TEATRO, O Bote de Rap, 1878

O Bote de Rap

Comdia em sete colunas

Edio
  referncia:

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994

Publicado originalmente em O Cruzeiro,  Rio de Janeiro, 1878.

PERSONAGENS:

Tom

Um relgio na parede

Elisa, sua mulher

O nariz de Tom

Um caixeiro

CENA PRIMEIRA: TOM, ELISA (entra vestida)

TOM -- Vou mandar  cidade o Chico ou o Jos.

ELISA -- Para... ?

TOM -- Para comprar um bote de rap.

ELISA -- Vou eu.

TOM -- Tu?

ELISA -- Sim. Preciso escolher a cambraia,

A renda, o gorgoro e os gales para a saia,

Cinco rosas da China em casa da Natt,

Um par de luvas, um peignoir e um pliss,

Ver o vestido azul, e um vu... Que mais? Mais nada.

TOM -- (rindo)

Dize logo que vs buscar se uma assentada

Tudo quanto possui a Rua do Ouvidor.

Pois aceito, meu anjo, esse imenso favor.

ELISA -- Nada mais? Um chapu? Uma bengala? Um fraque?

Que te leve um recado ao Dr. Burlamaque?

Charutos? Algum livro? Aproveita, Tom!

TOM -- Nada mais; s preciso o bote de rap...

ELISA -- Um bote de rap! Tu bem sabes que a tua Elisa...

TOM -- Estou doente e no posso ir  rua.

Esta asma infernal que me persegue... Vs?

Melhor fora mat-la e morrer de uma vez,

Do que viver assim com tanta cataplasma.

E inda h pior do que isso! inda pior que a asma:

Tenho a caixa vazia.

ELISA (rindo) -- Oh! se pudesse estar

Vazia para sempre, e acabar, acabar

Esse vcio to feio! Antes fumasse, antes.

H vcios jarretes e vcios elegantes.

O charuto  bom tom, aromatiza, influi

Na digesto, e at dizem que restitui

A paz ao corao e d risonho aspecto.

TOM -- O vcio do rap  vcio circunspeto.

Indica desde logo um homem de razo;

Tem entrada no pao, e reina no salo

Governa a sacristia e penetra na igreja.

Uma boa pitada, as idias areja;

Dissipa o mau humor. Quantas vezes estou

Capaz de pr abaixo a casa toda! Vou

Ao meu santo rap; abro a boceta, e tiro

Uma grossa pitada e sem demora a aspiro;

Com o leno sacudo algum resto de p

E ganho s com isso a mansido de J.

ELISA -- No duvido.

TOM -- Inda mais: at o amor aumenta

Com a poro de p que recebe uma venta.

ELISA -- Talvez tenhas razo; acho-te mais amor

Agora; mais ternura; acho-te...

TOM -- Minha flor,

Se queres ver-me terno e amoroso contigo,

Se queres reviver aquele amor antigo.

Vai depressa.

ELISA -- Onde ?

TOM -- Em casa do Real;

Dize-lhe que me mande a marca habitual.

ELISA -- Paulo Cordeiro, no?

TOM -- Paulo Cordeiro.

Queres,

ELISA -- Para acalmar a tosse uma ou duas colheres

TOM -- Do xarope? Verei.

ELISA -- At logo, Tom.

TOM -- No te esqueas.

ELISA -- J sei: um bote de rap.

(sai)

CENA II

TOM, depois o seu NARIZ

TOM -- Que zelo! Que lidar! Que correr! Que ir e vir!

Quase, quase lhe falta tempo de dormir.

Verdade  que o sarau com o Dr. Coutinho

Quer festejar domingo os anos do padrinho,

 de primo-cartello, 
  um grande sarau de truz.

Vai o Guedes, o Paca, o Rubiro,
  o Cruz,

A viva do Silva, a famlia do Mata,

Um banqueiro, um baro, creio que um diplomata.

Dizem que h de gastar quatro contos de ris.

No duvido; uma ceia, os bolos, os pastis,

Gelados, ch... A coisa h de custar-lhe caro.

O mau  que eu desde j me
  preparo

A despender com isto algum cobrinho... O qu?

Quem me fala?

O NARIZ -- Sou eu; peo a vossa merc

Me console, inserindo um pouco de tabaco.

H trs horas jejuo, e j me sinto fraco,

Nervoso, impertinente, estpido, -- nariz,

Em suma.

TOM -- Um infeliz consola outro infeliz;

Tambm eu tenho a bola um pouco transtornada,

E gemo, como tu,  espera da pitada.

O NARIZ -- O nariz sem rap  alma sem amor.

TOM -- Olha podes cheirar esta pequena flor.

O NARIZ -- Flores; nunca! jamais!
  Dizem que h pelo mundo

Quem goste de cheirar esse produto imundo.

Um nariz que se preza odeia aromas tais.

Outros os gozos so das cavernas nasais.

Quem primeiro aspirou aquele p divino,

Deixas as rosas e o mais s ventas do menino.

TOM -- (consigo)

Acho neste nariz bastante elevao,

Dignidade, critrio, empenho e reflexo.

