabou, disse eu.

No tive nimo de argir, e,
alis, argi-la de qu? No era culpa dela se o marido a amava. Disse-lhe que
no me fizera coisa nenhuma, que eu tinha necessariamente cimes do outro, que
nem sempre o podia suportar de cara alegre; acrescentei que talvez houvesse nele
muita dissimulao, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e s
dissenses era aceitar a minha idia da vspera.

 Pensei nisso, acudiu Virglia;
uma casinha s nossa, solitria, metida num jardim, em alguma rua escondida, no
? Acho a idia boa; mas para que fugir?

Disse isto com o tom ingnuo e
preguioso de quem no cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da
boca trazia a mesma expresso de candidez. Ento, afastando-me, respondi:

 Voc  que nunca me teve amor.

 Eu?

 Sim,  uma egosta! prefere
ver-me padecer todos os dias...  uma egosta sem nome!

Virglia desatou a chorar, e para
no atrair gente, metia o leno na boca, recalcava os soluos; exploso que me
desconcertou. Se algum a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ela,
travei-lhe dos pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade;
mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.

 No posso, disse ela da a
alguns instantes; no deixo meu filho; se o levar, estou certa de que ele
me ir buscar ao fim do mundo. No posso; mate-me voc, se o quiser, ou deixe-me
morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!

 Sossegue; olhe que podem
ouvi-la.

 Que ouam! No me importa.

Estava ainda excitada; pedi-lhe
que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doido, mas que a minha
insnia provinha dela e com ela acabaria. Virglia enxugou os olhos e
estendeu-me a mo. Sorrimos ambos; minutos depois, tornvamos ao assunto da
casinha solitria, em alguma rua escusa...

CAPTULO LXV / OLHEIROS E
ESCUTAS

Interrompeu-nos o rumor de um
carro na chcara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. Virglia
consultou-me com os olhos.

 Se a senhora est assim com dor
de cabea, disse eu, parece que o melhor  no receber.

 J se apeou? perguntou Virglia
ao escravo.

 J se apeou; diz que precisa
muito de falar com sinh!

 Que entre!

A baronesa entrou da a pouco. No
sei se contava comigo na sala; mas era impossvel mostrar maior alvoroo.

 Bons olhos o vejam! exclamou.
Onde se mete o senhor que no aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem
admirou-me no o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta
da Candiani?  natural. Os senhores so todos os mesmos. O baro dizia ontem, no
camarote, que uma s italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e
desaforo de velho, que  pior. Mas por que  que o senhor no foi ontem ao
teatro?

 Uma enxaqueca.

 Qual! Algum namoro; no acha,
Virglia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta
anos... ou perto disso. .. No tem quarenta anos?

 No lhe posso dizer com certeza,
respondi eu; mas se me d licena, vou consultar a certido de batismo.

 V, v... E estendendo-me a mo:
 At quando? Sbado ficamos em casa; o baro est com umas saudades suas...

Chegando  rua, arrependi-me de
ter sado. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de ns.
Cinqenta e cinco anos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestgios de
beleza, porte elegante e maneiras finas. No falava muito nem sempre; possua a
grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se ento na cadeira,
desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, no
sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava s,
ora fixa, ora mbil, levando a astcia ao ponto de olhar s vezes para dentro de
si, porque deixava cair as plpebras; mas, como as pestanas eram rtulas, o
olhar continuava o seu ofcio, remexendo a alma e a vida dos outros.

A segunda pessoa era um parente de
Virglia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que
padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma no menos teimosa e de uma leso
de corao: era um hospital concentrado. Os olhos, porm luziam de muita vida e
sade. Virglia, nas primeiras semanas, lhe tinha medo nenhum; dizia-me que,
quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente
contando dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.

Havia ainda o primo de Virglia, o
Lus Dutra, que eu agora desarmava  fora de lhe falar nos versos e prosas, e
de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome  pessoa, se
mostravam contentes da apresentao, no h dvida que Lus Dutra exultava de
felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperana de que ele nos no
denunciasse nunca. Havia, enfim, umas duas ou trs senhoras, vrios gamenhos, e
os fmulos, que naturalmente se desforravam assim da condio servil, e tudo
isso constitua uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os
quais tnhamos de resvalar com a ttica e maciez das cobras.

CAPTULO LXVI / AS
PERNAS

Ora, enquanto eu pensava naquela
gente, iam-me pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei
 porta do Hotel Pharoux. De costume jantava a; mas, no tendo deliberadamente
andado, nenhum merecimento da ao me cabe, e sim s pernas, que a fizeram.
Abenoadas pernas! E h quem vos trate com desdm ou indiferena. Eu mesmo, at
ento, tinha-vos em m conta, zangava-me quando vos fatigveis, quando no
podeis ir alm de certo ponto, e me deixveis com o desejo a avoaar, 
semelhana de galinha atada pelos ps.

Aquele caso, porm, foi um raio de
luz. Sim, pernas amigas, vs deixastes  minha cabea o trabalho de pensar em
Virglia, e dissestes uma  outra:  Ele precisa comer, so horas de jantar,
vamos lev-lo ao Pharoux; dividamos a conscincia dele, uma parte fique l com a
dama, tomemos ns a outra, para que ele v direito, no abalroe as gentes e as
carroas, tire o chapu aos conhecidos, e finalmente chegue so e salvo ao
hotel. E cumpristes  risca o vosso propsito, amveis pernas, o que me obriga a
imortalizar-vos nesta pgina.

CAPTULO LXVII / A
CASINHA

Jantei e fui a casa. L achei uma
caixa de charutos, que me mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e
ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:

Meu B...

Desconfiam de ns; tudo est
perdido; esquea-me para sempre. No nos veremos mais. Adeus; esquea-se da
infeliz

V...a.

Foi um golpe esta carta; no
obstante, apenas fechou a noite, corri  casa de Virglia. Era tempo; estava
arrependida. Ao vo de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A
baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite
anterior, a propsito da minha ausncia do camarote do Lobo Neves; tinham
comentado as minhas relaes na casa; em suma, ramos objeto da suspeita
pblica. Concluiu dizendo que no sabia que fazer.

 O melhor  fugirmos, insinuei.

 Nunca, respondeu ela abanando a
cabea.

Vi que era impossvel separar duas
coisas que no esprito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a
considerao pblica. Virglia era capaz de iguais e grandes sacrifcios para
conservar ambas as vantagens, e a fuga s lhe deixava uma. Talvez senti alguma
coisa semelhante a despeito; mas as comoes daqueles dois dias eram j muitas,
e o despeito morreu depressa. V l; arranjemos a casinha.

Com efeito, achei-a, dias depois,
expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco,
com quatro janelas na frente e duas de cada lado,  todas com venezianas cor de
tijolo,  trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistrio e solido. Um
brinco!

Convencionamos que iria morar ali
uma mulher, conhecida de Virglia, em cuja casa fora costureira e agregada.
Virglia exercia sobre ela verdadeira fascinao. No se lhe diria tudo; ela
aceitaria facilmente o resto.

Para mim era aquilo uma situao
nova do nosso amor, uma aparncia de posse exclusiva, de domnio absoluto,
alguma coisa que me faria adormecer a conscincia e resguardar o decoro. J
estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canap, de
todas essas coisas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade.
Agora podia evitar os jantares freqentes, o ch de todas as noites, enfim a
presena do filho deles, meu cmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o
mundo vulgar terminaria  porta;  dali para dentro era o infinito, um mundo
eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituies,
sem baronesas, sem olheiros, sem escutas,  um s mundo, um s casal, uma s
vida, uma s vontade, uma s afeio,  a unidade moral de todas as coisas pela
excluso das que me eram contrrias.

CAPTULO LXVIII / O
VERGALHO

Tais eram as reflexes que eu
vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa.
Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praa. O
outro no se atrevia a fugir; gemia somente estas nicas palavras:  No,
perdo, meu senhor; meu senhor, perdo! Mas o primeiro no fazia caso, e, a
cada splica, respondia com uma vergalhada nova.

 Toma, diabo! dizia ele; toma
mais perdo, bbado!

 Meu senhor! gemia o outro.

 Cala a boca, besta! replicava o
vergalho.

Parei, olhei... Justos cus! Quem
havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudncio,  o que meu
pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a
bno; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

 , sim, nhonh.

 Fez-te alguma coisa?

  um vadio e um bbado muito
grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia l embaixo na cidade,
e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

 Est bom, perdoa-lhe, disse eu.

 Pois no, nhonh. Nhonh manda,
no pede. Entra para casa, bbado!

Sa do grupo, que me olhava
espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma
infinidade de reflexes, que sinto haver inteiramente perdido; alis, seria
matria para um bom captulo, e talvez alegre. Eu gosto dos captulos alegres; 
o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episdio do Valongo; mas s
exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocnio achei-lhe um miolo
gaiato, fino, e at profundo. Era um modo que o Prudncio tinha de se desfazer
das pancadas recebidas,  transmitindo-as a outro. Eu, em criana, montava-o,
punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixo; ele gemia e sofria.
Agora, porm, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braos, das pernas, podia
trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condio, agora  que ele se
desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que
de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

CAPTULO LXIX / UM GRO DE
SANDICE

Este caso faz-me lembrar um doido
que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlo. Era a sua grande e nica
mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.

 Eu sou o ilustre Tamerlo, dizia
ele. Outrora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto trtaro, tanto trtaro,
tanto trtaro, que fiquei Trtaro, e at rei dos Trtaros. O trtaro tem a
virtude de fazer Trtaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da
resposta, mas  provvel que o leitor no se ria, e com razo; eu no lhe acho
graa nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a
propsito de um vergalho recebido e transferido, fora  confessar que  muito
melhor voltar  casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudncios.

CAPTULO LXX / D.
PLCIDA

Voltemos  casinha. No serias
capaz de l entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o
proprietrio deitou-a abaixo para substitu-la por outra, trs vezes maior, mas
juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um
desvo de telhado  o infinito para as andorinhas.

V agora a neutralidade deste
globo, que nos leva, atravs dos espaos, como uma lancha de nufragos, que vai
dar  costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espao de cho que sofreu
um casal de pecados. Amanh pode l dormir um eclesistico, depois um assassino,
depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abenoaro esse canto de Terra, que
lhes deu algumas iluses.

Virglia fez daquilo um brinco;
designou as alfaias mais idneas, e disp-las com a intuio esttica da mulher
elegante; eu levei para l alguns livros, e tudo ficou sob a guarda de D.
Plcida, suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.

Custou-lhe muito a aceitar a casa;
farejara a inteno e doa-lhe o ofcio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a
princpio: tinha nojo de si mesma. Ao menos,  certo que no levantou os olhos
para mim durante os primeiros dois meses; falava-me com eles baixos, sria,
carrancuda, s vezes triste. Eu queria angari-la, e no me dava por ofendido,
tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolncia, depois
a confiana. Quando obtive a confiana, imaginei uma histria pattica dos meus
amores com Virglia, um caso anterior ao casamento, a resistncia do pai, a
dureza do marido, e no sei que outros toques de novela. D. Plcida no rejeitou
uma s pgina da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da conscincia.
Ao cabo de seis meses, quem nos visse a todos trs juntos diria que D. Plcida
era minha sogra.

No fui ingrato; fiz-lhe um
peclio de cinco contos,  os cinco contos achados em Botafogo,  como um po
para a velhice. D. Plcida agradeceu-me com lgrimas nos olhos, e nunca mais
deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem, que
tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.

CAPTULO LXXI / O SENO DO
LIVRO

Comeo a arrepender-me deste
livro. No que ele me canse; eu no tenho que fazer; e, realmente, expedir
alguns magros captulos para esse mundo sempre  tarefa que distrai um pouco da
eternidade. Mas o livro  enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contrao
cadavrica; vcio grave, e alis nfimo, porque o maior defeito deste livro s
tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a
narrao direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu
estilo so como os brios, guinam  direita e  esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaam o cu, escorregam e caem...

E caem!  Folhas misrrimas do meu
cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse
olhos, dar-vos-ia uma lgrima de saudade. Esta  a grande vantagem da morte,
que, se no deixa boca para rir, tambm no deixa olhos para chorar... Heis de
cair.

CAPTULO LXXII / O
BIBLIMANO

Talvez suprima o captulo
anterior; entre outros motivos, h a, nas ltimas linhas, uma frase muito
parecida com despropsito, e eu no quero dar pasto  crtica do futuro.

Olhai: daqui a setenta anos, um
sujeito magro, amarelo, grisalho, que no ama nenhuma outra coisa alm dos
livros, inclina-se sobre a pgina anterior, a ver se lhe descobre o
despropsito; l, rel, tresl, desengona as palavras, saca uma slaba, depois
outra, mais outra e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os
lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; no
acha o despropsito.

 um biblimano. No conhece o
autor; este nome de Brs Cubas no vem nos seus dicionrios biogrficos. Achou o
volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos ris.
Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar nico...
nico! Vs, que no s amais os livros, seno que padeceis a mania deles, vs
sabeis muito bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delcias de
meu biblimano. Ele rejeitaria a coroa das ndias, o papado, todos os museus da
Itlia e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse nico exemplar; e no
porque seja o das minhas Memrias; faria a mesma coisa com o
Almanaque de Laemmert, uma vez que fosse nico.

O pior  o despropsito. L
continua o homem inclinado sobre a pgina, com uma lente no olho direito, todo
entregue  nobre e spera funo de decifrar o despropsito. J prometeu a si
mesmo escrever uma breve memria, na qual relate o achado do livro e a
descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo,
no descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o,
chega-se  janela e mostra-o ao sol. Um exemplar nico! Nesse momento passa-lhe
por baixo da janela um Csar ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele d de
ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor,
aos goles... Um exemplar nico!

CAPTULO LXXIII / O
LUNCHEON

O despropsito fez-me perder outro
captulo. Que melhor no era dizer as coisas lisamente, sem todos estes
solavancos! J comparei o meu estilo ao andar dos brios. Se a idia vos parece
indecorosa, direi que ele  o que eram as minhas refeies com Virglia, na
casinha da Gamboa, onde s vezes fazamos a nossa patuscada, o nosso
luncheon. Vinho, fruta, compotas. Comamos,  verdade, mas era um comer
virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade
desses apartes do corao, alis o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor.
s vezes vinha o arrufo temperar o nmio adocicado da situao. Ela deixava-me,
refugiava-se num canto do canap, ou ia para o interior ouvir as denguices de
Dona Plcida. Cinco ou dez minutos depois, reatvamos a palestra, como eu reato
a narrao, para desat-la outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao
mtodo, era nosso costume convid-lo, na pessoa de D. Plcida, a sentar-se
conosco  mesa; mas D. Plcida no aceitava nunca.

 Voc parece que no gosta mais
de mim, disse-lhe um dia Virglia.

 Virgem Nossa Senhora! exclamou a
boa dama alando as mos para o teto. No gosto de Iai! Mas ento de quem  que
eu gostaria neste mundo?

E, pegando-lhe nas mos, olhou-a
fixamente, fixamente, fixamente, at molharem-se-lhe os olhos, de to fixo que
era. Virglia acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do
vestido.

CAPTULO LXXIV / HISTRIA DE D.
PLCIDA

No te arrependas de ser generoso;
a pratinha rendeu-me uma confidncia de D. Plcida, e conseguintemente este
captulo. Dias depois, como eu a achasse s em casa, travamos palestra, e ela
contou-me em breves termos a sua histria. Era filha natural de um sacristo da
S e de uma mulher que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. J
ento ralava coco e fazia no sei que outros trabalhos de doceira, compatveis
com a idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu tsico
algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viva e moa, ficaram a seu cargo a
filha, com dois anos, e a me, cansada de trabalhar. Tinha de sustentar a trs
pessoas. Fazia doces, que era o seu ofcio, mas cosia tambm, de dia e de noite,
com afinco, para trs ou quatro lojas, e ensinava algumas crianas do bairro, a
dez tostes por ms. Com isto iam-se passando os anos, no a beleza, porque no
a tivera nunca. Apareceram-lhe alguns namoros, propostas, sedues, a que
resistia.

 Se eu pudesse encontrar outro
marido, disse-me ela, creia que me teria casado; mas ningum queria casar
comigo.

Um dos pretendentes conseguiu
fazer-se aceito; no sendo, porm, mais delicado que os outros, D. Plcida
despediu-o do mesmo modo, e, depois de o despedir, chorou muito. Continuou a
coser para fora e a escumar os tachos. A me tinha a rabugem do temperamento,
dos anos e da necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos
de emprstimo e de ocasio que lha pediam. E bradava:

 Queres ser melhor do que eu? No
sei donde te vm essas fidcias de pessoa rica. Minha camarada, a vida no se
arranja  toa; no se come vento. Ora esta! Moos to bons como o Policarpo da
venda, coitado... Esperas algum fidalgo, no ?

D. Plcida jurou-me que no
esperava fidalgo nenhum. Era gnio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a me
o no fora, e conhecia algumas que tinham s o seu moo delas; mas era gnio e
queria ser casada. No queria tambm que a filha fosse outra coisa. Trabalhava
muito, queimando os dedos ao fogo, e os olhos ao candeeiro, para comer e no
cair. Emagreceu, adoeceu, perdeu a me, enterrou-a por subscrio, e continuou a
trabalhar. A filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e no
fazia nada, a no ser namorar os capadcios que lhe rondavam a rtula. D.
Plcida vivia com imensos cuidados, levando-a consigo, quando tinha de ir
entregar costuras. A gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida
de que ela a levava para colher marido ou outra coisa. Alguns diziam graolas,
faziam cumprimentos; a me chegou a receber propostas de dinheiro...

Interrompeu-se um instante, e
continuou logo:

 Minha filha fugiu-me; foi com um
sujeito, nem quero saber... Deixou-me s, mas to triste, to triste, que pensei
morrer. No tinha ningum mais no mundo e estava quase velha e doente. Foi por
esse tempo que conheci a famlia de Iai; boa gente, que me deu que fazer, e at
chegou a me dar casa. Estive l muitos meses, um ano, mais de um ano, agregada,
costurando. Sa quando Iai casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os
meus dedos, olhe estas mos... E mostrou-me as mos grossas e gretadas, as
pontas dos dedos picadas da agulha.  No se cria isto  toa, meu senhor; Deus
sabe como  que isto se cria... Felizmente, Iai me protegeu, e o senhor doutor
tambm... Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola...

Ao soltar a ltima frase, D.
Plcida teve um calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu atentar na
inconvenincia daquela confisso ao amante de uma mulher casada, e comeou a
rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, cheia de fidcias, como lhe dizia a me;
enfim, cansada do meu silncio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a
ponta do botim.

CAPTULO LXXV /
COMIGO

Podendo acontecer que algum dos
meus leitores tenha pulado o captulo anterior, observo que  preciso l-lo para
entender o que eu disse comigo, logo depois que D. Plcida saiu da sala. O que
eu disse foi isto:

 Assim, pois, o sacristo da S,
um dia, ajudando  missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na
vida de D. Plcida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou,
disse-lhe alguma graa, pisou-lhe o p, ao acender os altares, nos dias de
festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuno de luxrias
vadias brotou D. Plcida.  de crer que D. Plcida no falasse ainda quando
nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:  Aqui estou. Para
que me chamastes? E o sacristo e a sacrist naturalmente lhe responderiam. 
Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou
no comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim
de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanh
resignada, mas sempre com as mos no tacho e os olhos na costura, at acabar um
dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de
simpatia.

CAPTULO LXXVI / O
ESTRUME

Sbito deu-me a conscincia um
repelo, acusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Plcida, obrigando-a
a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privaes. Medianeira
no era melhor que concubina, e eu tinha-a baixado a esse ofcio,  custa de
obsquios e dinheiros. Foi o que me disse a conscincia; fiquei uns dez minutos
sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da
fascinao exercida por Virglia sobre a ex-costureira, da gratido desta, enfim
da necessidade. Notou a resistncia de D. Plcida, as lgrimas dos primeiros
dias, as caras feias, os silncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar
tudo isso, at venc-la. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas
aleguei que a velhice de D. Plcida estava agora ao abrigo da mendicidade: era
uma compensao. Se no fossem os meus amores, provavelmente D. Plcida acabaria
como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vcio 
muitas vezes o estrume da virtude. O que no impede que a virtude seja uma flor
cheirosa e s. A conscincia concordou, e eu fui abrir a porta a Virglia.

CAPTULO LXXVII /
ENTREVISTA

Virglia entrou risonha e
sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era v-la
chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trmula! Ia de sege, velado o rosto,
envolvida numa espcie de mantu, que lhe disfarava as ondulaes do talhe. Da
primeira vez deixou-se cair no canap, ofegante, escarlate, com os olhos no
cho; e, palavra! em nenhuma outra ocasio a achei to bela, talvez porque nunca
me senti mais lisonjeado.

Agora, porm, como eu dizia,
tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no perodo
cronomtrico. A intensidade do amor era a mesma; a diferena  que a chama
perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de
raios, tranqilo e constante, como nos casamentos.

 Estou muito zangada com voc,
disse ela sentando-se.

 Por qu?

 Por que no foi l ontem, como
me tinha dito. O Damio perguntou muitas vezes se voc no iria, ao menos, tomar
ch. Por que  que no foi?

Com efeito, eu havia faltado 
palavra que dera, e a culpa era toda de Virglia. Questo de cimes. Essa mulher
esplndida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou
baixa. Na antevspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo
peralta, depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava
to alegre! to derramada! to cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas
sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaadora, no teve nenhum sobressalto,
nem ficou subitamente sria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices. Veio
depois a mim, tomou-me o brao, e levou-me a outra sala, menos povoada, onde se
me queixou de cansao, e disse muitas outras coisas, com o ar pueril que
costumava ter, em certas ocasies, e eu ouvi-a quase sem responder nada.

Agora mesmo, custava-me responder
alguma coisa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausncia... No, eternas
estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas
arqueadas, uma estupefao visvel, tangvel, que se no podia negar, tal foi a
primeira rplica de Virglia; abanou a cabea com um sorriso de piedade e
ternura, que inteiramente me confundiu.

 Ora, voc!

E foi tirar o chapu, lpida,
jovial como a menina que torna do colgio; depois veio a mim, que estava
sentado, deu-me pancadinha na testa, com um s dedo, a repetir:  Isto, isto; 
e eu no tive remdio seno rir tambm, e tudo acabou em galhofa. Era claro que
me enganara.

CAPTULO LXXVIII / A
PRESIDNCIA

Certo dia, meses depois, entrou
Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez ocupar uma presidncia de provncia.
Olhei para Virglia, que empalideceu; ele, que a viu empalidecer, perguntou-lhe:

 A modo que no gostaste,
Virglia?

Virglia abanou a cabea.

 No me agrada muito, foi a sua
resposta.

No se disse mais nada; mas de
noite Lobo Neves insistiu no projeto um pouco mais resolutamente do que de
tarde; dois dias depois declarou  mulher que a presidncia era coisa
definitiva. Virglia no pde dissimular a repugnncia que isto lhe causava. O
marido respondia a tudo com as necessidades polticas.

 No posso recusar o que me
pedem;  at convenincia nossa, do nosso futuro, dos teus brases, meu amor,
porque eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa ests. Dirs que sou
ambicioso? Sou-o deveras, mas  preciso que me no ponhas um peso nas asas da
ambio.

Virglia ficou desorientada. No
dia seguinte achei-a triste, na casa da Gamboa,  minha espera; tinha dito tudo
a D. Plcida, que buscava consol-la como podia. No fiquei menos abatido.

 Voc h de ir conosco, disse-me
Virglia.

 Est doida? Seria uma
insensatez.

 Mas ento...?

 Ento,  preciso desfazer o
projeto.

  impossvel.

 J aceitou?

 Parece que sim.

Levantei-me, atirei o chapu a uma
cadeira, e entrei a passear de um lado para outro, sem saber o que faria.
Cogitei largamente, e no achei nada. Enfim, cheguei-me a Virglia, que estava
sentada, e travei-lhe da mo; D. Plcida foi  janela.

 Nesta pequenina mo est toda a
minha existncia, disse eu; voc  responsvel por ela; faa o que lhe parecer.

Virglia teve um gesto aflitivo;
eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes de
silncio; ouvamos somente o latir de um co, e no sei se o rumor da gua, que
morria na praia. Vendo que no falava, olhei para ela. Virglia tinha os olhos
no cho, parados, sem luz, as mos deixadas sobre os joelhos, com os dedos
cruzados, na atitude da suprema desesperana. Noutra ocasio, por diferente
motivo,  certo que eu me lanaria aos ps dela, e a ampararia com a minha razo
e a minha ternura; agora, porm, era preciso compeli-la ao esforo de si mesma,
ao sacrifcio,  responsabilidade da nossa vida comum, e conseguintemente
desampar-la, deix-la, e sair; foi o que fiz.

 Repito, a minha felicidade est
nas tuas mos, disse eu.

Virglia quis agarrar-me, mas eu
j estava fora da porta. Cheguei a ouvir um prorromper de lgrimas, e digo-lhes
que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e
sa.

CAPTULO LXXIX /
COMPROMISSO

No acabaria se houvesse de contar
pelo mido o que padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um querer e um no
querer, entre a piedade que me empuxava  casa de Virglia e outro sentimento, 
egosmo, supunhamos,  que me dizia:  Fica; deixa-a a ss com o problema,
deixa-a que ela o resolver no sentido do amor. Creio que essas duas foras
tinham igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com
tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. s vezes sentia um dentezinho de
remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem
nada sacrificar nem arriscar de mim prprio; e, quando ia a capitular, vinha
outra vez o amor, e me repetia o conselho egosta, e eu ficava irresoluto e
inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a
responsabilidade da soluo.

Por fim interveio um compromisso
entre o egosmo e a piedade; eu iria v-la em casa, e s em casa, em presena do
marido, para lhe no dizer nada,  vspera do efeito da minha intimao. Deste
modo poderia conciliar as duas foras. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer
que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda uma forma de
egosmo, e que a resoluo de ir consolar Virglia no passava de uma sugesto
de meu prprio padecimento.

CAPTULO LXXX / DE
SECRETRIO

Na noite seguinte fui efetivamente
 casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virglia muito triste, ele muito jovial.
Juro que ela sentiu certo alvio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios
de curiosidade e ternura. Lobo Neves contou-me os planos que levava para a
presidncia, as dificuldades locais, as esperanas, as resolues; estava to
contente! to esperanado! Virglia, ao p da mesa, fingia ler um livro, mas por
cima da pgina olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.

 O pior, disse-me de repente o
Lobo Neves,  que ainda no achei secretrio.

 No?

 No, e tenho uma
idia.

 Ah!

 Uma idia... Quer voc dar um
passeio ao Norte?

No sei o que lhe
disse.

 Voc  rico, continuou ele, no
precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secretrio
comigo.

Meu esprito deu um salto para
trs, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves,
fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... Nem
sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural,
no violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e no tive nimo de
olhar para Virglia; senti por cima da pgina o olhar dela, que me pedia tambm
a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma
presidenta, um secretrio, era resolver as coisas de um modo administrativo.

CAPTULO LXXXI / A
RECONCILIAO

Contudo, ao sair de l, tive umas
sombras de dvida; cogitei se no ia expor insanamente a reputao de Virglia,
se no haveria outro meio razovel de combinar o Estado e a Gamboa. No achei
nada. No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o esprito feito e
resoluto a aceitar a nomeao. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na
sala uma senhora, coberta com um vu. Corro; era minha irm Sabina.

 Isto no pode continuar assim,
disse ela;  preciso que, de uma vez por todas, faamos as pazes. Nossa famlia
est acabando; no havemos de ficar como dois inimigos.

 Mas se eu no te peo outra
coisa, mana! bradei estendendo-lhe os braos.

Sentei-a ao p de mim, falei-lhe
do marido, da filha, dos negcios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda
como os amores. O marido viria mostrar-ma, se eu consentisse.

 Ora essa! irei eu mesmo v-la.

 Sim?

 Palavra.

 Tanto melhor! respirou Sabina. 
tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda, e talvez mais
moa. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afvel, nenhum
acanhamento, nenhum ressentimento. Olhvamos um para o outro, com as mos
seguras, falando de tudo e de nada, como dois namorados. Era minha infncia que
ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam caindo como as fileiras de
cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a
nossa casa, a nossa famlia, as nossas festas. Suportei a recordao com algum
esforo; mas um barbeiro da vizinhana lembrou-se de zangarrear na clssica
rabeca, e essa voz  porque at ento a recordao era muda  essa voz do
passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que...

Os olhos dela estavam secos.
Sabina no herdara a flor amarela e mrbida. Que importa? Era minha irm, meu
sangue, um pedao de minha me, e eu disse-lho com ternura, com sinceridade...
Sbito, ouo bater  porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.

 Entra, Sara, disse Sabina.

Era minha sobrinha. Apanhei-a do
cho, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o ombro com a
mozinha, quebrando o corpo para descer... Nisto, aparece-me  porta um chapu,
e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava to comovido, que
deixei a filha e lancei-me aos braos do pai. Talvez essa efuso o desconcertou
um pouco;  certo que me pareceu acanhado. Simples prlogo. Da a pouco
falvamos como bons amigos velhos. Nenhuma aluso ao passado, muitos planos de
futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro. No deixei de dizer que essa
troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupo, porque eu andava
com idias de uma viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para
Sabina; ambos concordaram que essas idias no tinham senso comum. Que diacho
podia eu achar no Norte? Pois no era na corte, em plena corte, que devia
continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo? Que, na verdade,
nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim, acompanhava-me de longe, e, no
obstante uma briga ridcula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus
triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um
concerto de louvores e admiraes. E deixa-se isso para ir passar alguns meses
na provncia, sem necessidade, sem motivo srio? A menos que no fosse
poltica...

 Justamente poltica, disse eu.

 Nem assim, replicou ele da a um
instante.  E depois de outro silncio:  Seja como for, venha jantar hoje
conosco.

 Certamente que vou; mas, amanh
ou depois, ho de vir jantar comigo.

 No sei, no sei, objetou
Sabina; casa de homem solteiro... Voc precisa casar, mano. Tambm eu quero uma
sobrinha, ouviu?

Cotrim reprimiu-a com um gesto,
que no entendi bem. No importa; a reconciliao de uma famlia vale bem um
gesto enigmtico.

CAPTULO LXXXII / QUESTO DE
BOTNICA

Digam o que quiserem dizer os
hipocondracos: a vida  uma coisa doce. Foi o que eu pensei comigo, ao ver
Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas, dizendo muitas
palavras afetuosas para cima, onde eu ficava  no patamar,  a dizer-lhes outras
tantas para baixo. Continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma
mulher, tinha a confiana do marido, ia por secretrio de ambos, reconciliava-me
com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro horas?

Nesse mesmo dia, tratando de
aparelhar os nimos, comecei a espalhar que talvez fosse para o Norte como
secretrio de provncia, a fim de realizar certos desgnios polticos, que me
eram pessoais. Disse-o na Rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e
no teatro. Alguns, ligando a minha nomeao  do Lobo Neves, que j andava em
boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no ombro. No teatro disse-me
uma senhora que era levar muito longe o amor da escultura. Referia-se s belas
formas de Virglia.

Mas a aluso mais rasgada que me
fizeram foi em casa de Sabina, trs dias depois. F-la um certo Garcez, velho
cirurgio, pequenino, trivial e grulha, que podia chegar aos setenta, aos
oitenta, aos noventa anos, sem adquirir jamais aquela compostura austera, que 
a gentileza do ancio. A velhice ridcula , porventura, a mais triste e
derradeira surpresa da natureza humana.

 J sei, desta vez vai ler
Ccero, disse-me ele, ao saber da viagem.

 Ccero! exclamou Sabina.

 Pois ento? Seu mano  um grande
latinista. Traduz Virglio de relance. Olhe que  Virglio, e no Virglia...
no confunda...

E ria, de um riso grosso, rasteiro
e frvolo. Sabina olhou para mim, receosa de alguma rplica; mas sorriu, quando
me viu sorrir, e voltou o rosto para disfar-lo. As outras pessoas olhavam-me
com um ar de curiosidade, indulgncia e simpatia; era transparente que no
acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais pblico
do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso, 
palreiro como as pegas de Sintra. Virglia era um belo erro, e  to fcil
confessar um belo erro! Costumava ficar carrancudo, a princpio, quando ouvia
alguma aluso aos nossos amores; mas, palavra de honra! sentia c dentro uma
impresso suave e lisonjeira. Uma vez, porm, aconteceu-me sorrir, e continuei a
faz-lo das outras vezes. No sei se h a algum que explique o fenmeno. Eu
explico-o assim: a princpio, o contentamento, sendo interior, era por assim
dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; andando o tempo, desabotoou-se em flor, e
apareceu aos olhos do prximo. Simples questo de botnica.

CAPTULO LXXXIII /
13

Cotrim tirou-me daquele gozo,
levando-me  janela.  Voc quer que lhe diga uma coisa? perguntou ele;  no
faa essa viagem;  insensata,  perigosa.

 Por qu?

 Voc bem sabe por que, tornou
ele: , sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na corte, um caso desses
perde-se na multido da gente e dos interesses; mas na provncia muda de figura;
e tratando-se de personagens polticos,  realmente insensatez. As gazetas de
oposio, logo que farejarem o negcio, passam a imprimi-lo com todas as letras,
e a viro as chufas, os remoques, as alcunhas...

 Mas no entendo...

 Entende, entende. Em verdade,
seria bem pouco amigo nosso, se me negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso
h longos meses. Repito, no faa semelhante viagem; suporte a ausncia, que 
melhor, e evite algum grande escndalo e maior desgosto...

Disse isto, e foi para dentro. Eu
deixei-me estar com os olhos no lampio da esquina,  um antigo lampio de
azeite,  triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogao. Que me
cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me  fortuna, ou lutar com ela e
subjug-la. Por outros termos: embarcar ou no embarcar. Esta era a questo. O
lampio no me dizia nada. As palavras do Cotrim ressoavam-me aos ouvidos da
memria, de um modo muito diverso do das palavras do Garcez. Talvez Cotrim
tivesse razo; mas podia eu separar-me de Virglia?

Sabina veio ter comigo, e
perguntou-me em que estava pensando. Respondi que em coisa nenhuma, que tinha
sono e ia para casa. Sabina esteve um instante calada.  O que voc precisa, sei
eu;  uma noiva. Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para voc. Sa de l
opresso, desorientado. Tudo pronto para embarcar,  esprito e corao,  e eis
a me surge esse porteiro das convenincias, que me pede o carto de ingresso.
Dei ao diabo as convenincias, e com elas a constituio, o corpo legislativo, o
ministrio, tudo.

No dia seguinte, abro uma folha
poltica e leio a notcia de que, por decretos de 13, tnhamos sido nomeados
presidente e secretrio da provncia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi
imediatamente a Virglia, e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D.
Plcida! Estava cada vez mais aflita; perguntou-me se esqueceramos a nossa
velha, se a ausncia era grande e se a provncia ficava longe. Consolei-a; mas
eu prprio precisava de consolaes; a objeo de Cotrim afligia-me. Virglia
chegou da a pouco, lpida como uma andorinha; mas, ao ver-me triste, ficou
muito sria.

 Que aconteceu?

 Vacilo, disse eu; no sei se
devo aceitar...

Virglia deixou-se cair, no
canap, a rir.  Por qu? disse ela.

 No  conveniente, d muito na
vista...

 Mas ns no j vamos.

 Como assim?

Contou-me que o marido ia recusar
a nomeao, e por motivo que s lhe disse, a ela, pedindo-lhe o maior segredo;
no podia confess-lo a ningum mais.   pueril, observou ele,  ridculo; mas
em suma,  um motivo poderoso para mim. Referiu-lhe que o decreto trazia a data
de 13, e que esse nmero significava para ele uma recordao fnebre. O pai
morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A
casa em que morrera a me tinha o n. 13. Et coetera. Era um algarismo
fatdico. No podia alegar semelhante coisa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha
razes particulares para no aceitar. Eu fiquei como h de estar o leitor,  um
pouco assombrado com esse sacrifcio a um nmero; mas, sendo ele ambicioso, o
sacrifcio devia ser sincero...

CAPTULO LXXXIV / O
CONFLITO

Nmero fatdico, lembras-te que te
abenoei muitas vezes? Assim tambm as virgens ruivas de Tebas deviam abenoar a
gua, de ruiva crina, que as substituiu no sacrifcio de Pelpidas,  uma donosa
gua, que l morreu, coberta de flores, sem que ningum lhe desse nunca uma
palavra de saudade. Pois dou-ta eu, gua piedosa, no s pela morte havida, como
porque, entre as donzelas escapas, no  impossvel que figurasse uma av dos
Cubas... Nmero fatdico, tu foste a nossa salvao. No me confessou o marido a
causa da recusa; disse-me tambm que eram negcios particulares, e o rosto
srio, convencido, com que eu o escutei, fez honra  dissimulao humana. Ele 
que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco,
absorvia-se, metia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e ento conversava e
ria muito, com estrpito e afetao. Oprimiam-no duas coisas,  a ambio, que
um escrpulo desasara, e logo depois a dvida, e talvez o arrependimento,  mas
um arrependimento, que viria outra vez, se repetisse a hiptese, porque o fundo
supersticioso existia. Duvidava da superstio, sem chegar a rejeit-la. Essa
persistncia de um sentimento, que repugna ao mesmo indivduo, era um fenmeno
digno de alguma ateno. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Plcida,
quando confessava no poder ver um sapato voltado para o ar.

 Que tem isso? perguntava-lhe eu.

 Faz mal, era a sua resposta.

Isto somente, esta nica resposta,
que valia para ela o livro dos sete selos. Faz mal. Disseram-lhe isso em
criana, sem outra explicao, e ela contentava-se com a certeza do mal. J no
acontecia mesma coisa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo; a
sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga.

Ou verruga ou outra coisa, que
valia isso, para quem no perde uma presidncia de provncia? Tolera-se uma
superstio gratuita ou barata;  insuportvel a que leva uma parte da vida.
Este era o caso do Lobo Neves com o acrscimo da dvida e do terror de haver
sido ridculo. E mais este outro acrscimo, que o ministro no acreditou nos
motivos particulares; atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos polticos,
iluso complicada de algumas aparncias; tratou-o mal, comunicou a desconfiana
aos colegas; sobrevieram incidentes; enfim, com o tempo, o presidente
resignatrio foi para a oposio.