Respeita-se; no desce a farejar essncias,

guas de toucador e outras minudncias.

O NARIZ -- Vamos, uma pitada!

Um instante, infeliz!

( parte)

Vou dormir para ver se aquieto o nariz.

(Dorme algum tempo e acorda)

Safa! Que sonho; ah! Que horas so!

O RELGIO (batendo) -- Uma, duas.

TOM -- Duas! E a minha Elisa a andar por essas ruas.

Coitada! E este calor que talvez nos dar

Uma amostra do que  o pobre Cear.

Esqueceu-me dizer tomasse uma calea.

Que diacho! Tambm saiu com tanta pressa!

Pareceu-me, no sei;  ela,  ela, sim...

Este passo apressado... s tu,
  Elisa?

CENA III

TOM, ELISA, UM CAIXEIRO (com uma caixa)

ELISA -- Enfim!

Entre c; ponha aqui toda essa trapalhada.

Pode ir.

(Sai o caixeiro)

Como passaste?

TOM -- Assim; a asma danada

Um pouco sossegou depois que dormitei.

ELISA -- Vamos agora ver tudo quanto comprei.

TOM -- Mas primeiro descansa. Olha o vento nas costas.

Vamos para acol.

Cuidei voltar em postas.

ELISA -- Ou torrada.

TOM -- Hoje o sol parece estar cruel.

Vejamos o que vem aqui neste papel.

ELISA -- Cuidado!  o chapu. Achas bom?

TOM -- Excelente.

Pe l.

ELISA -- (pe o chapu)

Deve cair um pouco para a frente.

Fica bem?

TOM -- Nunca vi um chapu mais taful.

ELISA -- Acho muito engraada esta florzinha azul.

V agora a cambraia,  de linho; fazenda

Superior. Comprei oito metros de renda,

Da melhor que se pode, em qualquer parte, achar.

Em casa da Creten comprei um peignoir.

TOM (impaciente)

Em casa da Natt...

ELISA -- Cinco rosas da China.

Uma, trs, cinco. So bonitas?

TOM -- Papa-fina.

ELISA -- Comprei luvas couleur
  tilleul, crme, marron;

Dez botes para cima;  o nmero do tom

Olhe este gorgoro; que fio! que tecido!

No sei se me dar a saia do vestido.

TOM -- D.

ELISA -- Comprei os gales, um fichu,
  e este vu.

Comprei mais o pliss e
  mais este chapu.

TOM -- J mostraste o chapu.

ELISA -- Fui tambm ao Godinho,

Ver as meias de seda e um vestido de linho.

Um no, dois, foram dois.

TOM -- Mais dois vestidos?

ELISA -- Dois...

Comprei l este leque e estes grampos. Depois,

Para no demorar, corri do mesmo lance,

A provar o vestido em casa da Clemence.

Ah! Se pudesse ver como me fica bem!

O corpo  uma luva. Imagina que tem...

TOM -- Imagino, imagino. Olha, tu pes-me tonto

S com a descrio; prefiro v-lo pronto.

Esbelta, como s, hei de ach-lo melhor

No teu corpo.

ELISA -- Vers, vers que  um primor.

Oh! a Clemence! aquilo  a primeira artista!

TOM -- No passaste tambm por casa do dentista?

ELISA -- Passei; vi l a Amlia, a Clotilde, o Rangel,

A Marocas, que vai casar com o
  bacharel

Albernaz...

TOM -- Albernaz?

ELISA -- Aquele que trabalha

Com o Gomes. Trazia um vestido de palha...

TOM -- De palha?

ELISA -- Cor de palha, e um fichu de fil,

Luvas cor de pinho, e a cauda atada a um n

De cordo; o chapu tinha uma flor cinzenta,

E tudo no custou mais de cento e cinqenta,

Conversamos do baile; a Amlia diz que o pai

Brigou com o Dr. Coutinho e l no vai.

A Clotilde j tem a toilette acabada.

Oitocentos mil-ris.

O NARIZ (baixo a Tom)

Senhor, uma pitada!

TOM (com inteno, olhando para a caixa)

Mas ainda tens a uns pacotes...

ELISA -- Sabo;

Estes dois so de alface e estes de alcatro.

Agora vou mostrar-te um lindo chapelinho

De sol; era o melhor da casa do Godinho.

TOM (depois de examinar)

Bem.

ELISA -- Senti, j no bonde, um incmodo atroz.

TOM (aterrado)

Que foi?

ELISA -- Tinha esquecido as botas no Queirs.

Desci; fui logo  pressa e trouxe estes dois pares;

So iguais aos que usa a Chica Valadares.

TOM (recapitulando)

Flores, um peignoir,
  botinas, renda e vu.

Luvas e gorgoro, fichu, pliss, chapu,

Dois vestidos de linho, os gales para a saia,

Chapelinho de sol, dois metros de cambraia...

(Levando os dedos ao nariz)

Vamos agora ver a compra do Tom.

ELISA (com um grito)

Ai Jesus! esqueceu-me o bote de
  rap!