CAPTULO LXXXV / O CIMO DA
MONTANHA

Quem escapa a um perigo ama a vida
com outra intensidade. Entrei a amar Virglia com muito mais ardor, depois que
estive a pique de a perder, e a mesma coisa lhe aconteceu a ela. Assim, a
presidncia no fez mais do que avivar a afeio primitiva; foi a droga com que
tornamos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambm. Nos primeiros dias,
depois daquele incidente, folgvamos de imaginar a dor da separao, se houvesse
separao, a tristeza de um e de outro,  proporo que o mar, como uma toalha
elstica, se fosse dilatando entre ns; e, semelhantes s crianas, que se
achegam ao regao das mes, para fugir a uma simples careta, fugamos do suposto
perigo, apertando-nos com abraos.

 Minha boa Virglia!

 Meu amor!

 Tu s minha, no?

 Tua, tua...

E assim reatamos o fio da aventura
como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto
mximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde por algum tempo divisamos os
vale de leste e de oeste, e por cima de ns o cu tranqilo e azul. Repousado
esse tempo, comeamos a descer a encosta, com as mos presas ou soltas, mas a
descer, a descer...

CAPTULO LXXXVI / O
MISTRIO

Serra abaixo, como eu a visse um
pouco diferente, no sei se abatida ou outra coisa, perguntei-lhe o que tinha;
calou-se, fez um gesto de enfado, de mal-estar, de fadiga; ateimei, ela disse-me
que... Um fluido sutil percorreu todo o meu corpo: sensao forte, rpida,
singular, que eu no chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das mos,
puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de zfiro e uma
gravidade de Abrao. Ela estremeceu, colheu-me a cabea entre as palmas,
fitou-me os olhos, depois afagou-me com um gesto maternal... Eis a um mistrio;
deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mistrio.

CAPTULO LXXXVII /
GEOLOGIA

Sucedeu por esse tempo um
desastre; a morte do Viegas. O Viegas passou a de relance, com os seus setenta
anos, abafados de asma, desconjuntados de reumatismo, e uma leso de corao por
quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virglia nutria
grandes esperanas em que esse velho parente, avaro como um sepulcro, lhe
amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se o marido tinha iguais
pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os. Tudo se deve dizer: havia no Lobo
Neves certa dignidade fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao comrcio
dos homens. As outras, as camadas de cima, terra solta e areia, levou-lhas a
vida, que  um enxurro perptuo. Se o leitor ainda se lembra do captulo XXIII,
observar que  agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas
tambm h de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo  perptuo. E Deus
sabe a fora de um adjetivo, principalmente em pases novos e clidos.

O que  novo neste livro  a
geologia moral do Lobo Neves, e provavelmente a do cavalheiro, que me est
lendo. Sim, essas camadas de carter, que a vida altera, conserva ou dissolve,
conforme a resistncia delas, essas camadas mereceriam um captulo, que eu no
escrevo, por no alongar a narrao. Digo apenas que o homem mais probo que
conheci em minha vida foi um certo Jac Medeiros ou Jac Valadares, no me
recorda bem o nome. Talvez fosse Jac Rodrigues; em suma, Jac. Era a probidade
em pessoa; podia ser rico, violentando um pequenino escrpulo, e no quis;
deixou ir pelas mos fora nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a
probidade to exemplar, que chegava a ser mida e cansativa. Um dia, como nos
achssemos, a ss, em casa dele, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o
Dr. B., um sujeito enfadonho. Jac mandou dizer que no estava em casa.

 No pega, bradou uma voz do
corredor; c estou de dentro.

E, com efeito, era o Dr. B., que
apareceu logo  porta da sala. Jac foi receb-lo, afirmando que cuidava ser
outra pessoa, e no ele, e acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o
que nos rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque Jac tirou o
relgio; o Dr. B. perguntou-lhe ento se ia sair.

 Com minha mulher, disse Jac.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos.
Uma vez respirados, disse eu ao Jac que ele acabava de mentir quatro vezes, em
menos de duas horas: a primeira, negando-se, a segunda, alegrando-se com a
presena do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, acrescentando
que com a mulher. Jac refletiu um instante, depois confessou a justeza da minha
observao, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompatvel
com um estado social adiantado, e que a paz das cidades s se podia obter 
custa de embaadelas recprocas... Ah! lembra-me agora: chamava-se Jac Tavares.

CAPTULO LXXXVIII / O
ENFERMO

No  preciso dizer que refutei
to perniciosa doutrina, com os mais elementares argumentos; mas ele estava to
vexado do meu reparo, que resistiu at o fim, mostrando certo calor fictcio,
talvez para atordoar a conscincia.

O caso de Virglia tinha alguma
gravidade mais. Ela era menos escrupulosa que o marido: manifestava claramente
as esperanas que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortesias,
atenes e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo. Propriamente,
adulava-o; mas eu observei que a adulao das mulheres no  a mesma coisa que a
dos homens. Esta ora pela servilidade; a outra confunde-se com a afeio. As
formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza fsica do  ao
lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto legtimo. No importa a idade do
adulado; a mulher h de ter sempre para ele uns ares de me ou de irm,  ou
ainda de enfermeira, outro ofcio feminil, em que o mais hbil dos homens
carecer sempre de um quid, um fluido, alguma coisa.

Era o que eu pensava comigo,
quando Virglia se desfazia toda em afagos ao velho parente. Ela ia receb-lo 
porta, falando e rindo, tirava-lhe o chapu e a bengala, dava-lhe o brao e
levava-o a uma cadeira, ou  cadeira, porque havia l em casa a cadeira do
Viegas, obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anci. Ia fechar
a janela prxima, se havia alguma brisa, ou abri-la, se estava calor, mas com
cuidado, combinando de modo que lhe no desse um golpe de ar.

 Ento? Hoje est mais
fortezinho...

 Qual! Passei mal a noite: o
diabo da asma no me deixa.

E bufava o homem, repousando a
pouco e pouco do cansao da entrada e da subida, no do caminho, porque ia
sempre de sege. Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virglia, numa
banquinha, com as mos nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonh chegava 
sala, sem os pulos do costume, mas discreto, meigo, srio. Viegas gostava muito
dele.

 Vem c, nhonh, dizia-lhe; e a
custo introduzia a mo na ampla algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas,
metia uma na boca e dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasmticas. O pequeno
dizia que eram muito boas.

Repetia-se isto, com variantes.
Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virglia cumpria-lhe o desejo, aturando-o
por largo tempo, a mover as pedras com a mo frouxa e tarda. Outras vezes,
desciam a passear na chcara, dando-lhe ela o brao, que ele nem sempre
aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma lgua. Iam, sentavam-se
tornavam a ir, a falar de coisas vrias, ora de um negcio de famlia, ora de
uma bisbilhotice de sala, ora enfim de uma casa que ele meditava construir, para
residncia prpria, casa de feitio moderno, porque a dele era das antigas,
contempornea de el-rei D. Joo VI,  maneira de algumas que ainda hoje (creio
eu) se podem ver no bairro de So Cristvo, com as suas grossas colunas na
frente. Parecia-lhe que o casaro em que morava podia ser substitudo, e j
tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! ento sim, ento  que
Virglia chegaria a ver o que era um velho de gosto.

Falava, como se pode supor,
lentamente e a custo, intervalado de uma arfagem incmoda para ele e para os
outros. De quando em quando, vinha um acesso de tosse; curvo, gemendo, levava o
leno  boca, e investigava-o; passado o acesso, tornava ao plano da casa, que
devia ter tais e tais quartos, um terrao, cachoeira, um primor.

CAPTULO LXXXIX / IN
EXTREMIS

 Amanh vou passar o dia em casa
do Viegas, disse-me ela uma vez. Coitado! no tem ningum...

Viegas cara na cama,
definitivamente; a filha, casada, adoecera justamente agora, e no podia
fazer-lhe companhia. Virglia ia l de quando em quando. Eu aproveitei a
circunstncia para passar todo aquele dia ao p dela. Eram duas horas da tarde
quando cheguei. Viegas tossia com tal fora que me fazia arder o peito; no
intervalo dos acessos debatia o preo de uma casa, com um sujeito magro. O
sujeito oferecia trinta contos. Viegas exigia quarenta. O comprador instava como
quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas Viegas no cedia; recusou
primeiramente os trinta contos, depois mais dois, depois mais trs, enfim teve
um forte acesso, que lhe tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador
acarinhou-o muito, arranjou-lhe os travesseiros, ofereceu-lhe trinta e seis
contos.

 Nunca! gemeu o enfermo.

Mandou buscar um mao de papis 
escrivaninha; no tendo foras para tirar a fita de borracha que prendia os
papis, pediu-me que os deslaasse: fi-lo. Eram as contas das despesas com a
construo da casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do
papel da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas
das ferragens; custo do terreno. Ele abria-as, uma por uma, com a mo trmula, e
pedia-me que as lesse, e eu lia-as.

 Veja; mil e duzentos, papel de
mil e duzentos a pea. Dobradias francesas... Veja,  de graa, concluiu ele
depois de lida a ltima conta.

 Pois bem... mas...

 Quarenta contos; no lhe dou por
menos. S os juros... faa a conta dos juros...

Vinham tossidas estas palavras, s
golfadas, s slabas, como se fossem migalhas de um pulmo desfeito. Nas rbitas
fundas rolavam os olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da
madrugada. Sob o lenol desenhava-se a estrutura ssea do corpo, pontudo em dois
lugares, nos joelhos e nos ps; a pele amarelada, bamba, rugosa, revestia apenas
a caveira de um rosto sem expresso; uma carapua de algodo branco cobria-lhe o
crnio rapado pelo tempo.

 Ento? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe sinal para que no
insistisse, e ele calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o
teto, calado, a arfar muito: Virglia empalideceu, levantou-se, foi at 
janela. Suspeitara a morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras coisas. O
sujeito magro contou uma anedota, e tornou a tratar da casa, alteando a
proposta.

 Trinta e oito contos, disse ele.

 Ahn?... gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da
cama, pegou-lhe na mo, e sentiu-a fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe
se sentia alguma coisa, se queria tomar um clice de vinho.

 No... no... quar... quaren...
quar... quar...

Teve um acesso de tosse, e foi o
ltimo; da a pouco expirava ele, com grande consternao do sujeito magro, que
me confessou depois a disposio em que estava de oferecer os quarenta contos;
mas era tarde.

CAPTULO XC / O VELHO COLQUIO
DE ADO E CAIM

Nada. Nenhuma lembrana
testamentria, uma pastilha que fosse, com que do todo em todo no parecesse
ingrato ou esquecido. Nada. Virglia travou raivosa esse malogro, e disse-mo com
certa cautela, no pela coisa em si, seno porque entendia com o filho, de quem
sabia que eu no gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que no devia pensar
mais em semelhante negcio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa,
um cainho sem nome, e tratar de coisas alegres; o nosso filho, por exemplo...

L me escapou a decifrao do
mistrio, esse doce mistrio de algumas semanas antes, quando Virglia me
pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta
era a minha preocupao exclusiva daquele tempo. Olhos do mundo, zelos do
marido, morte do Viegas, nada me interessava por ento, nem conflitos polticos,
nem revolues, nem terremotos, nem nada. Eu s pensava naquele embrio annimo,
de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia:  teu filho. Meu filho! E
repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefinvel, e no sei que
assomos de orgulho. Sentia-me homem.

O melhor  que conversvamos os
dois, o embrio e eu, falvamos de coisas presentes e futuras. O maroto
amava-me, era um pelintra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mozinhas
gordas, ou ento traava a beca de bacharel, porque ele havia de ser bacharel e
fazia um discurso na Cmara dos Deputados. E o pai a ouvi-lo de uma tribuna, com
os olhos rasos de lgrimas. De bacharel passava outra vez  escola, pequenino,
lousa e livros debaixo do brao, ou ento caa no bero para tornar a erguer-se
homem. Em vo buscava fixar no esprito uma idade, uma atitude: esse embrio
tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele
valsava, ele era o interminvel nos limites de um quarto de hora,  baby
e deputado, colegial e pintalegrete. s vezes, ao p de Virglia, esquecia-me
dela e de tudo; Virglia sacudia-me, reprochava-me o silncio; dizia que eu j
lhe no queria nada. A verdade  que estava em dilogo com o embrio; era o
velho colquio de Ado e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida,
o mistrio e o mistrio.

CAPTULO XCI / UMA CARTA
EXTRAORDINRIA

Por esse tempo recebi uma carta
extraordinria, acompanhada de um objeto no menos extraordinrio. Eis o que a
carta dizia:

Meu caro Brs Cubas,

H tempos, no Passeio Pblico,
tomei-lhe de emprstimo um relgio. Tenho a satisfao de restituir-lho com esta
carta. A diferena  que no  o mesmo, porm outro, no digo superior, mas
igual ao primeiro. Que voulez-vous,
monseigneur?  como dizia Fgaro,  c'est
la misre. Muitas coisas se deram depois do
nosso encontro; irei cont-las pelo mido, se me no fechar a porta. Saiba que
j no trago aquelas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas
abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de So
Francisco; finalmente, almoo.

Dito isto, peo licena para ir um
dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de
filosofia, que no s explica e descreve a origem e a consumao das coisas,
como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sneca, cujo estoicismo era um
verdadeiro brinco de crianas ao p da minha receita moral.  singularmente
espantoso esse meu sistema; retifica o esprito humano, suprime a dor, assegura
a felicidade, e enche de imensa glria o nosso pas. Chamo-lhe Humanitismo, de
Humanitas, princpio das coisas. Minha primeira idia revelava uma grande
enfatuao: era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominao vaidosa, alm de rude
e molesta. E com certeza exprimia menos. Ver, meu caro Brs Cubas, ver que 
deveras um monumento; e se alguma coisa h que possa fazer-me esquecer as
amarguras da vida,  o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade.
Ei-las na minha mo essas duas esquivas; aps tantos sculos de lutas,
pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mos do homem. At breve,
meu caro Brs Cubas. Saudades do

Velho amigo
JOAQUIM BORBA DOS
SANTOS.

Li esta carta sem entend-la.
Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relgio com as minhas iniciais
gravadas, e esta frase: Lembrana do velho Quincas. Voltei  carta,
reli-a com pausa, com ateno. A restituio do relgio exclua toda a idia de
burla; a lucidez, a serenidade, a convico,  um pouco jactanciosa,  certo, 
pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara
de algum dos seus parentes de Minas, e a abastana devolvera-lhe a primitiva
dignidade. No digo tanto; h coisas que se no podem reaver integralmente; mas
enfim a regenerao no era impossvel. Guardei a carta e o relgio, e esperei a
filosofia.

CAPTULO XCII / UM HOMEM
EXTRAORDINRIO

J agora acabo com as coisas
extraordinrias. Vinha de guardar a carta e o relgio, quando me procurou um
homem magro e meo, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O
portador era casado com uma irm do Cotrim, chegara poucos dias antes do Norte,
chamava-se Damasceno, e fizera a revoluo de 1831. Foi ele mesmo que me disse
isto, no espao de cinco minutos. Sara do Rio de Janeiro, por desacordo com o
Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com
ele. De resto, a revoluo estava outra vez s portas. Neste ponto, conquanto
trouxesse as idias polticas um pouco baralhadas, consegui organizar e formular
o governo de suas preferncias: era um despotismo temperado,  no por cantigas,
como dizem alhures,  mas por penachos da guarda nacional. S no pude alcanar
se ele queria o despotismo de um, de trs, de trinta ou de trezentos. Opinava
por vrias coisas, entre outras, o desenvolvimento do trfico dos africanos e a
expulso dos ingleses. Gostava muito de teatro; logo que chegou foi ao Teatro de
So Pedro, onde viu um drama soberbo, a Maria Joana, e uma comdia muito
interessante, Kettly, ou a volta  Sua. Tambm gostara muito da
Deperini, na Safo, ou na Ana Bolena, no se lembrava bem. Mas a
Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a
filha dele cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami...  E
dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz.  No Norte essas coisas
chegavam como um eco. A filha morria por ouvir todas as peras. Tinha uma voz
muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! ele estava ansioso por voltar ao
Rio de Janeiro. J havia corrido a cidade toda, com umas saudades... Palavra! em
alguns lugares teve vontade de chorar. Mas no embarcaria mais. Enjoara muito a
bordo, como todos os outros passageiros, exceto um ingls... Que os levasse o
diabo os ingleses! Isto no ficava direito sem irem todos eles barra fora. Que 
que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa
vontade, era obra de uma noite a expulso de tais godemes... Graas a
Deus, tinha patriotismo,  e batia no peito,  o que no admirava porque era de
famlia; descendia de um antigo capito-mor muito patriota. Sim, no era nenhum
p-rapado. Viesse a ocasio, e ele havia de mostrar de que pau era a canoa...
Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu no faltaria ao jantar, e l me esperava
para maior palestra.  Levei-o at  porta da sala; ele parou dizendo que
simpatizava muito comigo. Quando casara, estava eu na Europa. Conheceu meu pai,
um homem s direitas, com quem danara num clebre baile da Praia Grande...
Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao
Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta...

CAPTULO XCIII / O
JANTAR

Que suplcio que foi o jantar!
Felizmente, Sabina fez-me sentar ao p da filha do Damasceno, uma D. Eullia, ou
mais familiarmente Nh-lol, moa graciosa, um tanto acanhada a princpio, mas
s a princpio. Faltava-lhe elegncia, mas compensava-a com os olhos, que eram
soberbos e s tinham o defeito de se no arrancarem de mim, exceto quando
desciam ao prato; mas Nh-lol comia to pouco, que quase no olhava para o
prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, muito mimosa. No
obstante, esquivei-me. Sabina veio at  porta, e perguntou-me que tal achara a
filha do Damasceno.

 Assim, assim.

 Muito simptica, no ? acudiu
ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que corao!  uma prola. Bem boa
noiva para voc.

 No gosto de prolas.

 Casmurro! Para quando  que voc
se guarda? para quando estiver a cair de maduro, j sei. Pois, meu rico, quer
voc queira quer no, h de casar com Nh-lol.

E dizia isto a bater-me na face
com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta.
Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliao? Fiquei um pouco desconsolado
com a idia, mas uma voz misteriosa chamava-me  casa do Lobo Neves; disse adeus
a Sabina e s suas ameaas.

CAPTULO XCIV / A CAUSA
SECRETA

 Como est a minha querida mame?
A esta palavra, Virglia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma janela,
sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei no
nosso filho amuou-se. No gostava de semelhante aluso, aborreciam-lhe as minhas
antecipadas carcias paternais. Eu, para quem ela era j uma pessoa sagrada, uma
mbula divina, deixava-a estar quieta. Supus a princpio que o embrio, esse
perfil do incgnito, projetando-se na nossa aventura, lhe restitura a
conscincia do mal. Enganava-me. Nunca Virglia me parecera mais expansiva, mais
sem reservas, menos preocupada dos outros e do marido. No eram remorsos.
Imaginei tambm que a concepo seria um puro invento, um modo de prender-me a
ela, recurso sem longa eficcia, que talvez comeava de oprimi-la. No era
absurda esta hiptese; a minha doce Virglia mentia s vezes, com tanta graa!

Naquela noite descobri a causa
verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe
nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de
morte, dava-lhe j imaginariamente os calafrios do patbulo. Quanto ao vexame,
complicava-se ainda da forada privao de certos hbitos da vida elegante. Com
certeza, era isso mesmo; dei-lho a entender, repreendendo-a, um pouco em nome
dos meus direitos de pai. Virglia fitou-me; em seguida desviou os olhos e
sorriu de um jeito incrdulo.

CAPTULO XCV / FLORES DE
ANTANHO

Onde esto elas, as flores de
antanho? Uma tarde, aps algumas semanas de gestao, esboroou-se todo o
edifcio das minhas quimeras paternais. Foi-se o embrio, naquele ponto em que
se no distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a notcia por boca do Lobo
Neves, que me deixou na sala e acompanhou o mdico  alcova da frustrada me. Eu
encostei-me  janela, a olhar para a chcara, onde verdejavam as laranjeiras sem
flores. Onde iam elas as flores de antanho?

CAPTULO XCVI / A CARTA
ANNIMA

Senti tocar-me no ombro; era Lobo
Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsolveis. Indaguei de
Virglia, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram
trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a mo
trmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se sobre mim;
mas no me lembra bem. O que me lembra claramente  que durante os dias
seguintes recebeu-me frio e taciturno. Enfim, Virglia contou-me tudo, da a
dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo
que ela se restabeleceu. Era annima e denunciava-nos. No dizia tudo; no
falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precav-lo
contra a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pblica. Virglia
leu a carta e disse com indignao que era uma calnia infame.

 Calnia? perguntou Lobo Neves.

 Infame.

O marido respirou; mas, tornando 
carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada
letra bradava contra a indignao da mulher. Esse homem, alis intrpido, era
agora a mais frgil das criaturas. Talvez a imaginao lhe mostrou, ao longe, o
famoso olho da opinio, a fit-lo sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez
uma boca invisvel lhe repetiu ao ouvido as chufas que ele escutara ou dissera
outrora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe
perdoaria. Virglia compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a
insistncia, jurou que da minha parte s ouvira palavras de gracejo e cortesia.
A carta havia de ser de algum namorado sem-ventura. E citou alguns,  um que a
galanteara francamente, durante trs semanas, outro que lhe escrevera uma carta,
e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circunstncias, estudando os
olhos do marido, e concluiu dizendo que, para no dar margem  calnia,
tratar-me-ia de maneira que eu no voltaria l.

Ouvi tudo isto um pouco turbado,
no pelo acrscimo de dissimulao que era preciso empregar de ora em diante,
at afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranqilidade moral
de Virglia, pela falta de comoo, de susto, de saudades, e at de remorsos.
Virglia notou a minha preocupao, levantou-me a cabea, porque eu olhava ento
para o soalho, e disse-me com certa amargura:

 Voc no merece os sacrifcios
que lhe fao.

No lhe disse nada; era ocioso
ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria  nossa situao o sabor
custico dos primeiros dias; mas se lho dissesse, no  impossvel que ela
chegasse lenta e artificiosamente at esse pouco de desespero e terror. No lhe
disse nada. Ela batia nervosamente com a ponta do p no cho; aproximei-me e
beijei-a na testa. Virglia recuou, como se fosse um beijo de defunto.

CAPTULO XCVII / ENTRE A BOCA E
A TESTA

Sinto que o leitor estremeceu, 
ou devia estremecer. Naturalmente a ltima palavra sugeriu-lhe trs ou quatro
reflexes. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam
h muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a
outra a recuar, como se sentisse o contato de uma boca de cadver. H a, no
breve intervalo, entre a boca e a testa, antes do beijo e depois do beijo, h a
largo espao para muita coisa,  a contrao de um ressentimento,  a ruga da
desconfiana,  ou enfim o nariz plido e sonolento da saciedade...

CAPTULO XCVIII /
SUPRIMIDO

Separamo-nos alegremente. Jantei
reconciliado com a situao. A carta annima restitua  nossa aventura o sal do
mistrio e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virglia no perdesse
naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao teatro de So Pedro;
representava-se uma grande pea, em que a Estela arrancava lgrimas. Entro;
corro os olhos pelos camarotes; vejo em um deles Damasceno e a famlia. Trajava
a filha com outra elegncia e certo apuro, coisa difcil de explicar, porque o
pai ganhava apenas o necessrio para endividar-se; e da, talvez fosse por isso
mesmo.

No intervalo fui visit-los.
Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a
Nh-lol, no tirou mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais bonita que no
dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etrea casada ao polido das formas
terrenas:  expresso vaga, e condigna de um captulo em que tudo h de ser
vago. Realmente, no sei como lhes diga que no me senti mal, ao p da moa,
trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava ccegas de
Tartufo. Ao contempl-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz
uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana,
condio necessria ao desenvolvimento da nossa espcie. A nudez habitual, dada
a multiplicao das obras e dos cuidados do indivduo, tenderia a embotar os
sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vesturio, negaceando a natureza,
agua e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a
civilizao. Abenoado uso que nos deu Otelo e os paquetes
transatlnticos!

Estou com vontade de suprimir este
captulo. O declive  perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memrias e no as
tuas, leitor pacato. Ao p da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma
sensao dupla e indefinvel. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal,
l'ange et la bte, com a diferena que o jansenista no admitia a
simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas a estavam bem juntinhas, 
l'ange, que dizia algumas coisas do Cu,  e la bte, que... No;
decididamente suprimo este captulo.

CAPTULO XCIX / NA
PLATIA

Na platia achei Lobo Neves, de
conversa com alguns amigos, falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro.
Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos
corredores, em que no havia ningum. Ele veio a mim, com muita afabilidade e
riso, puxou-me a um dos culos do teatro, e falamos muito, principalmente ele,
que parecia o mais tranqilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher;
respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversao para assuntos gerais,
expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferena; eu fujo ao
Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.

No ouvi nada do seguinte ato, nem
as palavras dos atores, nem as palmas do pblico. Reclinado na cadeira, apanhava
de memria os retalhos da conversao do Lobo Neves, refazia as maneiras dele, e
conclua que era muito melhor a nova situao. Bastava-nos a Gamboa. A
freqncia da outra casa aguaria as invejas. Rigorosamente podamos
dispensar-nos de falar todos os dias; era at melhor, metia a saudade de permeio
nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e no era nada, nem simples
eleitor de parquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por amor de Virglia, que
havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio que nessa ocasio
houve grandes aplausos, mas no juro; eu pensava em outra coisa.

Multido, cujo amor cobicei at 
morte, era assim que eu me vingava s vezes de ti; deixava burburinhar em volta
do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de squilo fazia aos
seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua
indiferena, ou da tua agitao? Frgeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de
um gesto de Gulliver. Vulgar coisa  ir considerar no ermo. O voluptuoso, o
esquisito,  insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de
nervos e paixes, decretar-se alheado, inacessvel, ausente. O mais que podem
dizer, quando ele torna a si,  isto , quando torna aos outros,   que baixa
do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvo luminoso e recatado do crebro,
que outra coisa  seno a afirmao desdenhosa da nossa liberdade espiritual?
Vive Deus! eis um bom fecho de captulo.

CAPTULO C / O CASO
PROVVEL

Se esse mundo no fosse uma regio
de espritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu s afirmo certas
leis, quando as possuo deveras; em relao a outras restrinjo-me  admisso da
probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente captulo, cuja
leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fenmenos sociais.
Segundo parece, e no  improvvel, existe entre os fatos da vida pblica e os
da vida particular uma certa ao recproca, regular, e talvez peridica,  ou
para usar de uma imagem, h alguma coisa semelhante s mars da Praia do
Flamengo e de outras igualmente marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a
praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma gua torna ao mar, com
varivel fora, e vai engrossar a onda que h de vir, e que ter de tornar como
a primeira. Esta  a imagem; vejamos a aplicao.

Deixei dito noutra pgina que o
Lobo Neves, nomeado presidente de provncia, recusou a nomeao por motivo da
data do decreto que era 13; ato grave, cuja conseqncia foi separar do
ministrio o marido de Virglia. Assim, o fato particular da ojeriza de um
nmero produziu o fenmeno da dissidncia poltica. Resta ver como, tempos
depois, um ato poltico determinou na vida particular uma cessao de movimento.
No convindo ao mtodo deste livro descrever imediatamente esse outro fenmeno,
limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro meses depois de nosso
encontro no teatro, reconciliou-se com o ministrio; fato que o leitor no deve
perder de vista, se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento.

CAPTULO CI / A REVOLUAO
DLMATA

Foi Virglia quem me deu notcia
da viravolta poltica do marido, certa manh de outubro, entre onze e meio-dia;
falou-me de reunies, de conversas, de um discurso...

 De maneira, que desta vez fica
voc baronesa, interrompi eu.

Ela derreou os cantos da boca, e
moveu a cabea a um e outro lado; mas esse gesto de indiferena era desmentido
por alguma coisa menos definvel, menos clara, uma expresso de gosto e de
esperana. No sei por que, imaginei que a carta imperial da nomeao podia
atra-la  virtude, no digo pela virtude em si mesma, mas por gratido ao
marido. Que ela amava cordialmente a nobreza. Um dos maiores desgostos de nossa
vida foi o aparecimento de certo pelintra de legao,  da legao da Dalmcia,
suponhamos,  o Conde B. V., que a namorou durante trs meses. Esse homem, vero
fidalgo de raa, transtornara um pouco a cabea de Virglia, que, alm do mais,
possua a vocao diplomtica. No chego a alcanar o que seria de mim, se no
rebentasse na Dalmcia uma revoluo, que derrocou o governo e purificou as
embaixadas. Foi sangrenta a revoluo, dolorosa, formidvel; os jornais, a cada
navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam
as cabeas; toda a gente fremia de indignao e piedade... Eu no; eu abenoava
interiormente essa tragdia, que me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a
Dalmcia era to longe!

CAPTULO CII / DE
REPOUSO

Mas este mesmo homem, que se
alegrou com a partida do outro, praticou da a tempos... No, no hei de
cont-lo nesta pgina; fique esse captulo para repouso do meu vexame. Uma ao
grosseira, baixa, sem explicao possvel... Repito, no contarei o caso nesta
pgina.

CAPTULO CIII /
DISTRAO

 No, senhor doutor, isto no se
faz. Perdoe-me, isto no se faz.

Tinha razo D. Plcida. Nenhum
cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei
esbaforido; Virglia tinha ido embora. D. Plcida contou-me que ela esperara
muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo, e outras
mais coisas que a nossa caseira dizia com lgrimas na voz, pedindo-me que no
desamparasse Iai, que era ser muito injusto com uma moa que me sacrificara
tudo. Expliquei-lhe ento que um equvoco... E no era; cuido que foi simples
distrao. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa; simples
distrao.

Coitada de D. Plcida! Estava
aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabea, suspirando com
estrpito, espiando pela rtula. Coitada de D. Plcida! Com que arte conchegava
as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginao
frtil em tornar as horas mais aprazveis e breves! Flores, doces,  os bons
doces de outros dias,  e muito riso, muito afago, riso e afago que cresciam com
o tempo, como se ela quisesse fixar a nossa aventura, ou restituir-lhe a
primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira,
porque a um e outro referia suspiros e saudades que no presenciara; nada, nem a
calnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixo nova.  Voc sabe que
no posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virglia me falou
em semelhante coisa. E esta s palavra, sem nenhum protesto ou admoestao,
dissipou o aleive de D. Plcida, que ficou triste.

 Est bem, disse-lhe eu, depois
de um quarto de hora; Virglia h de reconhecer que no tive culpa nenhuma...
Quer voc levar-lhe uma carta agora mesmo?

 Ela h de estar bem triste,
coitadinha! Olhe, eu no desejo a morte de ningum; mas, se o senhor doutor
algum dia chegar a casar com Iai, ento sim,  que h de ver o anjo que ela !

Lembra-me que desviei o rosto e
baixei os olhos ao cho. Recomendo este gesto s pessoas que no tiverem uma
palavra pronta para responder, ou ainda s que recearem encarar a pupila de
outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos
Lusadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu
atenho-me ao gesto indicado;  mais simples, exige menos esforo.

Trs dias depois, estava tudo
explicado. Suponho que Virglia ficou um pouco admirada, quando lhe pedi
desculpas das lgrimas que derramara naquela triste ocasio. Nem me lembra se
interiormente as atribu a D. Plcida. Com efeito, podia acontecer que D.
Plcida chorasse, ao v-la desapontada, e, por um fenmeno da viso, as lgrimas
que tinha nos prprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virglia. Fosse
como fosse, tudo estava explicado, mas no perdoado, e menos ainda esquecido.
Virglia dizia-me uma poro de coisas duras, ameaava-me com a separao, enfim
louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado,
um primor de cortesia e afeio;  o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os
braos fincados nos joelhos, olhava para o cho, onde uma mosca arrastava uma
formiga que lhe mordia o p. Pobre mosca! pobre formiga!

 Mas voc no diz nada, nada?
perguntou Virglia, parando diante de mim.

 Que hei de dizer? J expliquei
tudo; voc teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe que me parece? Parece-me
que voc est enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...

 Justamente!

Foi dali pr o chapu, com a mo
trmula, raivosa...  Adeus, D. Plcida, bradou ela para dentro. Depois foi at
 porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.  Est bom, est bom,
disse-lhe. Virglia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse,
que esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canap. Sentei-me ao p
dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. No
afirmo se os nossos lbios chegaram  distncia de um fio de cambraia ou ainda
menos;  matria controversa. Lembra-me, sim, que na agitao caiu um brinco de
Virglia, que eu inclinei-me a apanh-lo, e que a mosca de h pouco trepou ao
brinco, levando sempre a formiga no p. Ento eu, com a delicadeza nativa de um
homem do nosso sculo, pus na palma da mo aquele casal de mortificados;
calculei toda a distncia que ia da minha mo ao planeta Saturno, e perguntei a
mim mesmo que interesse podia haver num episdio to mofino. Se concluis da que
eu era um brbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virglia, a fim de
separar os dois insetos; mas a mosca farejou a minha inteno, abriu as asas e
foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se
diz na Escritura.

CAPTULO CIV / ERA
ELE!

Restitu o grampo a Virglia, que
o repregou nos cabelos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado trs
horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Plcida, que espreitava a ocasio
idnea para a sada, fecha subitamente a janela e exclama:

 Virgem Nossa Senhora! a vem o
marido de Iai!

O momento de terror foi curto, mas
completo. Virglia fez-se da cor das rendas do vestido, correu at a porta da
alcova; D. Plcida, que fechara a rtula, queria fechar tambm a porta de
dentro; eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou.
Virglia tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Plcida que voltasse
 janela; a confidente obedeceu.

Era ele. D. Plcida abriu-lhe a
porta com muitas exclamaes de pasmo:  O senhor por aqui! honrando a casa de
sua velha! Entre, faa favor. Adivinhe quem est c... No tem que adivinhar,
no veio por outra coisa... Aparea, Iai.

Virglia, que estava a um canto,
atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves
entrou lentamente, plido, frio, quieto, sem exploso, sem arrebatamento, e
circulou um olhar em volta da sala.

 Que  isto? exclamou Virglia.
Voc por aqui?

 Ia passando, vi D. Plcida 
janela, e vim cumpriment-la.

 Muito obrigada, acudiu esta. E
digam que as velhas no valem alguma coisa... Olhai, gentes! Iai parece estar
com cimes. E acariciando-a muito:  Este anjinho  que nunca se esqueceu da
velha Plcida. Coitadinha!  mesmo a cara da me... Sente-se, senhor doutor...

 No me demoro.

 Voc vai para casa? disse
Virglia. Vamos juntos.

 Vou.

 D c o meu chapu, D. Plcida.

 Est aqui.

D. Plcida foi buscar um espelho,
abriu-o diante dela. Virglia punha o chapu, atava as fitas, arranjava os
cabelos, falando ao marido, que no respondia nada. A nossa boa velha tagarelava
demais; era um modo de disfarar as tremuras do corpo. Virglia, dominado o
primeiro instante, tornara  posse de si mesma.

 Pronta! disse ela. Adeus, D.
Plcida; no se esquea de aparecer, ouviu? A outra prometeu que sim, e
abriu-lhes a porta.

CAPTULO CV / EQUIVALNCIA DAS
JANELAS

D. Plcida fechou a porta e caiu
numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair 
rua, com o fim de arrancar Virglia ao marido; foi o que disse, e em bem que o
disse, porque D. Plcida deteve-me por um brao. Tempo houve em que cheguei a
supor que no dissera aquilo seno para que ela me detivesse; mas a simples
reflexo basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais
genuno e cordial no podia ser seno esse. E isto por aquela famosa lei da
equivalncia das janelas, que eu tive a satisfao de descobrir e formular, no
captulo LI. Era preciso arejar a conscincia. A alcova foi uma janela fechada;
eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

CAPTULO CVI / JOGO
PERIGOSO

Respirei e sentei-me. D. Plcida
atroava a sala com exclamaes e lstimas. Eu ouvia, sem lhe dizer coisa
nenhuma; refletia comigo se no era melhor ter fechado Virglia na alcova e
ficado na sala; mas adverti logo que seria pior; confirmaria a suspeita,
chegaria o fogo  plvora, e uma cena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas
depois? que ia acontecer em casa de Virglia? mat-la-ia o marido?
espanc-la-ia? encerr-la-ia? expuls-la-ia? Estas interrogaes percorriam
lentamente o meu crebro, como os pontinhos e vrgulas escuras percorrem o campo
visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto seco e
trgico, e eu no podia agarrar um deles e dizer: s tu, tu e no outro.

De repente vejo um vulto negro;
era D. Plcida, que fora dentro, enfiara a mantinha, e vinha oferecer-se-me para
ir  casa do Lobo Neves. Ponderei que era arriscado, porque ele desconfiaria da
visita to prxima.

 Sossegue, interrompeu ela; eu
saberei arranjar as coisas. Se ele estiver em casa no entro.

Saiu; eu fiquei a ruminar o
sucesso e as conseqncias possveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo
perigoso, e perguntava a mim mesmo se no era tempo de levantar e espairecer.
Sentia-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida.
Por que no? Meu corao tinha ainda que explorar; no me sentia incapaz de um
amor casto, severo e puro. Em verdade, as aventuras so a parte torrencial e
vertiginosa da vida, isto , a exceo; eu estava enfarado delas; no sei at se
me pungia algum remorso. Mal pensei naquilo, deixei-me ir atrs da imaginao;
vi-me logo casado, ao p de uma mulher adorvel, diante de um baby, que
dormia no regao da ama, todos ns no fundo de uma chcara sombria e verde, a
espiarmos atravs da chcara uma nesga do cu azul, extremamente azul...

CAPTULO CVII /
BILHETE

No houve nada, mas ele suspeita
alguma coisa; est muito srio e no fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente,
para Nhonh, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. No me tratou mal nem
bem. No sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por
ora, muita cautela.

CAPTULO CVIII / QUE SE NO
ENTENDE

Eis a o drama, eis a a ponta da
orelha trgica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes,
machucado das mos, era um documento de anlise, que eu no farei neste
captulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao
leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspiccia e o nimo dessas
poucas linhas traadas  pressa; e por trs delas a tempestade de outro crebro,
a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de
resolver-se na lama ou no sangue, ou nas lgrimas?

Quanto a mim, se vos disser que li
o bilhete trs ou quatro vezes, naquele dia, acreditai-o, que  verdade; se vos
disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoo, podeis cr-lo,
 a realidade pura. Mas se vos disser a comoo que tive, duvidai um pouco da
assero, e no a aceiteis sem provas. Nem ento, nem ainda agora cheguei a
discernir o que experimentei. Era medo, e no era medo; era d e no era d; era
vaidade e no era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto , sem delrio; e tudo
isso dava uma combinao assaz complexa e vaga, uma coisa que no podereis
entender, como eu no entendi. Suponhamos que no disse nada.

CAPTULO CIX / O
FILSOFO

Sabido que reli a carta, antes e
depois do almoo, sabido fica que almocei, e s resta dizer que essa refeio
foi das mais parcas da minha vida: um ovo, uma fatia de po, uma xcara de ch.
No me esqueceu esta circunstncia mnima; no meio de tanta coisa importante
obliterada escapou esse almoo. A razo principal poderia ser justamente o meu
desastre; mas no foi; a principal razo foi a reflexo que me fez o Quincas
Borba, cuja visita recebi naquele dia. Disse-me ele que a frugalidade no era
necessria para entender o Humanitismo, e menos ainda pratic-lo; que esta
filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o
espetculo e os amores; e que, ao contrrio, a frugalidade podia indicar certa
tendncia para o ascetismo, o que era a expresso acabada de tolice humana.

 Veja So Joo, continuou ele;
mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranqilamente na
cidade, e fazer emagrecer o farisasmo na sinagoga.

Deus me livre de contar a histria
do Quincas Borba, que alis ouvi toda naquela triste ocasio, uma histria
longa, complicada, mas interessante. E se no conto a histria, dispenso-me
outrossim de descrever-lhe a figura, alis muito diversa da que me apareceu no
Passeio Pblico. Calo-me; digo somente que se a principal caracterstica do
homem no so as feies, mas os vesturios, ele no era o Quincas Borba; era um
desembargador sem beca, um general sem farda, um negociante sem deficit.
Notei-lhe a perfeio da sobrecasaca, a alvura da camisa, o asseio das botas. A
mesma voz, roufenha outrora, parecia restituda  primitiva sonoridade. Quanto 
gesticulao, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, no tinha j a
desordem, sujeitava-se a um certo mtodo. Mas eu no quero descrev-lo. Se
falasse, por exemplo, no boto de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do
couro das botas, iniciaria uma descrio, que omito por brevidade. Contentem-se
de saber que as botas eram de verniz. Saibam mais que ele herdara alguns pares
de contos de ris de um velho tio de Barbacena.

Meu esprito, (permitam-me aqui
uma comparao de criana!) meu esprito era naquela ocasio uma espcie de
peteca. A narrao do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, ele subia; quando ia a
cair, o bilhete de Virglia dava-lhe outra palmada, e ele era de novo
arremessado aos ares, descia, e o episdio do Passeio Pblico recebia-o com
outra palmada, igualmente rija e eficaz. Cuido que no nasci para situaes
complexas. Esse puxar e empuxar de coisas opostas desequilibrava-me; tinha
vontade de embrulhar o Quincas Borba e Lobo Neves e o bilhete de Virglia na
mesma filosofia, e mand-los de presente a Aristteles. Contudo, era instrutiva
a narrao do nosso filsofo; admirava-lhe sobretudo o talento de observao com
que descrevia a gestao e o crescimento do vcio, as lutas interiores, as
capitulaes vagarosas, o uso da lama.

 Olhe, observou ele; a primeira
noite que passei, na escada de So Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a
mais fina pluma. Por qu? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de
pau do quarto prprio ao corpo da guarda do corpo da guarda  rua...

Quis expor-me finalmente a
filosofia; pedi-lhe que no.  Estou muito preocupado hoje e no poderia
atend-lo; venha depois; estou sempre em casa. Quincas Borba sorriu de um modo
malicioso; talvez soubesse da minha aventura, mas no acrescentou nada. S me
disse estas ltimas palavras  porta:

 Venha para o Humanitismo; ele 
o grande regao dos espritos, o mar eterno em que mergulhei para arrancar de l
a verdade. Os gregos faziam-na sair de um poo. Que concepo mesquinha! Um
poo! Mas  por isso mesmo que nunca atinaram com ela. Gregos, subgregos,
antigregos, toda a longa srie dos homens tem-se debruado sobre o poo, para
ver sair a verdade, que no est l. Gastaram cordas e caambas; alguns mais
afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui diretamente ao mar. Venha
para o Humanitismo.

CAPTULO CX /
31

Uma semana depois, Lobo Neves foi
nomeado presidente de provncia. Agarrei-me  esperana da recusa, se o decreto
viesse outra vez datado de 13; trouxe, porm, a data de 31, e esta simples
transposio de algarismos eliminou deles a substncia diablica. Que profundas
que so as molas da vida!

CAPTULO CXI / O
MURO

No sendo meu costume dissimular
ou esconder nada, contarei nesta pgina o caso do muro. Eles estavam prestes a
embarcar. Entrando em casa de D. Plcida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa;
era um bilhete de Virglia; dizia que me esperava  noite, na chcara, sem
falta. E conclua: O muro  baixo do lado do beco.

Fiz um gesto de desagrado. A carta
pareceu-me descomunalmente audaciosa, mal pensada e at ridcula. No era s
convidar o escndalo, era convid-lo de parceria com a risota. Imaginei-me a
saltar o muro, embora baixo e do lado do beco; e, quando ia a galg-lo, via-me
agarrado por um pedestre de polcia, que me levava ao corpo da guarda. O muro 
baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virglia no soube o que fez;
era possvel que j estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedao de
papel amarrotado, mas inflexvel. Tive comiches de o rasgar, em trinta mil
pedaos, e atir-los ao vento, como o ltimo despojo da minha aventura; mas
recuei a tempo; o amor-prprio, o vexame da fuga, a idia do medo... No havia
remdio seno ir.

 Diga-lhe que vou.

 Aonde? perguntou D. Plcida.

 Onde ela disse que me espera.

 No me disse nada.

 Neste papel.

D. Plcida arregalou os olhos: 
Mas esse papel, achei-o hoje de manh, nesta sua gaveta, e pensei que...

Tive uma sensao esquisita. Reli
o papel, mirei-o, remirei-o; era, em verdade, um antigo bilhete de Virglia,
recebido no comeo dos nossos amores, uma certa entrevista na chcara, que me
levou efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel
e... Tive uma sensao esquisita.

CAPTULO CXII / A
OPINIO

Mas estava escrito que esse dia
devia ser o dos lances dbios. Poucas horas depois, encontrei Lobo Neves, na Rua
do Ouvidor, falamos da presidncia e da poltica. Ele aproveitou o primeiro
conhecido que nos passou  ilharga, e deixou-me, depois de muitos cumprimentos.
Lembra-me que estava retrado, mas de um retraimento que forcejava por
dissimular. Pareceu-me ento (e peo perdo  crtica, se este meu juzo for
temerrio!), pareceu-me que ele tinha medo  no medo de mim, nem de si, nem do
cdigo, nem da conscincia; tinha medo da opinio. Supus que esse tribunal
annimo e invisvel, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto 
vontade do Lobo Neves. Talvez j no amasse a mulher; e, assim, pode ser que o
corao fosse estranho  indulgncia dos seus ltimos atos. Cuido (e de novo
insto pela boa vontade da crtica!) cuido que ele estaria pronto a separar-se da
mulher, como o leitor se ter separado de muitas relaes pessoais; mas a
opinio, essa opinio que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria
minucioso inqurito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as
circunstncias, antecedncias, indues, provas, que as relataria na palestra
das chcaras desocupadas, essa terrvel opinio, to curiosa das alcovas, obstou
 disperso da famlia. Ao mesmo tempo tornou impossvel o desforo, que seria a
divulgao. Ele no podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a
separao conjugal; teve ento de simular a mesma ignorncia de outrora, e, por
deduo, iguais sentimentos.

Que lhe custasse creio; naqueles
dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e 
outro ponto em que eu espero a indulgncia dos homens pensadores!), o tempo
caleja a sensibilidade, e oblitera a memria das coisas; era de supor que os
anos lhe despontassem os espinhos, que a distncia dos fatos apagasse os
respectivos contornos, que uma sombra de dvida retrospectiva cobrisse a nudez
da realidade; enfim, que a opinio se ocupasse um pouco com outras aventuras. O
filho, crescendo, buscaria satisfazer as ambies do pai; seria o herdeiro de
todos os seus afetos. Isso, e a atividade externa, e o prestgio pblico, e a
velhice depois, a doena, o declnio, a morte, um responso, uma notcia
biogrfica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pgina de sangue.

CAPTULO CXIII / A
SOLDA

A concluso, se h alguma no
captulo anterior,  que a opinio  uma boa solda das instituies domsticas.
No  impossvel que eu desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas
tambm no  impossvel que o deixe como est. De um ou de outro modo,  uma boa
solda a opinio, e tanto na ordem domstica, como na poltica. Alguns
metafsicos biliosos tm chegado ao extremo de a darem como simples produto da
gente chocha ou medocre; mas  evidente que, ainda quando um conceito to
extremado no trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os efeitos
salutares da opinio, para concluir que ela  a obra superfina da flor dos
homens, a saber, do maior nmero.

CAPTULO CXIV / FIM DE UM
DILOGO

 Sim,  amanh. Voc vai a bordo?

 Est doida?  impossvel.

 Ento, adeus!

 Adeus!

 No se esquea de D. Plcida. V
v-la algumas vezes. Coitada! Foi ontem despedir-se de ns; chorou muito, disse
que eu no a veria mais...  uma boa criatura, no ?

 Certamente.

 Se tivermos de escrever, ela
receber as cartas. Agora at daqui a...

 Talvez dois anos?

 Qual! ele diz que  s at fazer
as eleies.

 Sim? ento at breve. Olhe que
esto olhando para ns.

 Quem?

 Ali no sof. Separemo-nos.

 Custa-me muito.

 Mas  preciso; adeus, Virglia!

 At breve. Adeus!

CAPTULO CXV / O
ALMOO

No a vi partir; mas  hora
marcada senti alguma coisa que no era dor nem prazer, uma coisa mista, alvio e
saudade, tudo misturado, em iguais doses. No se irrite o leitor com esta
confisso. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer
um grande desespero, derramar algumas lgrimas, e no almoar. Seria romanesco;
mas no seria biogrfico. A realidade pura  que eu almocei, como nos demais
dias, acudindo ao corao com as lembranas da minha aventura, e ao estmago com
os acepipes de M. Prudhon...

...Velhos do meu tempo, acaso vos
lembrais desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia
o dono da casa, havia servido nos famosos Vry e Vfour, de Paris, e mais nos
palcios do Conde Mol e do Duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no
Rio de Janeiro com a polca... A polca, M. Prudhon, o Tivoli, o baile dos
estrangeiros, o Cassino, eis algumas das melhores recordaes daquele tempo; mas
sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.

Eram, e naquela manh parece que o
diabo do homem adivinhara a nossa catstrofe. Jamais o engenho e a arte lhe
foram to propcios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que
rebuscado de formas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. No guardei
a conta desse dia; sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar
magnificamente os meus amores. Eles l iam, mar em fora, no espao e no tempo, e
eu ficava-me ali numa ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos anos, to
vadios e to vazios; ficava-me para os no ver nunca mais, porque ela poderia
tornar e tornou, mas o eflvio da manh quem  que o pediu ao crepsculo da
tarde?

CAPTULO CXVI / FILOSOFIA DAS
FOLHAS VELHAS

Fiquei to triste com o fim do
ltimo captulo que estava capaz de no escrever este, descansar um pouco,
purgar o esprito da melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas no, no
quero perder tempo.

A partida de Virglia deu-me uma
amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em casa, a fisgar moscas, como
Domiciano, se no mente o Suetnio, mas a fisg-las de um modo particular: com
os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede,
com um livro aberto entre as mos. Era tudo: saudades, ambies, um pouco de
tdio, e muito devaneio solto. Meu tio cnego morreu nesse intervalo; item, dois
primos. No me dei por abalado: levei-os ao cemitrio, como quem leva dinheiro a
um banco. Que digo? como quem leva cartas ao correio: selei as cartas, meti-as
na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mo prpria. Foi
tambm por esse tempo que nasceu minha sobrinha Venncia, filha do Cotrim.
Morriam uns, nasciam outros: eu continuava s moscas.

Outras vezes agitava-me. Ia s
gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas,
(at as de Marcela), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o
pretrito... Leitor ignaro, se no guardas as cartas da juventude, no
conhecers um dia a filosofia das folhas velhas, no gostars o prazer de
ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapu de trs bicos, botas de sete lguas
e longas barbas assrias, a bailar ao som de uma gaita anacrentica. Guarda as
tuas cartas da juventude!

Ou, se te no apraz o chapu de
trs bicos, empregarei a locuo de um velho marujo, familiar da casa de Cotrim;
direi que, se guardares as cartas da juventude, achars ocasio de cantar uma
saudade. Parece que os nossos marujos do este nome s cantigas de terra,
entoadas no alto mar. Como expresso potica,  o que se pode exigir mais
triste.

CAPTULO CXVII / O
HUMANITISMO

Duas foras, porm, alm de uma
terceira, compeliam-me a tornar  vida agitada do costume: Sabina e Quincas
Borba. Minha irm encaminhou a candidatura conjugal de Nh-lol de um modo
verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moa quase nos
braos. Quanto ao Quincas Borba, exps-me enfim o Humanitismo, sistema de
filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas.

 Humanitas, dizia ele, o
princpio das coisas, no  outro seno o mesmo homem repartido por todos os
homens. Conta trs fases Humanitas: a esttica, anterior a toda a
criao; a expansiva, comeo das coisas; a dispersiva,
aparecimento do homem; e contar mais uma, a contrativa, absoro do
homem e das coisas. A expanso, iniciando o universo, sugeriu a Humanitas
o desejo de o gozar, e da a disperso, que no  mais do que a
multiplicao personificada da substncia original.

Como me no aparecesse assaz clara
esta exposio, Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar
as grandes linhas do sistema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo
ligava-se ao Bramanismo, a saber, na distribuio dos homens pelas diferentes
partes do corpo de Humanitas; mas aquilo que na religio indiana tinha apenas
uma estreita significao teolgica e poltica, era no Humanitismo a grande lei
do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto ,
ser um forte, no era o mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do
nariz. Da a necessidade de cultivar e temperar o msculo. Hrcules no foi
seno um smbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto Quincas Borba ponderou
que o paganismo poderia ter chegado  verdade, se se no houvesse amesquinhado
com a parte galante dos seus mitos. Nada disso acontecer com o Humanitismo.
Nesta igreja nova no h aventuras fceis, nem quedas, nem tristezas, nem
alegrias pueris. O amor, por exemplo,  um sacerdcio, a reproduo um ritual.
Como a vida  o maior benefcio do universo, e no h mendigo que no prefira a
misria  morte (o que  um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a
transmisso da vida, longe de ser uma ocasio de galanteio,  a hora suprema da
missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente h s uma desgraa:  no nascer.

 Imagina, por exemplo, que eu no
tinha nascido, continuou o Quincas Borba;  positivo que no teria agora o
prazer de conversar contigo, comer esta batata, ir ao teatro, e para tudo dizer
numa s palavra: viver. Nota que eu no fao do homem um simples veculo de
Humanitas; no, ele  ao mesmo tempo veculo, cocheiro e passageiro; ele  o
prprio Humanitas reduzido; da a necessidade de adorar-se a si prprio. Queres
uma prova da superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. No h moralista
grego ou turco, cristo ou muulmano, que no troveje contra o sentimento da
inveja. O acordo  universal, desde os campos da Idumia at o alto da Tijuca.
Ora bem; abre mo dos velhos preconceitos, esquece as retricas rafadas, e
estuda a inveja, esse sentimento to sutil e to nobre. Sendo cada homem uma
reduo de Humanitas,  claro que nenhum homem  fundamentalmente oposto a outro
homem, quaisquer que sejam as aparncias contrrias. Assim, por exemplo, o algoz
que executa o condenado pode excitar o vo clamor dos poetas; mas
substancialmente  Humanitas que corrige em Humanitas uma infrao da lei de
Humanitas. O mesmo direi do indivduo que estripa a outro;  uma manifestao da
fora de Humanitas. Nada obsta (e h exemplos) que ele seja igualmente
estripado. Se entendeste bem, facilmente compreenders que a inveja no  seno
uma admirao que luta, e sendo a luta a grande funo do gnero humano, todos
os sentimentos belicosos so os mais adequados  sua felicidade. Da vem que a
inveja  uma virtude.

Para que neg-lo? eu estava
estupefato. A clareza da exposio, a lgica dos princpios, o rigor das
conseqncias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso
suspender a conversa por alguns minutos, enquanto digeria a filosofia nova.
Quincas Borba mal podia encobrir a satisfao do triunfo. Tinha uma asa de
frango no prato, e trincava-a com filosfica serenidade. Eu fiz-lhe ainda
algumas objees, mas to frouxas, que ele no gastou muito tempo em
destru-las.

 Para entender bem o meu sistema,
concluiu ele, importa no esquecer nunca o princpio universal, repartido e
resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade,  uma
operao conveniente, como se dissssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a
fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome  uma prova a que
Humanitas submete a prpria vscera. Mas eu no quero outro documento da
sublimidade do meu sistema, seno este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi
plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano,
cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construdo de madeira cortada
no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens
teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho nutico. Assim, este
frango, que eu almocei agora mesmo,  o resultado de uma multido de esforos e
lutas, executados com o nico fim de dar mate ao meu apetite.

Entre o queijo e o caf,
demonstrou-me Quincas Borba que o seu sistema era a destruio da dor. A dor,
segundo o Humanitismo,  uma pura iluso. Quando a criana  ameaada por um
pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa
predisposio,  que constitui a base da iluso humana, herdada e
transmitida. No basta certamente a adoo do sistema para acabar logo com a
dor, mas  indispensvel; o resto  a natural evoluo das coisas. Uma vez que o
homem se compenetre bem de que ele  o prprio Humanitas, no tem mais do que
remontar o pensamento  substncia original para obstar qualquer sensao
dolorosa. A evoluo, porm,  to profunda, que mal se lhe podem assinar alguns
milhares de anos.

Quincas Borba leu-me da a dias a
sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem pginas cada um, com
letra mida e citaes latinas. O ltimo volume compunha-se de um tratado
poltico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema,
posto que concebida com um formidvel rigor de lgica. Reorganizada a sociedade
pelo mtodo dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreio, o
simples murro, a facada annima, a misria, a fome, as doenas; mas sendo esses
supostos flagelos verdadeiros equvocos do entendimento, porque no passariam de
movimentos externos da substncia interior, destinados a no influir sobre o
homem, seno como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua
existncia no impediria a felicidade humana. Mas ainda quando tais flagelos (o
que era radicalmente falso) correspondessem no futuro  concepo acanhada de
antigos tempos, nem por isso ficava destrudo o sistema, e por dois motivos: 1.
porque sendo Humanitas a substncia criadora e absoluta, cada indivduo deveria
achar a maior delcia do mundo em sacrificar-se ao princpio de que descende;
2. porque, ainda assim, no diminuiria o poder espiritual do homem sobre a
Terra, inventada unicamente para seu recreio dele, como as estrelas, as brisas,
as tmaras e o ruibarbo. Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, no era to
tolo como o pintou Voltaire.

CAPTULO CXVIII / A TERCEIRA
FORA

A terceira fora que me chamava ao
bulcio era o gosto de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver s. A
multido atraa-me, o aplauso namorava-me. Se a idia do emplasto me tem
aparecido nesse tempo, quem sabe? no teria morrido logo e estaria clebre. Mas
o emplasto no veio. Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa, com alguma
coisa e por alguma coisa.

CAPTULO CXIX /
PARNTESES

Quero deixar aqui, entre
parntesis, meia dzia de mximas das muitas que escrevi por esse tempo. So
bocejos de enfado; podem servir de epgrafe a discursos sem assunto:

* * *

Suporta-se com pacincia a clica
do prximo.

* * *

Matamos o tempo; o tempo nos
enterra.

* * *

Um cocheiro filsofo costumava
dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

* * *

Cr em ti; mas nem sempre duvides
dos outros.

* * *

No se compreende que um botocudo
fure o beio para enfeit-lo com um pedao de pau. Esta reflexo  de um
joalheiro.

* * *

No te irrites se te pagarem mal
um benefcio: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.

CAPTULO CXX / COMPELLE
INTRARE

 No, senhor, agora quer voc
queira, quer no, h de casar, disse-me Sabina. Que belo futuro! Um solteiro
sem filhos.

Sem filhos! A idia de ter filhos
deu-me um sobressalto; percorreu-me outra vez o fluido misterioso. Sim, cumpria
ser pai. A vida celibata podia ter certas vantagens prprias, mas seriam tnues,
e compradas a troco da solido. Sem filhos! No; impossvel. Dispus-me a aceitar
tudo, ainda a aliana do Damasceno. Sem filhos! Como j ento depositasse grande
confiana em Quincas Borba, fui ter com ele e expus-lhe os movimentos internos
da minha paternidade. O filsofo ouviu-me com alvoroo; declarou-me que
Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento, ponderou que eram mais
alguns convivas que batiam  porta, etc. Compelle intrare, como dizia
Jesus. E no me deixou sem provar que o aplogo evanglico no era mais do que
um prenncio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.

CAPTULO CXXI / MORRO
ABAIXO

No fim de trs meses, ia tudo 
maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moa, os desejos do pai, eram outros
tantos impulsos que me levavam ao matrimnio. A lembrana de Virglia aparecia
de quando em quando,  porta, e com ela um diabo negro que me metia  cara um
espelho, no qual eu via ao longe Virglia desfeita em lgrimas; mas outro diabo
vinha, cor-de-rosa, com outro espelho, em que se refletia a figura de Nh-lol,
terna, luminosa, anglica.

No falo dos anos. No os sentia;
acrescentarei at que os deitara fora, certo domingo, em que fui  missa na
capela do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os
muitas vezes  missa. O morro estava ainda nu de habitaes, salvo o velho
palacete do alto, onde era a capela. Pois um domingo, ao descer com Nh-lol
pelo brao, no sei que fenmeno se deu que fui deixando aqui dois anos, ali
quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com
vinte anos apenas, to lpidos como tinham sido.

Agora, se querem saber em que
circunstncia se deu o fenmeno, basta-lhes ler este captulo at o fim.
Vnhamos da missa, ela, o pai e eu. No meio do morro achamos um grupo de homens.
Damasceno, que vinha ao p de ns, percebeu o que era e adiantou-se alvoroado;
ns fomos atrs dele. E vimos isto: homens de todas as idades, tamanhos e cores,
uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros metidos em sobrecasacas
esfrangalhadas; atitudes diversas, uns de ccaras, outros com as mos apoiadas
nos joelhos, estes sentados em pedras, aqueles encostados ao muro, e todos com
os olhos fixos no centro, e as almas debruadas das pupilas.

 Que ? perguntou-me Nh-lol.

Fiz-lhe sinal que se calasse; abri
sutilmente caminho, e todos me foram cedendo espao, sem que positivamente
ningum me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de galos. Vi
os dois contendores, dois galos de esporo agudo, olho de fogo e bico afiado.
Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava desplumado
e rubro; invadia-os o cansao. Mas lutavam ainda assim, olhos fitos nos olhos,
bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquele, vibrantes e raivosos.
Damasceno no sabia mais nada; o espetculo eliminou para ele todo o universo.
Em vo lhe disse que era tempo de descer; ele no respondia, no ouvia,
concentrara-se no duelo. A briga de galos era uma de suas paixes.

Foi nessa ocasio que Nh-lol me
puxou brandamente pelo brao, dizendo que nos fssemos embora. Aceitei o
conselho e vim com ela por ali abaixo. J disse que o morro era ento
desabitado; disse-lhes tambm que vnhamos da missa, e no lhes tendo dito que
chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. To forte que
eu abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo
que ajuntei uma pgina  filosofia do Quincas Borba: Humanitas osculou
Humanitas... Foi assim que os anos me vieram caindo pelo morro abaixo.

Ao sop detivemo-nos alguns
minutos,  espera de Damasceno; ele veio da a pouco rodeado dos apostadores, a
comentar com eles a briga. Um destes, tesoureiro das apostas, distribua um
velho mao de notas de dez tostes, que os vencedores recebiam duplamente
alegres. Quanto aos galos vinham sobraados pelo respectivo dono. Um deles
trazia a crista to comida e ensangentada, que vi logo nele o vencido; mas era
engano,  o vencido era o outro, que no trazia crista nenhuma. Ambos tinham o
bico aberto, respirando a custo, esfalfados. Os apostadores, ao contrrio,
vinham alegres, sem embargo das fortes comoes da luta; biografavam os
contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nh-lol
vexadssima.

CAPTULO CXXII / UMA INTENO
MUITO FINA

O que vexava a Nh-lol era o pai.
A facilidade com que ele se metera com os apostadores punha em relevo antigos
costumes e afinidades sociais, e Nh-lol chegara a temer que tal sogro me
parecesse indigno. Era notvel a diferena que ela fazia de si mesma;
estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida atraa-a, principalmente
porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nh-lol
observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao esforo de mascarar a
inferioridade da famlia. Naquele dia, porm, a manifestao do pai foi tamanha
que a entristeceu grandemente. Eu busquei ento diverti-la do assunto,
dizendo-lhe muitas chanas e motes de bom-tom; vos esforos, que no a
alegravam mais. Era to profundo o abatimento, to expressivo o desnimo, que
cheguei a atribuir a Nh-lol a inteno positiva de separar, no meu esprito, a
sua causa da causa do pai. Este sentimento pareceu-me de grande elevao; era
uma afinidade mais entre ns.

 No h remdio, disse eu comigo,
vou arrancar esta flor a este pntano.

CAPTULO CXXIII / O VERDADEIRO
COTRIM

No obstante os meus quarenta e
tantos anos, como eu amasse a harmonia da famlia, entendi no tratar o
casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Ele ouviu-me e respondeu-me seriamente
que no tinha opinio em negcio de parentes seus. Podiam supor-lhe algum
interesse, se acaso louvasse as raras prendas de Nh-lol; por isso calava-se.
Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixo, mas se
ela o consultasse, o seu conselho seria negativo. No era levado por nenhum
dio; apreciava as minhas boas qualidades,  no se fartava de as elogiar, como
era de justia; e pelo que respeita a Nh-lol, no chegaria jamais a negar que
era noiva excelente; mas da a aconselhar o casamento ia um abismo.

 Lavo inteiramente as mos,
concluiu ele.

 Mas voc achava outro dia que eu
devia casar quanto antes...

 Isso  outro negcio. Acho que 
indispensvel casar, principalmente tendo ambies polticas. Saiba que na
poltica o celibato  uma remora. Agora, quanto  noiva, no posso ter voto, no
quero, no devo, no  de minha honra. Parece-me que Sabina foi alm,
fazendo-lhe certas confidncias, segundo me disse; mas em todo caso ela no 
tia carnal de Nh-lol, como eu. Olhe... mas no... no digo...

 Diga.

 No; no digo nada.

Talvez parea excessivo o
escrpulo do Cotrim, a quem no souber que ele possua um carter ferozmente
honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao
inventrio de meu pai. Reconheo que era um modelo. Argiam-no de avareza, e
cuide que tinham razo; mas a avareza  apenas a exagerao de uma virtude e as
virtudes devem ser como os oramentos: melhor  o saldo que o deficit.
Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acus-lo de
brbaro. O nico fato alegado neste particular era o de mandar com freqncia
escravos ao calabouo, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, alm de que
ele s mandava os perversos e os fujes, ocorre que, tendo longamente
contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais
duro que esse gnero de negcio requeria, e no se pode honestamente atribuir 
ndole original de um homem o que  puro efeito de relaes sociais. A prova de
que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na
dor que padeceu quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutvel,
acho eu, e no nica. Era tesoureiro de uma confraria, e irmo de vrias
irmandades, e at irmo remido de uma destas, o que no se coaduna muito com a
reputao da avareza; verdade  que o benefcio no cara no cho: a irmandade
(de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a leo. No era perfeito,
decerto; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornais a notcia de um
ou outro benefcio que praticava,  sestro repreensvel ou no louvvel,
concordo; mas ele desculpava-se dizendo que as boas aes eram contagiosas,
quando pblicas; razo a que se no pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto
fao o seu maior elogio) que ele no praticava, de quando em quando, esses
benefcios seno com o fim de espertar a filantropia dos outros; e se tal era o
intuito, fora  confessar que a publicidade tornava-se uma condio sine qua
non. Em suma, poderia dever algumas atenes, mas no devia um real a
ningum.

CAPTULO CXXIV / V DE
INTERMDIO

Que h entre a vida e a morte? Uma
curta ponte. No obstante, se eu no compusesse este captulo, padeceria o
leitor um forte abalo, assaz danoso ao efeito do livro. Saltar de um retrato a
um epitfio, pode ser real e comum; o leitor, entretanto, no se refugia no
livro, seno para escapar  vida. No digo que este pensamento seja meu; digo
que h nele uma dose de verdade, e que, ao menos, a forma  pinturesca. E
repito: no  meu.

CAPTULO CXXV /
EPITFIO

________________________

AQUI JAZ

D. EULLIA DAMASCENA DE
BRITO

MORTA

AOS DEZENOVE ANOS DE
IDADE

ORAI POR
ELA!

________________________

CAPTULO CXXVI /
DESCONSOLAO

O epitfio diz tudo. Vale mais do
que se lhes narrasse a molstia de Nh-lol, a morte, o desespero da famlia, o
enterro. Ficam sabendo que morreu; acrescentarei que foi por ocasio da primeira
entrada da febre amarela. No digo mais nada, a no ser que a acompanhei at o
ltimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lgrimas. Conclu que talvez no a
amasse deveras.

Vejam agora a que excessos pode
levar uma inadvertncia; doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando 
direita e  esquerda, levou tambm uma jovem dama, que tinha de ser minha
mulher; no cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela
morte. Creio at que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras
mortes. Quincas Borba, porm, explicou-me que epidemias eram teis  espcie,
embora desastrosas para uma certa poro de indivduos; fez-me notar que, por
mais horrendo que fosse o espetculo, havia uma vantagem de muito peso: a
sobrevivncia do maior nmero. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral,
no sentia eu algum secreto encanto em ter escapado s garras da peste; mas esta
pergunta era to insensata, que ficou sem resposta.

Se no contei a morte, no conto
igualmente a missa do stimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse
pobre homem parecia uma runa. Quinze dias depois estive com ele; continuava
inconsolvel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora ainda
aumentada com a que lhe infligiram os homens. No me disse mais nada. Trs
semanas depois tornou ao assunto, e ento confessou-me que, no meio do desastre
irreparvel, quisera ter a consolao da presena dos amigos. Doze pessoas
apenas, e trs quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam  cova o cadver de
sua querida filha. E ele fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as
perdas eram to gerais que bem se podia desculpar essa desateno aparente.
Damasceno abanava a cabea de um modo incrdulo e triste.

 Qual! gemia ele,
desampararam-me.

Cotrim, que estava presente:

 Vieram os que deveras se
interessam por voc e por ns. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da
inrcia do governo, das panacias dos boticrios, do preo das casas, ou uns dos
outros...

Damasceno ouviu calado, abanou
outra vez a cabea, e suspirou:

 Mas viessem!

CAPTULO CXXVII /
FORMALIDADE

Grande coisa  haver recebido do
cu uma partcula da sabedoria, o dom de achar as relaes das coisas, a
faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distino
psquica; eu a agradeo ainda agora do fundo do meu sepulcro.

De fato, o homem vulgar que
ouvisse a ltima palavra do Damasceno no se lembraria dela, quando, tempos
depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois
eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla,  modernas,  em trajos de
rua, cara tapada, no com um espesso pano que as cobrisse deveras, mas com um
vu tenussimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade
descobria a cara inteira. E eu achei graa a essa esperteza da faceirice
muulmana, que assim esconde o rosto,  e cumpre o uso,  mas no o esconde,  e
divulga a beleza. Aparentemente, nada h entre as damas turcas e o Damasceno;
mas se tu s um esprito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues
isso), compreenders que, tanto num como noutro caso, surge a a orelha de uma
rgida e meiga companheira do homem social...

Amvel Formalidade, tu s, sim, o
bordo da vida, o blsamo dos coraes, a medianeira entre os homens, o vnculo
da Terra e do Cu; tu enxugas as lgrimas de um pai, tu captas a indulgncia de
um Profeta. Se a dor adormece, e a conscincia se acomoda, a quem, seno a ti,
devem esse imenso benefcio? A estima que passa de chapu na cabea no diz nada
 alma; mas a indiferena que corteja deixa-lhe uma deleitosa impresso. A razo
 que, ao contrrio de uma velha frmula absurda, no  a letra que mata; a
letra d vida; o esprito  que  objeto de controvrsia, de dvida, de
interpretao e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amvel
Formalidade, para sossego do Damasceno e glria de Muamede.

CAPTULO CXXVIII / NA
CMARA

E notai bem que eu vi a gravura
turca, dois anos depois das palavras de Damasceno, e vi-a na Cmara dos
Deputados, em meio de grande burburinho, enquanto um deputado discutia um
parecer da comisso do oramento, sendo eu tambm deputado. Para quem h lido
este livro  escusado encarecer a minha satisfao, e para os outros 
igualmente intil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha
cadeira, entre um colega, que contava uma anedota, e outro, que tirava a lpis,
nas costas de uma sobrecarta, o perfil de orador. O orador era o Lobo Neves. A
onda da vida trouxe-nos  mesma praia, como duas botelhas de nufragos, ele
contendo o seu ressentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprego esta
forma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que
efetivamente no continha nada, a no ser a ambio de ser ministro.

CAPTULO CXXIX / SEM
REMORSOS

No tinha remorsos. Se possusse
os aparelhos prprios, inclua neste livro uma pgina de qumica, porque havia
de decompor o remorso at os mais simples elementos, com o fim de saber de um
modo positivo e concludente por que razo Aquiles passeia  roda de Tria o
cadver do adversrio, e lady Macbeth passeia  volta da sala a sua
mancha de sangue. Mas eu no tenho aparelhos qumicos, como no tinha remorsos;
tinha vontade de ser ministro de Estado. Contudo, se hei de acabar este
captulo, direi que no quisera ser Aquiles nem lady Macbeth; e que, a
ser alguma coisa, antes Aquiles, antes passear ovante o cadver do que a mancha;
ouvem-se no fim as splicas de Pramo, e ganha-se uma bonita reputao militar e
literria. Eu no ouvia as splicas de Pramo, mas o discurso do Lobo Neves, e
no tinha remorsos.

CAPTULO CXXX / PARA INTERCALAR
NO CAP. CXXIX

A primeira vez que pude falar a
Virglia, depois da presidncia, foi num baile em 1855. Trazia um soberbo
vestido de gorgoro azul, e ostentava s luzes o mesmo par de ombros de outro
tempo. No era a frescura da primeira idade; ao contrrio; mas ainda estava
formosa, de uma formosura outonia, realada pela noite. Lembra-me que falamos
muito, sem aludir a coisa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito
remoto, vago, ou ento um olhar, e mais nada. Pouco depois retirou-se; eu fui
v-la descer as escadas, e no sei por que fenmeno de ventriloquismo cerebral
(perdoem-me os fillogos essa frase brbara) murmurei comigo esta palavra
profundamente retrospectiva:

Magnfica!

Convm intercalar este captulo
entre a primeira orao e a segunda do captulo CXXIX.

CAPTULO CXXXI / DE UMA
CALNIA

Como eu acabava de dizer aquilo,
pelo processo ventrloquo-cerebral,  o que era simples opinio e no remorso, 
senti que algum me punha a mo no ombro. Voltei-me; era um antigo companheiro,
oficial de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Ele sorriu
maliciosamente, e disse-me:

 Seu magano! Recordaes do
passado, hein?

 Viva o passado!

 Voc naturalmente foi
reintegrado no emprego.

 Salta, pelintra! disse eu,
ameaando-o com o dedo.

Confesso que este dilogo era uma
indiscrio,  principalmente a ltima rplica. E com tanto maior prazer o
confesso, quanto que as mulheres  que tm fama de indiscretas, e no quero
acabar o livro sem retificar essa noo do esprito humano. Em pontos de
aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio,
monossilbico, etc., ao passo que as parceiras no davam por si, e jurariam aos
Santos Evangelhos que era tudo uma calnia. A razo desta diferena  que a
mulher (salva a hiptese do captulo CI e outras) entrega-se por amor, ou seja o
amor-paixo de Stendhal, ou o puramente fsico de algumas damas romanas, por
exemplo, ou polinsias, lapnias, cafres, e pode ser que outras raas
civilizadas; mas o homem,  falo do homem de uma sociedade culta e elegante,  o
homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Alm disso (e refiro-me sempre
aos casos defesos), a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um
dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia;
ao passo que o homem, sentindo-se causa da infrao e vencedor de outro homem,
fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos rspido e
menos secreto,  essa boa fatuidade, que  a transpirao luminosa do mrito.

Mas seja ou no verdadeira a minha
explicao, basta-me deixar escrito nesta pgina, para uso dos sculos, que a
indiscrio das mulheres  uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo
menos, elas so um verdadeiro sepulcro. Perdem-se muita vez por desastradas, por
inquietas, por no saberem resistir aos gestos, aos olhares; e  por isso que
uma grande dama e fino esprito, a rainha de Navarra, empregou algures esta
metfora para dizer que toda a aventura amorosa vinha descobrir-se por fora,
mais tarde ou mais cedo: No h cachorrinho to adestrado, que alfim lhe no
ouamos o latir.

CAPTULO CXXXII / QUE NO 
SRIO

Citando o dito da rainha de
Navarra, ocorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa v outra pessoa
arrufada, costuma perguntar-lhe: Gentes, quem matou seus cachorrinhos? como se
dissesse:  quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc. Mas este
captulo no  srio.

CAPTULO CXXXIII / O PRINCPIO
DE HELVETIUS

Estvamos no ponto em que o
oficial de marinha me arrancou a confisso dos amores de Virglia, e aqui emendo
eu o princpio de Helvetius,  ou, por outra, explico-o. O meu interesse era
calar; confirmar a suspeita de uma coisa antiga fora provocar algum dio
sopitado, dar origem a um escndalo, quando menos adquirir a reputao de
indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o princpio de Helvetius de um
modo superficial, isso  o que devia ter feito. Mas eu j dei o motivo da
indiscrio masculina: antes daquele interesse de segurana, havia outro,
o do desvanecimento, que  mais ntimo, mais imediato: o primeiro era
reflexivo, supunha um silogismo anterior; o segundo era espontneo, instintivo,
vinha das entranhas do sujeito; finalmente, o primeiro tinha o efeito remoto, o
segundo prximo. Concluso: o princpio de Helvetius  verdadeiro no meu caso; 
a diferena  que no era o interesse aparente, mas o recndito.

CAPTULO CXXXIV / CINQENTA
ANOS

No lhes disse ainda,  mas digo-o
agora,  que quando Virglia descia a escada, e o oficial de marinha me tocava
no ombro, tinha eu cinqenta anos. Era portanto a minha vida que descia pela
escada abaixo,  ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de
agitaes, de sustos,  capeada de dissimulao e duplicidade,  mas enfim a
melhor, se devemos falar a linguagem usual. Se, porm, empregarmos outra mais
sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas
poucas pginas deste livro.

Cinqenta anos! No era preciso
confess-lo. J se vai sentindo que o meu estilo no  to lesto como nos
primeiros dias. Naquela ocasio, cessado o dilogo com o oficial de marinha, que
enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei  sala,
lembrou-me danar uma polca, embriagar-me das luzes, das flores, dos cristais,
dos olhos bonitos, e do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E
no me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, s
quatro da manh, o que  que fui achar no fundo do carro? Os meus cinqenta
anos. L estavam eles os teimosos, no tolhidos de frio, nem reumticos,  mas
cochilando a sua fadiga, um pouco cobiosos de cama e de repouso. Ento,  e
vejam at que ponto pode ir a imaginao de um homem, com sono,  ento
pareceu-me ouvir de um morcego escarapitado no tejadilho: Sr. Brs Cubas, a
rejuvenescncia estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas,  enfim, nos
outros.

CAPTULO CXXXV /
OBLIVION

E agora sinto que, se alguma dama
tem seguido estas pginas, fecha o livro e no l as restantes. Para ela
extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinqenta anos! No 
ainda a invalidez, mas j no  a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o
que um ingls dizia, entenderei que coisa  no achar j quem se lembre de meus
pais, e de que modo me h de encarar o prprio ESQUECIMENTO.

Vai em versaletes esse nome.
OBLIVION! Justo  que se dem todas as honras a um personagem to desprezado e
to digno, conviva da ltima hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora
do atual reinado, e mais dolorosamente a que ostentou suas graas em flor sob o
ministrio Paran, porque esta acha-se mais perto do triunfo, e sente j que
outras lhe tomaram o carro. Ento, se  digna de si mesma, no teima em espertar
a lembrana morta ou expirante; no busca no olhar de hoje a mesma saudao do
olhar de ontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma
alegre e p veloz. Tempora mutantur. Compreende que este turbilho 
assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem exceo nem
piedade; e se tiver um pouco de filosofia, no inveja, mas lastima as que lhe
tomaram o carro, porque tambm elas ho de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION.
Espetculo, cujo fim  divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.

CAPTULO CXXXVI /
INUTlLIDADE

Mas, ou muito me engano, ou acabo
de escrever um captulo intil.

CAPTULO CXXXVII / A
BARRETINA

E da, no; ele resume as
reflexes que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, acrescentando que me sentia
acabrunhado, e mil outras coisas tristes. Mas esse filsofo, com o elevado tino
de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da
melancolia.

 Meu caro Brs Cubas, no te
deixes vencer desses vapores. Que diacho!  preciso ser homem! ser forte! lutar!
vencer! brilhar! influir! dominar! Cinqenta anos  a idade da cincia e do
governo. nimo, Brs Cubas; no me sejas palerma. Que tens tu com essa sucesso
de runa a runa ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que
a pior filosofia  a do choramigas que se deita  margem do rio para o fim de
lastimar o curso incessante das guas. O ofcio delas  no parar nunca;
acomoda-te com a lei, e trata de aproveit-la.

V-se nas menores coisas o que
vale a autoridade de um grande filsofo. As palavras do Quincas Borba tiveram o
condo de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos l; faamo-nos
governo,  tempo. Eu no havia intervindo at ento nos grandes debates.
Cortejava a pasta por meio de rapaps, chs, comisses e votos; e a pasta no
vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.

Comecei devagar. Trs dias depois,
discutindo-se o oramento da justia, aproveitei o ensejo para perguntar
modestamente ao ministro se no julgava til diminuir a barretina da guarda
nacional. No tinha vasto alcance o objeto da pergunta; mas ainda assim
demonstrei que no era indigno das cogitaes de um homem de Estado; e citei
Filopmen, que ordenou a substituio dos broquis de suas tropas, que eram
pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanas, que eram demasiado leves;
fato que a histria no achou que desmentisse a gravidade de suas pginas. O
tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo, no s por serem
deselegantes, mas tambm por serem anti-higinicas. Nas paradas, ao sol, o
excesso de calor produzido por elas podia ser fatal. Sendo certo que um dos
preceitos de Hipcrates era trazer a cabea fresca, parecia cruel obrigar um
cidado, por simples considerao de uniforme, a arriscar a sade e a vida, e
conseqentemente o futuro da famlia. A Cmara e o governo deviam lembrar-se que
a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independncia, e que o
cidado, chamado a um servio gratuito, freqente e penoso, tinha direito a que
se lhe diminusse o nus, decretando um uniforme leve e maneiro. Acrescia que a
barretina, por seu peso, abatia a cabea dos cidados, e a ptria precisava de
cidados cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e
conclu com esta idia: O choro, que inclina os seus galhos para a terra, 
rvore de cemitrio; a palmeira, ereta e firme,  rvore do deserto, das praas
e dos jardins.

Vria foi a impresso deste
discurso. Quanto  forma, ao rapto eloqente,  parte literria e filosfica, a
opinio foi s uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina
ningum ainda conseguira tirar tantas idias. Mas a parte poltica foi
considerada por muitos deplorvel; alguns achavam o meu discurso um desastre
parlamentar; enfim, vieram dizer-me que outros me davam j em oposio, entrando
nesse nmero os oposicionistas da Cmara, que chegaram a insinuar a convenincia
de uma moo de desconfiana. Repeli energicamente tal interpretao, que no
era s errnea, mas caluniosa,  vista da notoriedade com que eu sustentava o
gabinete; acrescentei que a necessidade de diminuir a barretina no era tamanha
que no pudesse esperar alguns anos; e que, em todo caso, eu transigiria na
extenso do corte, contentando-me com trs quartos de polegada ou menos; enfim,
dado mesmo que a minha idia no fosse adotada, bastava-me t-la iniciado no
parlamento.

Quincas Borba, porm, no fez
restrio alguma. No sou homem poltico, disse-me ele ao jantar; no sei se
andaste bem ou mal; sei que fizeste um excelente discurso. E ento notou as
partes mais salientes, as belas imagens, os argumentos fortes, com esse
comedimento de louvor que to bem fica a um grande filsofo; depois, tomou o
assunto  sua conta, e impugnou a barretina com tal fora, com tamanha lucidez,
que acabou convencendo-me efetivamente do seu perigo.

CAPTULO CXXXVIII / A UM
CRTICO

Meu caro crtico,

Algumas pginas atrs, dizendo eu
que tinha cinqenta anos, acrescentei: J se vai sentindo que o meu estilo no
 to lesto como nos primeiros dias. Talvez aches esta frase incompreensvel,
sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua ateno para a sutileza
daquele pensamento. O que eu quero dizer no  que esteja agora mais velho do
que quando comecei o livro. A morte no envelhece. Quero dizer, sim, que em cada
fase da narrao da minha vida experimento a sensao correspondente. Valha-me
Deus!  preciso explicar tudo.

CAPTULO CXXXIX / DE COMO NO
FUI MINISTRO DESTADO

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CAPTULO CXL / QUE EXPLICA O
ANTERIOR

H coisas que melhor se dizem
calando; tal  a matria do captulo anterior. Podem entend-lo os ambiciosos
malogrados. Se a paixo do poder  a mais forte de todas, como alguns inculcam,
imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da
Cmara dos Deputados. Iam-se-me as esperanas todas; terminava a carreira
poltica. E notem que o Quincas Borba, por indues filosficas que fez, achou
que a minha ambio no era a paixo verdadeira do poder, mas um capricho, um
desejo de folgar. Na opinio dele, este sentimento, no sendo mais profundo que
o outro, amofina muito mais, porque ora pelo amor que as mulheres tm s rendas
e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava ele, por isso mesmo que os
queima a paixo do poder, l chegam  fina fora ou pela escada da direita, ou
pela da esquerda. No era assim o meu sentimento; este, no tendo em si a mesma
fora, no tem a mesma certeza do resultado; e da a maior aflio, o maior
desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo...

 Vai para o diabo com o teu
Humanitismo, interrompi-o; estou farto de filosofias que me no levam a coisa
nenhuma.

A dureza da interrupo,
tratando-se de tamanho filsofo, equivalia a um desacato; mas ele prprio
desculpou a irritao com que lhe falei. Trouxeram-nos caf; era uma hora da
tarde, estvamos na minha sala de estudo, uma bela sala, que dava para o fundo
da chcara, bons livros, objetos d'arte, um Voltaire entre eles, um Voltaire de
bronze, que nessa ocasio parecia acentuar o risinho de sarcasmo, com que me
olhava, o ladro; cadeiras excelentes; fora, o sol, um grande sol, que o Quincas
Borba, no sei se por chalaa ou poesia, chamou um dos ministros da natureza;
corria um vento fresco, o cu estava azul. De cada janela,  eram trs  pendia
uma gaiola com pssaros, que chilreavam as suas peras rsticas. Tudo tinha a
aparncia de uma conspirao das coisas contra o homem: e, conquanto eu
estivesse na minha sala, olhando para a minha chcara, sentado na
minha cadeira, ouvindo os meus pssaros, ao p dos meus
livros, alumiado pelo meu sol, no chegava a curar-me das saudades
daquela outra cadeira, que no era minha.

CAPTULO CXLI / OS
CES

 Mas, enfim,, que pretendes fazer
agora? perguntou-me Quincas Borba, indo pr a xcara vazia no parapeito de uma
das janelas.

 No sei; vou meter-me na Tijuca;
fugir aos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba,
tantos sonhos, e no sou nada.

 Nada! interrompeu-me Quincas
Borba com um gesto de indignao.

Para distrair-me, convidou-me a
sair; samos para os lados do Engenho Velho. amos a p, filosofando as coisas.
Nunca me h de esquecer o benefcio desse passeio. A palavra daquele grande
homem era o cordial da sabedoria. Disse-me ele que eu no podia fugir ao
combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma
expresso menos elevada, mostrando assim que a lngua filosfica podia, uma ou
outra vez, retemperar-se no calo do povo. Funda um jornal, disse-me ele, e
desmancha toda esta igrejinha.

 Magnfica idia! Vou fundar um
jornal, vou escach-los, vou...

 Lutar. Podes escach-los ou no;
o essencial  que lutes. Vida  luta. Vida sem luta  um mar morto no centro do
organismo universal.

Da a pouco demos com uma briga de
ces; fato que aos olhos de um homem vulgar no teria valor. Quincas Borba
fez-me parar e observar os ces. Eram dois. Notou que ao p deles estava um
osso, motivo da guerra, e no deixou de chamar a minha ateno para a
circunstncia de que o osso no tinha carne. Um simples osso nu. Os ces
mordiam-se, rosnavam, com o furor nos olhos... Quincas Borba meteu a bengala
debaixo do brao, e parecia em xtase.

 Que belo que isto ! dizia ele
de quando em quando.

Quis arranc-lo dali, mas no
pude; ele estava arraigado ao cho, e s continuou a andar, quando a briga
cessou inteiramente, e um dos ces, mordido e vencido, foi levar a sua fome a
outra parte. Notei que ficara sinceramente alegre, posto contivesse a alegria,
segundo convinha a um grande filsofo. Fez-me observar a beleza do espetculo,
relembrou o objeto da luta, concluiu que os ces tinham fome; mas a privao do
alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia. Nem deixou de recordar
que em algumas partes do globo o espetculo mais  grandioso: as criaturas
humanas  que disputam aos ces os ossos e outros manjares menos apetecveis;
luta que se complica muito, porque entra em ao a inteligncia do homem, com
todo o acmulo de sagacidade que lhe deram os sculos, etc.

CAPTULO CXLII / O PEDIDO
SECRETO

Quanta coisa num minuete! como
dizia o outro. Quanta coisa numa briga de ces! Mas eu no era um discpulo
servil ou medroso, que deixasse de fazer uma ou outra objeo adequada. Andando,
disse-lhe que tinha uma dvida; no estava bem certo da vantagem de disputar a
comida aos ces. Ele respondeu-me com excepcional brandura:

 Disput-la aos outros homens 
mais lgico, porque a condio dos contendores  a mesma, e leva o osso o que
for mais forte. Mas por que no ser um espetculo grandioso disput-lo aos
ces? Voluntariamente, comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou coisa pior,
como Ezequiel; logo, o ruim  comvel; resta saber se  mais digno do homem
disput-lo, por virtude de uma necessidade natural, ou preferi-lo, para obedecer
a uma exaltao religiosa, isto , modificvel, ao passo que a fome  eterna,
como a vida e como a morte.

Estvamos  porta de casa;
deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma senhora. Entramos, e o Quincas
Borba, com a discrio prpria de um filsofo, foi ler a lombada dos livros de
uma estante, enquanto eu lia a carta, que era de Virglia:

Meu bom amigo,

D. Plcida est muito mal.
Peo-lhe o favor de fazer alguma coisa por ela; mora no Beco das Escadinhas;
veja se alcana met-la na Misericrdia.

Sua amiga sincera,

No era a letra fina e correta de
Virglia, mas grossa e desigual; o V da assinatura no passava de um rabisco sem
inteno alfabtica; de maneira que, se a carta aparecesse, era muito difcil
atribuir-lhe a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Plcida! Mas eu
tinha-lhe deixado os cinco contos da praia de Botafogo, e no podia compreender
que...

 Vais compreender, disse Quincas
Borba, tirando um livro da estante.

 O qu? perguntei espantado.

 Vais compreender que eu s te
disse a verdade. Pascal  um dos meus avs espirituais; e, conquanto a minha
filosofia valha mais que a dele, no posso negar que era um grande homem. Ora,
que diz ele nesta pgina?  E, chapu na cabea, bengala sobraada, apontava o
lugar com o dedo.  Que diz ele? Diz que o homem tem uma grande vantagem sobre
o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o
absolutamente. Vs? Logo, o homem que disputa o osso a um co tem sobre este a
grande vantagem de saber que tem fome; e  isto que torna grandiosa a luta, como
eu dizia. Sabe que morre  uma expresso profunda; creio todavia que  mais
profunda a minha expresso: sabe que tem fome. Porquanto o fato da morte limita,
por assim dizer, o entendimento humano; a conscincia da extino dura um breve
instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar,
de prolongar o estado consciente. Parece-me (se no vai nisso alguma imodstia)
que a frmula de Pascal  inferior  minha, sem todavia deixar de ser um grande
pensamento, e Pascal um grande homem.

CAPTULO CXLIII / NO
VOU

Enquanto ele restitua o livro 
estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem
acabar de engolir, fitava o canto da sala, a ponta da mesa, um prato, uma
cadeira, uma mosca invisvel, disse-me ele:  Tens alguma coisa; aposto que foi
aquela carta?  Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incomodado com o pedido de
Virglia. Tinha dado a D. Plcida cinco contos de ris; duvido muito que ningum
fosse mais generoso do que eu, nem tanto. Cinco contos! E que fizera deles?
Naturalmente botou-os fora, comeu-os em grandes festas, e agora toca para a
Misericrdia, e eu que a leve! Morre-se em qualquer parte. Acresce que eu no
sabia ou no me lembrava do tal Beco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me
algum recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de l ir, chamar a ateno dos
vizinhos, bater  porta, etc. Que maada! No vou.

CAPTULO CXLIV / UTILIDADE
RELATIVA

Mas a noite, que  boa
conselheira, ponderou que a cortesia mandava obedecer aos desejos da minha
antiga dama.

 Letras vencidas, urge pag-las,
disse eu ao levantar-me.

Depois do almoo fui  casa de D.
Plcida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre
velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar
para a Misericrdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta;
saiu da vida s escondidas, tal qual entrara. Outra vez perguntei, a mim mesmo,
como no captulo LXXV, se era para isto que o sacristo da S e a doceira
trouxeram Dona Plcida  luz, num momento de simpatia especfica. Mas adverti
logo que, se no fosse D. Plcida, talvez os meus amores com Virglia tivessem
sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena efervescncia; tal foi,
portanto, a utilidade da vida de D. Plcida. Utilidade relativa, convenho; mas
que diacho h absoluto nesse mundo?

CAPTULO CXLV / SIMPLES
REPETIO

Quanto aos cinco contos, no vale
a pena dizer que um canteiro da vizinhana fingiu-se enamorado de D. Plcida,
logrou espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou com ela; no fim de alguns
meses inventou um negcio, vendeu as aplices e fugiu com o dinheiro. No vale a
pena.  o caso dos ces do Quincas Borba. Simples repetio de um captulo.

CAPTULO CXLVI / O
PROGRAMA

Urgia fundar o jornal. Redigi o
programa, que era uma aplicao poltica do Humanitismo; somente, como o Quincas
Borba no houvesse ainda publicado o livro (que aperfeioava de ano em ano),
assentamos de lhe no fazer nenhuma referncia. Quincas Borba exigiu apenas uma
declarao, autgrafa e reservada, de que alguns princpios novos aplicados 
poltica eram tirados do livro dele, ainda indito.

Era a fina flor dos programas;
prometia curar a sociedade, destruir os abusos, defender os sos princpios de
liberdade e conservao; fazia um apelo ao comrcio e  lavoura; citava Guizot e
Ledru-Rollin, e acabava com esta ameaa, que o Quincas Borba achou mesquinha e
local: A nova doutrina que professamos h de inevitavelmente derrubar o atual
ministrio. Confesso que, nas circunstncias polticas da ocasio, o programa
pareceu-me uma obra-prima. A ameaa do fim, que o Quincas Borba achou mesquinha,
demonstrei-lhe que era saturada do mais puro Humanitismo, e ele mesmo o
confessou depois. Porquanto, o Humanitismo no exclua nada; as guerras de
Napoleo e uma contenda de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma
sublimidade, com a diferena que os soldados de Napoleo sabiam que morriam,
coisa que aparentemente no acontece s cabras. Ora, eu no fazia mais do que
aplicar s circunstncias a nossa frmula filosfica: Humanitas queria
substituir Humanitas para consolao de Humanitas.

 Tu s o meu discpulo amado, o
meu califa, bradou Quincas Borba, com uma nota de ternura, que at ento lhe no
ouvira. Posso dizer como o grande Muamede: nem que venham agora contra mim o sol
e a lua, no recuarei das minhas idias. Cr, meu caro Brs Cubas, que esta  a
verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos sculos.

CAPTULO CXLVII / O
DESATINO

Mandei logo para a imprensa uma
notcia discreta, dizendo que provavelmente comearia a publicao de um jornal
oposicionista, da a algumas semanas, redigido pelo Dr. Brs Cubas. Quincas
Borba, a quem li a notcia, pegou da pena, e acrescentou ao meu nome, com uma
fraternidade verdadeiramente humanstica, esta frase: um dos mais gloriosos
membros da passada Cmara.

No dia seguinte entra-me em casa o
Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas dissimulava, afetando sossego e at
alegria. Vira a notcia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente,
dissuadir-me de semelhante idia. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia
colocar-me numa situao difcil, e de certa maneira trancar as portas do
parlamento. O ministrio, no s lhe parecia excelente, o que alis podia no
ser a minha opinio, mas com certeza viveria muito; e que podia eu ganhar com
indisp-lo contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram afeioados; no
era impossvel uma vaga, e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que
meditara muito o passo que ia dar, e no podia recuar uma linha. Cheguei a
propor-lhe a leitura do programa, mas ele recusou energicamente, dizendo que no
queria ter a mnima parte no meu desatino.

  um verdadeiro desatino,
repetiu ele; pense ainda alguns dias, e ver que  um desatino.

A mesma coisa disse Sabina, 
noite, no teatro. Deixou a filha no camorote, com o Cotrim, e trouxe-me ao
corredor.

 Mano Brs, que  que voc vai
fazer? perguntou-me aflita. Que idia  essa de provocar o governo, sem
necessidade, quando podia...

Expliquei-lhe que no me convinha
mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha idia era derrubar o ministrio,
por no me parecer adequado  situao  e a certa frmula filosfica; afiancei
que empregaria sempre uma linguagem corts, embora enrgica. A violncia no era
especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, abanou a
cabea, e tornou ao assunto com um ar de splica e ameaa, alternadamente; eu
disse-lhe que no, que no, e que no. Desenganada, lanou-me em rosto preferi
os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido.  Pois siga
o que lhe parecer, concluiu; ns cumprimos a nossa obrigao.  Deu-me as costas
e voltou ao camarote.

CAPTULO CXLVIII / O PROBLEMA
INSOLVEL

Publiquei o jornal. Vinte e quatro
horas depois, aparecia em outros uma declarao do Cotrim, dizendo, em
substncia, que posto no militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a
ptria, achava conveniente deixar bem claro que no tinha influncia nem parte
direta ou indireta na folha de seu cunhado, o Dr. Brs Cubas, cujas idias e
procedimento poltico inteiramente reprovava. O atual ministrio (como alis
qualquer outro composto de iguais capacidades) parecia-lhe destinado a promover
a felicidade pblica.

No podia acabar de crer nos meus
olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declarao inoportuna, inslita e
enigmtica. Se ele nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente
to vulgar como a publicao de uma folha? Nem todos os cidados que acham bom
ou mau um ministrio fazem declaraes tais pela imprensa, nem so obrigados a
faz-las. Realmente, era um mistrio a intruso do Cotrim neste negcio, no
menos que a sua agresso pessoal. Nossas relaes at ento tinham sido lhanas e
benvolas; no me lembrava nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da
reconciliao. Ao contrrio, as recordaes eram de verdadeiros obsquios;
assim, por exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o
arsenal de marinha, fornecimentos que ele continuava a fazer com a maior
pontualidade, e dos quais me dizia algumas semanas antes, que no fim de mais
trs anos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois a lembrana de tamanho
obsquio no teve fora para obstar que ele viesse a pblico enxovalhar o
cunhado? Devia ser muito poderoso e motivo da declarao, que o fazia cometer ao
mesmo tempo um destempero e uma ingratido; confesso que era um problema
insolvel...

CAPTULO CXLIX / TEORIA DO
BENEFCIO

... To insolvel que o Quincas
Borba no pde dar com ele, apesar de estud-lo longamente e com boa vontade. 
Ora adeus! concluiu; nem todos os problemas valem cinco minutos de ateno.

Quanto  censura de ingratido,
Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, no como improvvel, mas como absurda,
por no obedecer s concluses de uma boa filosofia humanstica.

 No me podes negar um fato,
disse ele;  que o prazer do beneficiador  sempre maior que o do beneficiado.
Que  o benefcio?  um ato que faz cessar certa privao do beneficiado. Uma
vez produzido o efeito essencial, isto , uma vez cessada a privao, torna o
organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Supe que tens apertado em
demasia o cs das calas; para fazer cessar o incmodo, desabotoas o cs,
respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna  indiferena, e no
te lembras dos teus dedos que praticaram o ato. No havendo nada que perdure, 
natural que a memria se esvaea, porque ela no  uma planta area, precisa de
cho. A esperana de outros favores,  certo, conserva sempre no beneficiado a
lembrana do primeiro; mas este fato, alis um dos mais sublimes que a filosofia
pode achar em seu caminho, explica-se pela memria da privao, ou, usando de
outra frmula, pela privao continuada na memria, que repercute a dor passada
e aconselha a precauo do remdio oportuno. No digo que, ainda sem esta
circunstncia, no acontea, algumas vezes, persistir a memria do obsquio,
acompanhada de certa afeio mais ou menos intensa; mas so verdadeiras
aberraes, sem nenhum valor aos olhos de um filsofo.

 Mas, repliquei eu, se nenhuma
razo h para que perdure a memria do obsquio no obsequiado, menos h de haver
em relao ao obsequiador. Quisera que me explicasses este ponto.

 No se explica o que  de sua
natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma coisa mais. A
persistncia do benefcio na memria de quem o exerce explica-se pela natureza
mesma do benefcio e seus efeitos. Primeiramente h o sentimento de uma boa
ao, e dedutivamente a conscincia de que somos capazes de boas aes; em
segundo lugar, recebe-se uma convico de superioridade sobre outra criatura,
superioridade no estado e nos meios; e esta  uma das coisas mais legitimamente
agradveis, segundo as melhores opinies, ao organismo humano. Erasmo, que no
seu Elogio da Sandice escreveu algumas coisas boas, chamou a ateno para
a complacncia com que dois burros se coam um ao outro. Estou longe de rejeitar
essa observao de Erasmo; mas direi o que ele no disse, a saber que se um dos
burros coar melhor o outro, esse h de ter nos olhos algum indcio especial de
satisfao. Por que  que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho,
seno porque se acha bonita, e porque isso lhe d certa superioridade sobre uma
multido de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A conscincia
 a mesma coisa; remira-se a mido, quando se acha bela. Nem o remorso  outra
coisa mais do que o trejeito de uma conscincia que se v hedionda. No esqueas
que, sendo tudo uma simples irradiao de Humanitas, o benefcio e seus efeitos
so fenmenos perfeitamente admirveis.

CAPTULO CL / ROTAO E
TRANSLAO

H em cada empresa, afeio ou
idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro nmero do meu jornal encheu-me
a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da
mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e da a duas semanas a da
morte, que foi clandestina, como a de D. Plcida. No dia em que o jornal
amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que,
se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos
efmeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio no dizer uma coisa
inteiramente absurda. Mas, para no arriscar essa figura menos ntida e
adequada, prefiro uma imagem astronmica: o homem executa  roda do grande
mistrio um movimento duplo de rotao e translao; tem os seus dias, desiguais
como os de Jpiter, e deles compe o seu ano mais ou menos longo.

No momento em que eu terminava o
meu movimento de rotao, conclua Lobo Neves o seu movimento de translao.
Morria com o p na escada ministerial. Correu ao menos durante algumas semanas,
que ele ia ser ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritao e
inveja, no  impossvel que a notcia da morte me deixasse alguma
tranqilidade, alvio, e um ou dois minutos de prazer. Prazer  muito, mas 
verdade; juro aos sculos que  a pura verdade.

Fui ao enterro. Na sala morturia
achei Virglia, ao p do fretro, a soluar. Quando levantou a cabea, vi que
chorava deveras. Ao sair o enterro, abraou-se ao caixo, aflita; vieram tir-la
e lev-la para dentro. Digo-vos que as lgrimas eram verdadeiras. Eu fui ao
cemitrio; e, para dizer tudo, no tinha muita vontade de falar; levava uma
pedra na garganta ou na conscincia. No cemitrio, principalmente quando deixei
cair a p de cal sobre o caixo, no fundo da cova, o baque surdo da cal deu-me
um estremecimento passageiro,  certo, mas desagradvel; e depois a tarde tinha
o peso e a cor do chumbo; o cemitrio, as roupas pretas...

CAPTULO CLI / FILOSOFIA DOS
EPITFIOS

Sa, afastando-me dos grupos, e
fingindo ler os epitfios. E, alis, gosto dos epitfios; eles so, entre a
gente civilizada, uma expresso daquele pio e secreto egosmo que induz o homem
a arrancar  morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Da vem, talvez, a
tristeza inconsolvel dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes
que a podrido annima os alcana a eles mesmos.

CAPTULO CLII / A MOEDA DE
VESPASIANO

Tinham ido todos; s o meu carro
esperava pelo dono. Acendi um charuto; afastei-me do cemitrio. No podia
sacudir dos olhos a cerimnia do enterro, nem dos ouvidos os soluos de
Virglia. Os soluos, principalmente, tinham o som vago e misterioso de um
problema. Virglia trara o marido, com sinceridade, e agora chorava-o com
sinceridade. Eis uma combinao difcil que no pude fazer em todo o trajeto; em
casa, porm, apeando-me do carro, suspeitei que a combinao era possvel, e at
fcil. Meiga Natura! A taxa da dor  como a moeda de Vespasiano; no cheira 
origem, e tanto se colhe do mal como do bem. A moral repreender, porventura, a
minha cmplice;  o que te no importa, implacvel amiga, uma vez que lhe
recebeste pontualmente as lgrimas. Meiga, trs vezes Meiga Natura!

CAPTULO CLIII / O
ALIENISTA

Comeo a ficar pattico e prefiro
dormir. Dormi, sonhei que era nababo, e acordei com a idia de ser nababo. Eu
gostava, s vezes, de imaginar esses contrastes de regio, estado e credo.
Alguns dias antes tinha pensado na hiptese de uma revoluo social, religiosa e
poltica, que transferisse o arcebispo de Canturia a simples coletor de
Petrpolis, e fiz longos clculos para saber se o coletor eliminaria o
arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o coletor, ou que poro de arcebispo
pode jazer num coletor, ou que soma de coletor pode combinar com um arcebispo,
etc. Questes insolveis, aparentemente, mas na realidade perfeitamente
solveis, desde que se atenda que pode haver num arcebispo dois arcebispos,  o
da bula e o outro. Est dito, vou ser nababo.

Era um simples gracejo; disse-o,
todavia, ao Quincas Borba, que olhou para mim com certa cautela e pena, levando
a sua bondade a comunicar-me que eu estava doido. Ri-me a princpio; mas a nobre
convico do filsofo incutiu-me certo medo. A nica objeo contra a palavra do
Quincas Borba  que no me sentia doido, mas no tendo geralmente os doidos
outro conceito de si mesmos, tal objeo ficava sem valor. E vede se h algum
fundamento na crena popular de que os filsofos so homens alheios s coisas
mnimas. No dia seguinte, mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o,
fiquei aterrado. Ele, porm, houve-se com a maior delicadeza e habilidade,
despedindo-se to alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me no
achava doido.

 No, disse ele sorrindo; raros
homens tero tanto juzo como o senhor.

 Ento o Quincas Borba
enganou-se?

 Redondamente. E depois:  Ao
contrrio, se  amigo dele... peo-lhe que o distraia... que...

 Justos cus! Parece-lhe?... Um
homem de tamanho esprito, um filsofo!

 No importa, a loucura entra em
todas as casas.

Imaginem a minha aflio. O
alienista, vendo o efeito de suas palavras, reconheceu que eu era amigo do
Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da advertncia. Observou que
podia no ser nada, e acrescentou at que um grozinho de sandice, longe de
fazer mal, dava certo pico  vida. Como eu rejeitasse com horror esta opinio, o
alienista sorriu e disse-me uma coisa to extraordinria, to extraordinria,
que no merece menos de um captulo.

CAPTULO CLIV / OS NAVIOS DO
PIREU

 H de lembrar-se, disse-me o
alienista, daquele famoso manaco ateniense, que supunha que todos os navios
entrados no Pireu eram de sua propriedade. No passava de um pobreto, que
talvez no tivesse, para dormir, a cuba de Digenes; mas a posse imaginria dos
navios valia por todas as dracmas da Hlade. Ora bem, h em todos ns um manaco
de Atenas; e quem jurar que no possuiu alguma vez, mentalmente, dois ou trs
patachos, pelo menos, pode crer que jura falso.

 Tambm o senhor? perguntei-lhe.

 Tambm eu.

 Tambm eu?

 Tambm o senhor; e o seu criado,
no menos, se  seu criado esse homem que ali est sacudindo os tapetes 
janela.

De fato, era um dos meus criados
que batia os tapetes, enquanto ns falvamos no jardim, ao lado. O alienista
notou ento que ele escancarara as janelas todas deste longo tempo, que alara
as cortinas, que devassara o mais possvel a sala, ricamente alfaiada, para que
a vissem de fora, e concluiu:  Este seu criado tem a mania do ateniense: cr
que os navios so dele; uma hora de iluso que lhe d a maior felicidade da
Terra.

CAPTULO CLV / REFLEXO
CORDIAL

 Se o alienista tem razo, disse
eu comigo, no haver muito que lastimar o Quincas Borba;  uma questo de mais
ou de menos. Contudo,  justo cuidar dele, e evitar que lhe entrem no crebro
manacos de outras paragens.

CAPTULO CLVI / ORGULHO DA
SERVILIDADE

Quincas Borba divergiu do
alienista em relao ao meu criado.  Pode-se, por imagem, disse ele, atribuir
ao teu criado a mania do ateniense; mas imagens no so idias nem observaes
tomadas  natureza. O que o teu criado tem  um sentimento nobre e perfeitamente
regido pelas leis do Humanitismo:  o orgulho da servilidade. A inteno dele 
mostrar que no  criado de qualquer.  Depois chamou a minha ateno
para os cocheiros de casa grande, mais empertigados que o amo, para os criados
de hotel, cuja solicitude obedece s variaes sociais da freguesia, etc. E
concluiu que era tudo a expresso daquele sentimento delicado e nobre,  prova
cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas,  sublime.

CAPTULO CLVII / FASE
BRILHANTE

 Sublime s tu, bradei eu,
lanando-lhe os braos ao pescoo.

Com efeito, era impossvel crer
que um homem to profundo chegasse  demncia; foi o que lhe disse aps o meu
abrao, denunciando-lhe a suspeita do alienista. No posso descrever a impresso
que lhe fez a denncia; lembra-me que ele estremeceu e ficou muito plido.

Foi por esse tempo que eu me
reconciliei outra vez com o Cotrim, sem chegar a saber a causa do dissentimento.
Reconciliao oportuna, porque a solido pesava-me, e a vida era para mim a pior
das fadigas, que  a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado por ele a
filiar-me numa Ordem Terceira; o que eu no fiz sem consultar o Quincas Borba:

 Vai, se queres, disse-me este,
mas temporariamente. Eu trato de anexar  minha filosofia uma parte dogmtica e
litrgica. O Humanitismo h de ser tambm uma religio, a do futuro, a nica
verdadeira. O cristianismo  bom para as mulheres e os mendigos, e as outras
religies no valem mais do que essa: oram todas pela mesma vulgaridade ou
fraqueza. O paraso cristo  um digno mulo do paraso muulmano; e quanto ao
nirvana de Buda no passa de uma concepo de paralticos. Vers o que  a
religio humanstica. A absoro final, a fase contrativa,  a
reconstituio da substncia, no o seu aniquilamento, etc. Vai aonde te chamam;
no esqueas, porm, que s o meu califa.

E vede agora a minha modstia;
filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci ali alguns cargos, foi essa a fase
mais brilhante da minha vida. No obstante, calo-me, no digo nada, no conto os
meus servios, o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que
recebi, nada, no digo absolutamente nada.

Talvez a economia social pudesse
ganhar alguma coisa, se eu mostrasse como todo e qualquer prmio estranho vale
pouco ao lado do prmio subjetivo e imediato; mas seria romper o silncio que
jurei guardar neste ponto. Demais, os fenmenos da conscincia so de difcil
anlise; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que a ele se
prendessem, e acabava fazendo um captulo de psicologia. Afirmo somente que foi
a fase mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia
da desgraa, que  to aborrecida como a do gozo, e talvez pior. Mas a alegria
que se d  alma dos doentes e dos pobres,  recompensa de algum valor; e no me
digam que  negativa, por s receb-la o obsequiado. No; eu recebia-a de um
modo reflexo, e ainda assim grande, to grande que me dava excelente idia de
mim mesmo.

CAPTULO CLVIII / DOIS
ENCONTROS

No fim de alguns anos, trs ou
quatro, estava enfarado do ofcio, e deixei-o, no sem um donativo importante,
que me deu direito ao retrato na sacristia. No acabarei, porm, o captulo sem
dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcela; e
vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortio, para distribuir esmolas,
achei... Agora  que no so capazes de adivinhar... achei a flor da moita,
Eugnia, a filha de D. Eusbia e do Vilaa, to coxa como a deixara, e ainda
mais triste.

Esta, ao reconhecer-me, ficou
plida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabea, e
fitou-me com muita dignidade. Compreendi que no receberia esmolas da minha
algibeira, e estendi-lhe a mo, como faria  esposa de um capitalista.
Cortejou-me e fechou-se no cubculo. Nunca mais a vi; no soube nada da vida
dela, nem se a me era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha misria. Sei
que continuava coxa e triste. Foi com esta impresso profunda que cheguei ao
hospital, onde Marcela entrara na vspera, e onde a vi expirar meia hora depois,
feia, magra, decrpita...

CAPTULO CLIX /
SEMIDEMNCIA

Compreendi que estava velho, e
precisava de uma fora; mas o Quincas Borba partira seis meses antes para Minas
Gerais, e levou consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro meses depois, e
entrou-me em casa, certa manh, quase no estado em que eu o vira no Passeio
Pblico. A diferena  que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para
o fim de aperfeioar o Humanitismo, queimara o manuscrito todo e ia recome-lo.
A parte dogmtica ficava completa, embora no escrita; era a verdadeira religio
do futuro.

 Juras por Humanitas?
perguntou-me.

 Sabes que sim.

A voz mal podia sair-me do peito;
e alis no tinha descoberto toda a cruel verdade. Quincas Borba no s estava
louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de conscincia, como uma frouxa
lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situao. Sabia-o, e
no se irritava contra o mal; ao contrrio, dizia-me que era ainda uma prova de
Humanitas, que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos captulos do
livro, e antfonas, e litanias espirituais; chegou at a reproduzir uma dana
sacra que inventara para as cerimnias do Humanitismo. A graa lgubre com que
ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantstica. Outras vezes
amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em
longe, fulgurava um raio persistente da razo, triste como uma lgrima...

Morreu pouco tempo depois, em
minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma iluso, e que Pangloss,
o caluniado Pangloss, no era to tolo como o sups Voltaire.

CAPTULO CLX / DAS
NEGATIVAS

Entre a morte do Quincas Borba e a
minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal
deles foi a inveno do emplasto Brs Cubas, que morreu comigo,
por causa da molstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro
lugar entre os homens, acima da cincia e da riqueza, porque eras a genuna e
direta inspirao do Cu. O caso determinou o contrrio; e a vos ficais
eternamente hipocondracos.

Este ltimo captulo  todo de
negativas. No alcancei a celebridade do emplasto, no fui ministro, no fui
califa, no conheci o casamento. Verdade  que, ao lado dessas faltas, coube-me
a boa fortuna de no comprar o po com o suor do meu rosto. Mais; no padeci a
morte de D. Plcida, nem a semidemncia do Quincas Borba. Somadas umas coisas e
outras, qualquer pessoa imaginar que no houve mngua nem sobra, e
conseguintemente que sa quite com a vida. E imaginar mal; porque ao chegar a
este outro lado do mistrio, achei-me com um pequeno saldo, que  a derradeira
negativa deste captulo de negativas:  No tive filhos, no transmiti a nenhuma
criatura o legado da nossa misria.

FIM
